Mostra Um Curta Por Diq mes 13

Litania da Velha

Na contramão da vida

Por Fabricio Duque

Litania da Velha

Antes de traçar linhas analíticas sobre “Litania da Velha” (1997), primeiro curta-metragem de Frederico Machado, um maranhense típico e apaixonado pelo cinema e por São Luiz do Maranhão, tanto que dedica este filme a sua cidade, lutando para que o apagamento cinematográfico não aconteça, antes de tudo, precisamos falar sobre o tempo, especial e de atemporalidade importada.

Não se sabe se é por causa da filmagem em 35mm e/ou pela fotografia que remete o cinema clássico pré Cinema Novo e/ou pela narração de Othon Bastos (baseada no poema homônimo da escritora Arlete Nogueira da Cruz – que também assume a função de Diretora de Arte), que poetiza a imagem, a transcendendo à humanização e a uma resignação formal da estética orgânica do olhar. E/ou, muito provável, pela construção entregue e naturalizada da protagonista, a “velha mendiga”, encarnada por Porfíria de Jesus.

Esse não saber é a maestria mais pura de “Litania da Velha”, que oferta a seu espectador uma experiência crua, seca e direta. Uma tradução literária pela cadência ritmada (e com controle absoluto da direção). Uma observacional crítica social. Uma adjetivada “aventura on the street”, que desvela e dilacera o ser como cenário e não como humano. “Os olhos de pedra investigam de longe”, diz-se com uma das frases mais arrebatadoras, não só por sua potência, mas especialmente pelo confronto de distanciar indivíduos por “fantasiosas” classes, e que foram criadas e condicionadas pelos mesmos primatas em evolução.

“Litania da Velha” é ouvir um “O tempo que consome o silêncio e mastiga vagaroso a feroz injustiça”. É sobre a “audácia”, “imprudência” e “ferida aberta da recordação”. Sobre “catar os pertences” e “quarto que exibe a miséria”. Sobre “babar espasmos da inconsciência”. Todas as palavras tornam-se personagens reais, porque nós podemos visualizar. É concreta e não mais um simples fluxo de pensamento.

É um filme sensorial. De dura sinestesia, sem suavizações e com os metódicos-sintomáticos planos. Há aqui um balé da imagem (de olho de peixe à subjetiva), em que macro e micro não existem mais. Apenas o instante integrado. Ela, a personagem, que apesar de ser chamada de “Velha mendiga” possui casa e lembranças-quinquilharias, resolve se revolucionar pelas ruas, mostrar que existe. Reverter a atenção, ainda que cave um trecho da música “Construção”, de Chico Buarque (“morreu na contramão atrapalhando o tráfego”). Nossa personagem resolve acordar. Tem um flash de urgência contra a volta da alienação do aceitar o “normal” como cotidiano enraizado.

Chacoalha-se o “frio os convites”, “a flacidez dos anos”, o “sal sujo das lágrimas”, “desaba o sobrado sobre a complacência de quem espreita essa queda” e revela a sobrevivência adulta de crianças “jacintos errantes”. Ela, a Velha saí também para testemunhar o “novo mundo”, quase “poupada”, como no livro Caim de José Saramago. São “desejos frustrados deixados no chão” e tragédias dos anos”.

“Litania da Velha” é uma terapia de choque por uma realidade abordada por essa epopéia, quase salmo. Sim, litania é também chamada de ladainha, uma forma de oração que consiste em uma série de preces organizada em curtas invocações alternadamente entre um solista e a assembleia produzindo um efeito encantatório. No imaginário empírico, ladainha também significa conversa fiada, papo furado, conversa mole. É isso que nossa Velha encontra pela caminho.

O curta-metragem faz uma “homenagem especial aos artistas plásticos que doando seus quadros ajudaram a realizar este filme”. Um deles foi Ferreira Gullar. Assim, Frederico Machado, filho do poeta Nauro Machado, comprova logo na estreia que sabe como filmar o tempo. Que sabe como conduzir o público por uma humanista-intimista fábula-parábola, que ultrapassa o gênero estética da fome. “Litania da Velha” pulsa, latente e visceral, o foco a uma vida, que importa, independentemente de ser quem é. Um filme poesia. Uma poesia filme.

 

Assista Aqui

https://www.youtube.com/watch?v=S7RmiPQHdR8

5 Nota do Crítico 5 1

Pix Vertentes do Cinema

  • Tudo isso, sim, é Frederico Machado, que segue, hoje, com um cinema maduro, preocupado com seu lugar e com as pessoas desse lugar. Frederico é, acima de tudo, um poeta que escreve poemas vivos através das lentes de sua câmera.

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