Jesus Kid

Nos delírios de um B tupiniquim

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Gramado 2021

Uma das características inerentes de nossa cérebro é buscar zonas de conforto em visões padronizadas, conduzindo sinapses por repetição. Ciente disso, a televisão então buscou condicionar seu público às mesmas narrativas e estéticas. Uma fórmula, rotulada e algorítmica, aprovada pela mente humana. Nós espectadores nunca percebemos a invasão dominante e aceitamos passivamente toda a mitigação de novidades. A neurociência argumenta que a cada surpresa, nossa cabeça gasta energia demais e começa a pensar, atrapalhando a imersão paralisante. As novelas, por exemplo, representaram essa rotina de estímulos, objetivando o popular com tramas palatáveis e de fácil absorção. O cinematografia brasileira sempre existiu à sombra desses elementos televisivos. Ao mesmo tempo que quer impulsionar a contra cultura, com o cinema direto, crítico, político-social e de verdade, aprofundando invenções estéticas e tempos mais observacionais do cotidiano, também se sucumbe à praticidade da fama, ressignificando referências, homenagens, movimentos e gêneros de outros filmes, mas sem o resultado autoral e sem sutilezas, porque tudo parece que precisa ser mais explícito, não apenas incorporar a ideia e sim copiá-la com toques tupiniquins. “Jesus Kid” é um desses exemplos.

Integrante da mostra competitiva do Festival de Cinema de Gramado 2021, o novo filme de Aly Muritiba (de “Ferrugem”, “Para Minha Amada Morta”) quer potencializar o visual pela identificação destrambelhada e imediata das referências americanas de Wes Anderson, Jim Jarmusch, Irmãos Coen e Quentin Tarantino. Cria-se o um novo gênero: o autoral de miscelânea importada (de arquétipos personagens do cinema), na forma de esquetes complementadas, que evocam atrapalhados gatilhos comuns da novela, chanchada, pornochanchada e do cinema marginal. Talvez a grande questão de “Jesus Kid” seja mesmo presumir ingênua seriedade no humor e não optar pela despretensão amadora, gerando a falsa sensação de “roda reinventada” ao trazer a sátira que “ri do nosso meio e brinca com as demandas publicitárias”. Ao escolher a condução pela metalinguagem (com estético olhar arthouse – digamos até mais publicitário), elemento já gasto, e incorporado no imaginário popular (como sons de uma descarga de privada – almejando assim a atmosfera, bem mais light e bem mais romanceada, de Charles Bukowski), o filme nasce datado. Talvez este seja o propósito. O de resgatar a nostalgia old school das existências humanas. De um passado, prático com seu maniqueísmo. De um mundo menos rotulado entre caubóis, “ladrãozinho de banheira” e sexualidade livre. As “brigas na rua”, como se fossem do Velho Oeste, causam esse “saudosismo”.

Mas em “Jesus Kid” nada quer ser esquecido. Até a crítica político-social é pincelada com notícias de telejornal sobre a privatização da Petrobras e a guerra com o Irã por causa do petróleo. E/ou o peixe preto que se chama “Gregório de Matos”, o “Boca do Inferno”. E/ou a vizinha com a camisa do Brasil que olha torto para ele. E/ou um escritor que não lê; que ficou famoso pelo gênero faroeste (“um gênero morto – não depois do que Tarantino fez com de Django Livre”) e a “gênese do pistoleiro”; e que foi escolhido para escrever a biografia do Presidente do Brasil. E/ou um diretor que o escala com arrogantes e fúteis ideias para o roteiro (que cita “fama humana” de “Tropa de Elite”. Sim, como já foi mencionado, nada aqui é sutil. A transmissão tem que ser a mais clara, didática e mastigada possível. “São só detalhes da história”, diz-se. Essa metalinguagem acaba encontrando a sub metalinguagem. “Vocês querem adaptar Jesus Kid para o cinema?”, pergunta. “Não. A história é de um diretor e suas dificuldades criativas; a dor a dor da criação. Um filme sobre escrito em crise. Um super hollywoodiano.”, responde-se. Nosso protagonista Eugênio (interpretado por Paulo Miklos) precisa ficar confinado três meses escrevendo sem sair do hotel. É internalizado assim um que de “Mank”, de David Fincher (sobre os bastidores de “Cidadão Kane”, de Orson Welles) com “Mais Estranho que a Ficção”, de Marc Forster, este pela personificação do personagem que escreve a ficção. “O processo deve ser um mergulho. Faça de tudo para facilitar a imersão”, apresenta-se as regras.

“Jesus Kid”, roteirizado pelo próprio Aly, após o ator Sérgio Marone (que vive “Jesus Kid” – “Eu existo pra você suportar a sua mediocridade” – sem desvincular o corpo sarado de seu papel) ter comprado os direitos do livro homônimo de Lourenço Mutarelli (autor de “O Cheiro do Ralo”), quer fazer picardia com diretores prepotentes (e com grana sobrando), mas que só olham a bilheteria. “O povo quer ver um cara comum sofrendo e depois se superando”, “ensina”, entre ironias de “escritor mediano” e a outros que de “romances espíritas”. O filme força essa graça espontânea (como a inserção do livro-manual “12 mandamentos do roteirista” e/ou “Cigarro me incomoda só quando acendem” e/ou o pato da Fiesp e/ou “culpar comunista”). E mais uma vez traz a crítica política. “O governo está comprando o estoque e investir em novos materiais. Não pode escrever sobre personagens que ofendem Nosso Senhor Jesus. E quem não se adaptar vai desaparecer. Das prateleiras é claro. O livro pode ser meio picante, um Sabrina destinado as mulheres cristãs. Escrever é um serviço à pátria e o ameaça.”, intimida-se com ameaças e tipos caricatos de Brasil. A expectativa é ser Sherlock Holmes ao moldes de “Barton Fink – Delírios de Hollywood”, mas a realidade conseguida é mesmo o Paulo Coelho e um “pornô evangélico”. Ao incorporar a comédia pastelão de suspense-noir-neon, o assobio típico do caubóis, piadas sexuais e/ou do Tio do Pavê com o Fanta, “Jesus Kid” prefere o caminho mais fácil de Filme B, forçando o tom desbocado, escatológico, fisiológico e de discurso agressivo. “Nada faz sentido nessa história. Nada.”, diz-se. Sim, isso sim uma metalinguagem com o que assistimos. “Isso parece filme de Woody Allen, é muito diálogo e cadê a ação”, pergunta-se. A sub metalinguagem da metalinguagem mencionada aqui anteriormente, inclusive com a expressão da quarta parede, cria uma imediatista analogia: a da bagunça de lá da ficção foi sinalizada pela daqui. Pois é, é o “samba do crioulo doido” que surtou de vez.

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