Hamilton

O “primeiro musical privado”

Por Vitor Velloso

Disney Plus

“Hamilton” de Thomas Kail é o grande espetáculo norte-americano que reconstrói de parte de sua história. O engraçado aqui é ver a peça-filme se esforçar para narrar uma “prosperidade” crescente formalizada a partir da articulação dos congressistas pela propriedade privada e pela privatização.

Em um dos momentos finais, onde uma personagem diz “Eu criei o primeiro orfanato privado dos EUA”, é possível cair na gargalhada imaginando as vozes de “Bandido da Luz Vermelha” gritando “privado” junto com Liza. O longa é de uma chatice monumental, busca uma representação distinta da realidade histórica norte-americana, realizando revisionismos constantes (típico da “terra da liberdade”) e louvando a burguesia intelectual por sua imensa capacidade de estruturação de um poder econômico que viria a concretizar o imperialismo norte-americano, pouco mais de um século depois.

Contudo, “Hamilton” acredita que a espetacularização dessa história, entre danças e músicas, é uma saída para uma análise crítica da representação mais cotidiana que tomamos dos fatos. Em verdade, apenas capitaliza com uma montagem que zomba de si constantemente, pois está a contar uma versão de perspectiva assumidamente neoliberal, mas precisa iniciar a trajetória em discursos políticos partidários em Congressistas. O “filme” ou que possam categorizar, é um retrato da decadência política de uma sociedade construída em prol da prosperidade privada e do desmoronamento da sociedade civil a partir da própria Constituição.

Uma farsa reestruturada no conforto da transa sincrética teatro-cinema, que entra na disputa por prêmios enquanto mira o coração dos conservadores. A grande questão é que essa pretensa consciência formal da obra, encanta parte da elite intelectual brasileira, que reconhece no “espetáculo” uma representação sintética de uma luta desigual e repleta da falibilidade norte-americana. Essa mesma esquerda liberal não consegue se distanciar dos brilhos capitais que a Broadway e Hollywood projeta em nosso subdesenvolvimento e dependência.

Os supostos “heróis” dessa narrativa, aqui compreendidos apenas como personagens atuantes desse caos político que dá gênese (conscientemente ou não) ao maior projeto imperialista cultural do planeta, não passam de militantes da privatização e da propriedade privada. A idealização de uma prosperidade dogmática, pautada em conservadorismos de todas as naturezas. “Hamilton” é uma espécie de celebração da indústria cultural pelo vigor que assumiram para nortear os esforços dos “pais e mães” que deram vida ao tal “Primeiro orfanato privado” dos EUA. Assim como, “A Festa de Formatura” a celebração de uma engrenagem que se move por dólares é feita com o clássico revisionismo reacionário que os estadunidenses impõem.

A diferença aqui é que a articulação do formato “musical” na “peça-filme” é mais fluída em termos de ritmo, as músicas sintetizam questões dramáticas e ações, poupando tempo de um projeto que já se arrasta de forma demasiada. Essa fórmula pragmática, se torna cansativa, a mise-en-scène é um espaço fixo que se molda a partir de personagens que vão e voltam para repetir o número musical, falar a mesma sentença ou tentar criar algum alívio cômico para seguir a suposta “complexidade” dessa história da privatização.

Em “Hamilton”, ou a objetiva cinematográfica repousa e observa, ou realiza alguns movimentos internos para tentar dinamizar o barato. A montagem tenta saltar para que o espectador não boceje com a monotonia dos congressistas neoliberais e democratas. Se no “terceyro mundo” o “homem quando não tem mais o que fazer avacalha”, nos EUA, ele privatiza.

Com um pouco de imaginação o público brasileiro que se aventurar na “peça-filme” de Thomas Kail, pode até imaginar uma danse macabre entre empreendedores, investidores e ministros, munidos de seus teclados Bloomberg, ao som da boiada de Salles e planos econômicos que não saem do papel. A “biografia” de “Hamilton” é um mosaico complexo entre o Iluminismo, a crença na prosperidade e a política financeira de Paulo Guedes.

Não é possível mensurar o que é mais patético, o pôster se orgulhando de “Um musical norte-americano”, entre trocadilhos preguiçosos, ou uma narrativa de quase três horas de duração, louvando planos econômicos em torno de propriedade privada (que findaria em uma opressão absoluta dos próprios “direitos civis” da “terra da liberdade”) e uma democracia construída na representação falha da realidade estadunidense, concorrer ao Oscar com aplausos do mundo inteiro.

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