Litania da Velha

Na contramão da vida

Por Fabricio Duque

Antes de traçar linhas analíticas sobre “Litania da Velha” (1997), primeiro curta-metragem de Frederico Machado, um maranhense típico e apaixonado pelo cinema e por São Luiz do Maranhão, tanto que dedica este filme a sua cidade, lutando para que o apagamento cinematográfico não aconteça, antes de tudo, precisamos falar sobre o tempo, especial e de atemporalidade importada.

Não se sabe se é por causa da filmagem em 35mm e/ou pela fotografia que remete o cinema clássico pré Cinema Novo e/ou pela narração de Othon Bastos (baseada no poema homônimo da escritora Arlete Nogueira da Cruz – que também assume a função de Diretora de Arte), que poetiza a imagem, a transcendendo à humanização e a uma resignação formal da estética orgânica do olhar. E/ou, muito provável, pela construção entregue e naturalizada da protagonista, a “velha mendiga”, encarnada por Porfíria de Jesus.

Esse não saber é a maestria mais pura de “Litania da Velha”, que oferta a seu espectador uma experiência crua, seca e direta. Uma tradução literária pela cadência ritmada (e com controle absoluto da direção). Uma observacional crítica social. Uma adjetivada “aventura on the street”, que desvela e dilacera o ser como cenário e não como humano. “Os olhos de pedra investigam de longe”, diz-se com uma das frases mais arrebatadoras, não só por sua potência, mas especialmente pelo confronto de distanciar indivíduos por “fantasiosas” classes, e que foram criadas e condicionadas pelos mesmos primatas em evolução.

“Litania da Velha” é ouvir um “O tempo que consome o silêncio e mastiga vagaroso a feroz injustiça”. É sobre a “audácia”, “imprudência” e “ferida aberta da recordação”. Sobre “catar os pertences” e “quarto que exibe a miséria”. Sobre “babar espasmos da inconsciência”. Todas as palavras tornam-se personagens reais, porque nós podemos visualizar. É concreta e não mais um simples fluxo de pensamento.

É um filme sensorial. De dura sinestesia, sem suavizações e com os metódicos-sintomáticos planos. Há aqui um balé da imagem (de olho de peixe à subjetiva), em que macro e micro não existem mais. Apenas o instante integrado. Ela, a personagem, que apesar de ser chamada de “Velha mendiga” possui casa e lembranças-quinquilharias, resolve se revolucionar pelas ruas, mostrar que existe. Reverter a atenção, ainda que cave um trecho da música “Construção”, de Chico Buarque (“morreu na contramão atrapalhando o tráfego”). Nossa personagem resolve acordar. Tem um flash de urgência contra a volta da alienação do aceitar o “normal” como cotidiano enraizado.

Chacoalha-se o “frio os convites”, “a flacidez dos anos”, o “sal sujo das lágrimas”, “desaba o sobrado sobre a complacência de quem espreita essa queda” e revela a sobrevivência adulta de crianças “jacintos errantes”. Ela, a Velha saí também para testemunhar o “novo mundo”, quase “poupada”, como no livro Caim de José Saramago. São “desejos frustrados deixados no chão” e tragédias dos anos”.

“Litania da Velha” é uma terapia de choque por uma realidade abordada por essa epopéia, quase salmo. Sim, litania é também chamada de ladainha, uma forma de oração que consiste em uma série de preces organizada em curtas invocações alternadamente entre um solista e a assembleia produzindo um efeito encantatório. No imaginário empírico, ladainha também significa conversa fiada, papo furado, conversa mole. É isso que nossa Velha encontra pela caminho.

O curta-metragem faz uma “homenagem especial aos artistas plásticos que doando seus quadros ajudaram a realizar este filme”. Um deles foi Ferreira Gullar. Assim, Frederico Machado, filho do poeta Nauro Machado, comprova logo na estreia que sabe como filmar o tempo. Que sabe como conduzir o público por uma humanista-intimista fábula-parábola, que ultrapassa o gênero estética da fome. “Litania da Velha” pulsa, latente e visceral, o foco a uma vida, que importa, independentemente de ser quem é. Um filme poesia. Uma poesia filme.

 

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    Tudo isso, sim, é Frederico Machado, que segue, hoje, com um cinema maduro, preocupado com seu lugar e com as pessoas desse lugar. Frederico é, acima de tudo, um poeta que escreve poemas vivos através das lentes de sua câmera.

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