Saiba tudo sobre a Exposição Fellini no Rio de Janeiro

70 fotos do cineasta italiano podem ser apreciadas

Por Redação

Rio de Janeiro. Sábado à tarde. Três horas para ser mais específico. Blocos de carnaval pululam na cidade à todo vapor. A atmosfera de fora do Museu de Arte Moderna, entre purpurinas e apresentações circenses, ajudou a construir o cenário perfeito para o lançamento da Exposição “O Cérebro e a Caminhada de Guido Anselmi” para comemorar o Centenário de Federico Fellini, realizador do Neo-Realismo italiano. O MAM e o Instituto Italiano de Cultura co-realizam a exposição de fotografias dos bastidores de filmagem de “8 1/2”, obra-prima de Federico Fellini (1920-1993) rodado de 8 de maio a 14 de outubro de 1962 e lançado em 16 de fevereiro de 1963, em comemoração ao centenário de nascimento do cineasta italiano.

A mostra, que acontece de hoje, 19/01, até 15/03, reúne setenta fotos, de uma coleção de mais de duas mil. Um trabalho hercúleo da Cinemateca do MAM, pela curadoria de Hernani Heffner, com assistência de Julhia Quadros. As imagens pertencem ao colecionador Antonio Maraldi.

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INSTITUTO ITALIANO DE CULTURA 

Livia Raponi, Diretora do Istituto Italiano di Cultura di Rio de Janeiro, fala sobre a exposição. “A Itália legou e tem legado ao mundo uma contribuição cultural e artística de grande valor. No campo do cinema não tem sido diferente desde a formação da grande indústria cinematográfica italiana no começo do século XX. Os filmes Históricos e o Divismo silenciosos, o Neo-Realismo, a Commedia all’Italiana, o Nuovo Cinema, os Gialli, Westerns-Spaghetti e Pepla, a Nova Comédia, todos os grandes momentos da cinematografia italiana revelaram nomes fundamentais como Pastrone, Rossellini, De Sica, Zurlini, Monicelli, Pasolini, Risi, Antonioni, Argento, Scolla, Bava, Leone, Corbucci, Moretti, os Taviani, Sorrentino. Mas, para além do talento e da contribuição artística de cada um desses e de outros cineastas e técnicos, um nome paira acima de todos como sinônimo absoluto de cinema italiano e de cinema no geral: Federico Fellini. O mestre de Rimini, que adotou Roma como sua morada definitiva, passou à história não só por sua capacidade de invenção cinematográfica, mas também por todo um mundo de imagens, personagens, cenários e mesmo atmosferas que passaram a ser chamadas simplesmente de fellinianas, tal o impacto que sua filmografia vem tendo nas artes e na cultura. Ter se tornado um vocábulo cotidiano é a real medida da importância de sua obra no mundo inteiro, criação multidimensional e multinivelada que neste ano, por ocasião do Centenário do seu nascimento, a Itália, através de sua rede diplomática e cultural no exterior, pretende celebrar.

A presente exposição O cérebro (e a caminhada) de Guido Anselmi, realizada pelo Instituto Italiano de Cultura do Rio de Janeiro e pelo Museu de Arte Moderna, utiliza parte das imagens originalmente selecionadas para a exposição “8 ½ di Federico Fellini nelle fotografie inedite di Paul Ronald”, apresentada em 2019 na Galleria delle Immagini de Rimini (Emilia-Romanha, Itália) com curadoria de Antonio Maraldi e organização do Comune e da Cineteca de Rimini. As fotografias integram a Coleção Antonio Maraldi de fotografie di scena do clássico felliniano 8 ½. Da mesma coleção foram selecionadas outras imagens não utilizadas na exposição original. Uma nova museografia e curadoria foram desenvolvidas pelo MAM Rio, permitindo o acesso a um conjunto inédito, apresentado em primeira mão fora da terra natal do cineasta e destinado ao final a compor o acervo do Museu Fellini, a ser aberto em dezembro de 2020 em Rimini.

O diferencial deste acervo repousa na autoria das imagens, a cargo do fotógrafo de cena Paul Ronald (1924-2015), especialmente contratado por Fellini para esta função na produção de 8 ½. A escolha é significativa pois o cineasta vinha de um grande sucesso com La Dolce Vita, que devia muito ao trabalho de Tazio Secchiaroli (1925-1998), inspirador de várias seqüências do filme e da própria figura do paparazzo, termo criado por Fellini para homenageá-lo. Secchiaroli também era o fotógrafo oficial dos estúdios Cinecittà e nessa condição também registrava os filmes de Fellini, tendo produzido imagens para La Dolce Vita (1960), 8 ½ (1963) e Giulietta degli Spiriti (1965), entre outros. O fotógrafo de cena habitual de Fellini até o final da carreira foi Pierluigi Praturlon (1924-1999). Mesmo um e outro tendo produzidos fotografias famosas e icônicas das filmagens de A Doce Vida, e que acabaram se tornando símbolos do cinema italiano e dos anos 1960, como o banho de Anita Ekberg na Fontana di Trevi, Fellini buscou um outro nome para o registro das filmagens e dos stills de 8 ½. Ao glamour de Praturlone e ao sentido de reportagem de Secchiaroli, ambos interessados mais nos vibrantes bastidores do que no processo de trabalho, optou pelo terceiro grande nome da fotografia de cena italiana da época. Como decano, Ronald poderia ser considerado mais clássico, o que significava preocupado com a beleza intrínseca das imagens e com uma investigação do processo de criação artística, o que pode ser conferido na exposição, corroborando a sensibilidade felliniana para um projeto tão diferenciado como 8 ½. Convidamos o público a vivenciar a intrigante caminhada sugerida pelo curador, mergulhando no universo e na mente de Fellini, e a celebrar o seu Centenário com toda a pompa e circunstância, como o mestre desejaria certamente!”.

O conjunto de fotografias de cena de “8 ½” enfoca tanto as circunstâncias peculiares da realização da obra prima de Federico Fellini, quanto o volume de imagens e a documentação mais atenta do processo de filmagem são atípicas mesmo para um cineasta que vinha se consolidando como “único”. Em uma trajetória recente marcada por premiações importantes como a Palma de Ouro por “A Doce Vida” (1960) e por uma filmografia memorialística, “8 ½” surge de início como um retrato expandido de um momento de crise pessoal, por conta da dificuldade em encaminhar um novo filme, e do mundo, devido à crise dos mísseis nucleares instalados em Cuba. A paralisia criativa leva Fellini a entrar em contato mais profundo com a psicanálise junguiana, o que lhe proporciona a adoção sistemática de um diário escrito e desenhado de sonhos, fonte de uma imagística personalíssima que alimentará o resto de sua carreira. O mergulho subjetivo se metamorfoseia em mais um alterego, dessa vez o do cineasta Guido Anselmi, cuja consciência/inconsciência forma a matéria-prima do que se vê e ouve ao longo do filme. Mas, longe de ser um mero delírio casual ou uma narrativa cifrada do Id, 8 ½ é o ingresso definitivo de Fellini no cinema moderno, uma turning point em torno do fazer cinematográfico não convencional, moldada por experimentações técnicas como o quadro esférico (a nascente proporção 1.85:1) e rigor de realização nos diferentes setores da produção de que nos dá conta justamente o presente conjunto de fotografias.Nada de fluxo de consciência, autoficção, mockumentary, memória afetiva, sonhos e pesadelos, inconsciente. Algo além.

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