Helen

Maldito seja

Por Vitor Velloso

Durante o CineOP 2020

O submundo é sintonia do subdesenvolvimento, da dependência, do oprimido, lar dos desgraçados, dos esquecidos, e todos que a mãe pariu. “Helen”, de André Meirelles Collazzo, é uma complexa configuração de realismo fantástico com “Inferninho” e Plínio Marcos em transa de estética e estrutura.

Ora se ordena com uma plasticidade que recusa o realismo, ora busca a naturalização daquele ambiente. O local de trabalho de Dona Graça (Marcela Cartaxo) é o artifício máximo da encenação, seus componentes se dividem de acordo com as luzes, que separam o filme, cria a dualidade tão cara ao projeto. Por um lado temos o sonho de presentear a avó com um estojo de maquiagem, por outro, os pais negam a criança constantemente, um filhinho de papai à lá “Aquarius”, repressão policial, racismo, exploração e abuso infantil. Essas divergências internas na narrativa, são dadas através do olhar de uma menina de 9 anos, Helen, e como uma criança, há pureza no olhar, há o encantamento nos olhos, ausente nos adultos. E há limites.

Em determinado ponto da narrativa tudo aquilo que antes não surgia no quadro, passa a ser espiado, na surdina, a inocência se torna alvo da realidade, nada mais se salva. O subdesenvolvimento corrompeu a sociedade, a capacidade de empatia e solidariedade é salvaguardada por uma criança, uma esperança que carrega às felicitações, hesitante.

Na forma, o teatro torna a desenrolar a arte cinematográfica enquanto mise-en-scène, marcada, dada em ritmo de palco, local. Cinema-geográfico. O lirismo vira sonho perdido, o vizinho abusa, o presente é negado. Nada se encontra. Exceto ali, à noite, onde o churrasco é gravidade, reúne todos. Mas o Estado destrói, é truculento, surge rompendo a banda sonora, agride, faz piada e sai impune. A polícia fazia a escolta. Salvaguardar a ordem pública, agredindo pobre, perseguindo preto. Trabalho bem feito.

O poder particular, detentor do capital, quer despejar todos, vender, demolir e construir algo, em cima de histórias e famílias. “Helen” é mais honesto que “Aquarius”, não tá no litoral protegendo a memória da burguesia. Mas Helen é só uma garota que quer comprar o estojo de maquiagem para sua vó. Junta dinheiro para isso. Mas… temos que pagar as contas. Nove anos.

A montagem do filme consegue intercalar de forma eficiente as dicotomias da narrativa, os pontos dramáticos. O longa acaba pecando na construção das duas cenas assumidamente fantásticas. O discurso é direto, mas atravessa a narrativa de maneira pouco consciente de seu papel, possui um impacto visual grande porém falha na conjuntura. Acaba tornando-se excessivamente paralelo ao encaminhamento.

Nada disso transforma a experiência de “Helen” ordinária. O projeto é duro, doce, violento, carinhoso, forte, frágil etc. Sempre destrói um ponto anterior. Flerta com o gore terceyro mundista, o capitalismo dependente em sua capilarização no mundo “marginal”, o Bexiga é ponto dos escorraçados da sociedade, tal como “Inferninho”. Aqui não é local de encontro, sim de moradia, sobrevivência. É o materialismo pondo a prova os povos enquanto refrega cultural, transa absoluta, sincretismo que urge em política (ponto frágil) e sonho infantil, tão caro no Brasil.

Se o subdesenvolvimento estraçalha a infância, “Helen” tenta resgatá-la, faz esforço para solavancar o lirismo, bate na parede de concreto. Dinheiro. Violência. Abandono. Abuso. Dinheiro. Vaidade. Opressão. Dinheiro. André, diretor, tenta, mas há forças que estão acima da compreensão do filme, um debate materialista que discorre em páginas amareladas, molhadas de sangue.

Se a fotografia do filme alterna em naturalizar o espaço, tal como a encenação, por vezes, recorre à essa desconstrução do real, a desnaturalização, o materialismo, a dialética, o diálogo do teatro com cinema. Cartaxo é imensa. Ela atravessa essa forma como quem transmuta de linguagem, quase que obriga um close em plano holandês, para que o espectador assista sua indignação. Thalita Machado do Nascimento segura muito bem. Passa uma confiança e uma convicção que é rara.

Os cortiços do Brasil em sintonia de terceyro mundo, marginal, sonha com paz e sossego.

Helen é imensa.

“Não confunda Antão com Tantão, o segundo cedeu às tentações do mundo, cai pelo asfalto da História entre o caminhar torto e canhestro de uma vida que nega o fulgor, que dá de beber o fel da desgraça contemporânea, que há sempre de estar no cio em vigor da simultaneidade deste mundo que nos cerca. Entre as 80 cápsulas que despeja a agonia de um trabalhador, entre o ferro e o calor, há o grito de uma família que desconhece esses valores importados da águia que tudo vê. Não há o que reconhecer entre a provocação da burocracia da tinta e a passividade de uma cultura que se cala diante do absurdo, pois do veto da palavra os covardes se fizeram em consciência da dificuldade. O lamento na mesa assassina uma história que se reconhece em luz, projeção e o objeto de dificuldade da proclamação de uma expressão calada, que um dia reconheceu em si a verdade que ei de ser gritada ao mundo em sua guerra jamais cessada.” Maldito Seja, 2020

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