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Inabitável

Apesar de você...

Por Victor Faverin

Durante o Festival de Gramado 2020

A discussão sobre a diferença entre direito e privilégio é um sinal de nossos tempos. Afinal, se uma pessoa branca e heterossexual pode trafegar livremente pela rua ou entregar documentos pessoais em uma repartição pública sem ser olhada com desconfiança ou desdém ao passo que outra preta e homossexual não possui tal sorte, estamos falando de alguém com regalias. Legitimidade precisa, obrigatoriamente, independer de raça, credo ou orientação. Mas como a importância de um debate tão urgente e delicado como esse pode chegar às massas? Uma das possibilidades é através do amor de uma mãe à procura de sua filha trans, como retratado no curta-metragem pernambucano “Inabitável” (2020), dirigido por Matheus Farias e Enock Carvalho e que compõe a Mostra Competitiva do 48º Festival de Cinema de Gramado.

Essa mãe, papel de Luciana Souza (“Bacurau” 2019), transmite o perfeito equilíbrio entre serenidade, determinação e angústia ao ser filmada em enquadramentos que denotam senso de urgência. A câmera, sorrateira, age como se estivesse em busca do pranto, de uma única lágrima a percorrer o rosto de uma mulher ao mesmo tempo resignada “porque a polícia não está nem aí para a gente” e ciente da própria força. Nesse escrutínio calculado, a história faz lembrar de outro curta nordestino: “Litania da velha” (1997), de Frederico Machado. Porém, enquanto o filme da década de 90 apresentava vielas e casas prontos a sufocar a protagonista, “Inabitável” traz esse retrato periférico urbano como elemento a ser transposto, tudo auxiliado pela trilha sonora inquietante e a sonoplastia que envolvem a personagem central em um mistério prestes a se materializar.

Os diretores são certeiros ao mostrar o estranho objeto que pode ser a pista do paradeiro da filha como uma parafernalha tecnológica que, nas mãos de uma pessoa puramente acostumada ao mundo real, pode significar tudo, mas que se fosse apresentado a alguém acostumado com gadgets, encararia o produto apenas como um tipo diferente de lanterna e largaria mão, soberbo e pretenso. De forma tocante e simbólica, o filme entranha-se no olhar materno com uma mensagem esperançosa de que precisa existir, em algum lugar, um cantinho especial para que filhos amados não sejam feridos pela intolerância e beligerância alheia.

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    Matheus Farias e Enock Carvalho estão trabalhando com profissionalismo, mas acima de tudo, estão tocando o coração das pessoas e dando visibilidade a uma questão muito importante em relação ao respeito para com as pessoas trans, cidadãs e cidadãos muito marginalizados.

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    Um filme que trata uma temática muito vivida em nossa sociedade. O descaso em relação às pessoas trans ou qualquer um que faça parte da comunidade LGBTQI+.
    Uma forma ficcional de encontrar uma saída para outro lugar, pois aqui, agora, está INABITÁVEL.

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