Indianara

A beleza de cada momento

Por Julhia Quadros

Festival de Cannes 2019

Alexandre morreu; Alexandre foi enterrado; Alexandre tornou-se pó. O pó é terra; da terra, faz-se argila; por que, então, não se poderá tapar um barril de cerveja com a argila em que ele se converteu? O grande César morto e em pó tornado, pode a fenda vedar ao vento irado. O pó que o mundo inteiro trouxe atento, ora o mundo protege contra o vento”, de William Shakespeare, em “Hamlet“. 

Uma das principais funções das obras de arte é registrar os momentos históricos, políticos e sócio-econômicos em que estão inseridas; ao se produzir algo, é possível observar questões que vão muito além dos objetivos do artista naquele momento, que revelam ideais e opiniões recorrentes na sociedade próprias daquele contexto. O filme “Indianara”, dirigido por Aude Chevalier-Beaumel e Marcelo Barbosa é uma excelente exemplo deste caso, em que uma produção artística evidencia um pensamento próprio de uma época, registrando seus costumes, características e lutas, em que uma figura política é acompanhada ao longo de um documentário, que evidencia os desejos por igualdade enquanto uma força-motriz para as conquistas desejadas. Indianara Siqueira é uma mulher muito importante no cenário político atual, ativista, que luta pela causa das pessoas transexuais, travestis e transgêneros, sendo ela mesma uma delas, acolhendo diversas pessoas na Casa Nem, um espaço onde elas constroem um ambiente familiar e participam de eventos, como oficinas, debates, festas e shows. Ela teve um papel muito importante tanto na luta pela visibilidade destas pessoas e conquistas públicas, assim como em histórias de vida particulares de diversas pessoas transexuais, que conseguiram compreender melhor suas visões de mundo devido às questões discutidas e defendidas pela ativista. Sua decisão de interromper a carreira política aos cinquenta anos foi o que motivou os cineastas a filmarem o documentário, que se torna um rico registro das movimentações ideológicas e políticas dos últimos quatro anos.

A obra se inicia registrando a vida de Indianara em 2016, com imagens de manifestações contra o governo de Michel Temer e ao final, já evidencia as mudanças negativas após a vitória de Jair Bolsonaro ao final de 2018, a tristeza das pessoas ao receberam a notícia ao final das eleições e a constante luta pelos objetivos. O filme, exibido na mostra ACID do Festival de Cannes 2019, também registra o assassinato de Marielle Franco em março de 2018 e as pessoas desoladas ao saberem da injustiça em uma das sequências mais tristes e belas no filme. No debate após a sessão de abertura, Indianara diz que  “se a personagem que o documentário tivesse escolhido para seguir fosse Marielle, teria sido bastante diferente”. Assim, entre lutas, conquistas, decepções, golpes, tristeza e festas, o filme registra os últimos anos do país através da perspectiva das pessoas transexuais, que, de acordo com a protagonista, ainda são constantemente excluídas das mídias e dos grandes centros sociais. É um belo registro da carreira e da vida de Indianara, enquanto pessoa, gestora e política, em sequências em que ela se diverte, bebe com o marido, luta pelas causas que defende e divide um pouco de sua história e das pessoas com quem convive na Casa Nem.

Ao falar sobre o processo de filmagem, a protagonista diz estar acostumada com as câmeras, uma vez que já posara em revistas e nunca se preocupara com registros. Ela se porta com naturalidade, havendo diversas sequências com muita espontaneidade e intimismo, em que é possível para o espectador observar o cotidiano dela e das pessoas registradas quase como se fosse parte das festas e dos eventos. Bem como as cenas mais tristes, como a morte de Marielle ou a saída do lugar em que estavam morando são completamente envolventes, evidenciando a intensidade de cada momento. A primeira sequência se dá em um velório de uma mulher que morara na Casa Nem e, já naquele momento, cita-se a igualdade das pessoas que estão nos túmulos, diz-se que nesse momento que, independente da identidade de gênero ou da orientação sexual, todos irão para as covas do mesmo jeito. É um dos momentos mais belos e, não podemos deixar de nos lembrar de Hamlet, de William Shakespeare (1604), que naquele momento da Idade Moderna, em que se questionavam os padrões feudais remanescentes na sociedade burguesa, através da cena do cemitério, o autor defende que independentemente da ordem (nobreza, clero ou povo) em que a pessoa nasça, o destino de todas elas será igual após a morte.

Ao pegar um crânio e constatar que ele poderia ter pertencido a uma pessoa qualquer em uma sociedade estamental, o príncipe se torna consciente do quão insustentável é a sua posição de nobreza e que tudo o que tem não é suficiente para responder seus questionamentos acerca do mundo. A morte se faz soberana, tanto na perda se seu pai, quanto nas evidências da decomposição homogênea de todos os cadáveres. Assim como esta questão se torna pertinente na conhecida peça do Teatro Elizabetano para propor uma mudança de pensamento, ela volta com a mesma posição na primeira sequência no filme Indianara, uma vez que ela questiona uma manutenção de ideais e formas de comportamento não mais condizentes com o mundo de hoje. Assim como tornava igual uma sociedade dividida em ordens, a morte também destrói os padrões de uma sociedade que já questiona a divisão em classes e, principalmente, a supremacia e maior visibilidade de determinadas identidades de gêneros ou sexualidades em relação a outras. 

Com muitos planos fechados e de câmera na mão, captados por Marcelo Barbosa, a decupagem de “Indianara” contribui para esta sensação de intimismo em sua construção, evidenciando pequenas partes que compõem o todo da vida de uma pessoa. Dias aleatórios e significativos, trazendo ao documentário um bom ritmo semelhante ao da vida em si. Há algo de poético e barroco nesta construção, de algo positivo, artístico e sublime que se faz e se cria de momentos de tristeza ou de luta por uma situação melhor. A obra é, principalmente, um registro político e ideológico do Brasil atual, com seus principais acontecimentos, como as mudanças na política, as manifestações as injustiças e as intensas mudanças que estamos vivenciando em relação às lutas por igualdade, às questões de gênero e estrutura social. O filme ao mesmo tempo em que transmite os acontecidos, propõe um olhar sensível e poético sobre eles, de pessoas que muitas vezes não são vistas e que estão todas representadas por Indianara.

 

Cena Exclusiva

Anuncie no Vertentes do Cinema

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *