José Aparecido de Oliveira – O Maior Mineiro do Mundo

In(dependência)

Por Vitor Velloso

Durante o CineOP 2020

Dentro da Mostra Contemporânea na 15ª Cine OP, “José Aparecido de Oliveira – O Maior Mineiro do Mundo” é uma questão mais programática. Por ligações imediatas com a história da “Rede Minas”, um dos fundadores, e a diversidade no material de arquivo, o documentário de Mário Lúcio Brandão Filho e Gustavo Brandão vira uma excelente pedida para compor a programação. 

O filme busca nos arquivos a história, em imagens, de José Aparecido, um dos personagens mais importantes da história brasileira no século XX, por razões diversas. E somando parte das entrevistas que os diretores agregam, o material fica bastante rico e consegue abordar parte das movimentações políticas e culturais do período em que Aparecido estava à frente das reformas. Aqui, podemos incluir como um de seus feitos, a reelaboração de Brasília, o Ministério da Cultura (com convite à Fernanda Montenegro) e a ideia de tombar a cidade para que fosse mantida a estrutura ali dada. 

O documentário não busca saídas exorbitantes para os eventuais problemas de ritmo que enfrenta, segue fiel em sua linha expositiva e informativa, trabalhando com sucesso parcial durante a maior parte do tempo. Pois ainda que o espectador possua interesse na vida de Aparecido, parte do material passa a se repetir e alguns efeitos de fotos se movendo passam a cansar excessivamente. Além disso, certas entrevistas não conseguem ser mais que meras reverberações humorísticas de alguma questão anteriormente colocada, o que torna a desafiar a tolerância do público. Onde deveria haver humor, há vácuo de silêncio.

Contudo, é possível afirmar que o caráter didático proposto em “José Aparecido de Oliveira – O Maior Mineiro do Mundo” é bastante funcional, já que uma quantidade grande de informação é condensada durante a projeção. Porém, aqui, onde se ganha didática, se perde dialética, a montagem parece não conseguir criar uma unidade em torno daquilo que é posto, diversas coisas parecem fora de contexto e a falta de objetividade no material de arquivo, como repetições excessivas de fotos diferentes em uma mesma situação, transforma tudo em uma exposição daquilo. Não há espaço para debates acerca da figura protagonista, muito menos de suas medidas políticas e ideologias, tudo é dado de forma uníssona, como um ode. 

E ainda que haja uma grande quantidade de arquivo, é possível notar um problema de desapego com determinadas imagens, que estão ali apenas para cumprir seu papel de comprovação da pesquisa, pois repetidas vezes nos pegamos analisando a mesma foto ou ângulos diferentes, com variações irrisórias, da situação. Aqui, há um limite entre a constatação e a admiração, que deveria ser mais nítido de um ponto de vista crítico da coisa, mas a base mimética do pensamento, cria essa barreira que o longa não consegue romper. Tudo se torna efêmero na História, os feitos viram dados a serem reafirmados pelos cineastas, não há nenhum tipo de variação nesse olhar. 

Com isso, o espectador se vê facilmente cansado da experiência, onde o loop passa a ser alvo da imaginação, até os nomes dos entrevistados retornam inúmeras vezes, os assuntos se repetem, em conotações distintas e contextos ampliados. Essa falta de variedade é um problema direto das biografias expositivas, pois o tom monossilábico vira pensamento metonîmico para a exaltação. 

A falta de uma estrutura mais rítmica e uma falta de consciência, crítica, com as realizações acabam transformando “José Aparecido de Oliveira – O Maior Mineiro do Mundo” um projeto que acaba cumprindo seu papel, mas com deméritos difíceis de ignorar. É uma obra que representa bem a homenagem à “Rede Minas”, por contar com a história de um dos fundadores e sem dúvida atrela parte da narrativa mineira à brasileira. 

Dentro dos possíveis debates acerca da aliança feita ali no princípio, difícil não notar a disparidade do pensamento de Darcy, da ideologia do PMDB e absolutamente compreensível que o diálogo tenha sido aberto em prol de um desenvolvimento direto do Brasil. Mas é curioso pensar que algum grau de civilidade entre lados tão distantes, hoje, é praticamente impossível de ocorrer. Fruto da gangrena do avanço da dependência. Feliz 07 de Setembro.

Trailer

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