Gritt

A árdua tarefa de (des)olhar dogmas pela arte

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Rotterdam 2021

A grande maestria do cinema é a de não possuir fronteiras-limites para existir. Os filmes, dependendo da percepção-perspectiva-olhar de seus realizadores, conseguem transcender-descobrir liberdades antes aprisionadas em fórmulas, ainda que busquem afinidades e referências-formas em outras obras. É o caso de “Gritt”, da realizadora norueguesa Itonje Søimer Guttormsen, estreante na direção de um longa-metragem e que integra a mostra competitiva oficial do Festival de Rotterdam 2021. Um filme que respeita o movimento da vida, talvez por construir uma atmosfera ficção-documental, de “câmera mosca” à moda de “Dogma 95”, movimento dinamarquês criado por Lars von Trier e Thomas Vinterberg.

“Gritt” é uma jornada. Sua protagonista que dá nome ao título (a atriz Birgitte Larsen), quase “Lilith”, exposta a todas as fragilidades, vulnerabilidades e hostilidades de uma “cidade máquina”, “a melhor país para se viver”, precisa encontrar diariamente a sobrevivência para cumprir a “missão” de seu projeto acadêmico. Este é um filme-cultura, naturalmente internalizado, de inerência orgânica. Por uma montagem de elipses de tempos próximos e continuados, “Gritt” comporta-se como uma busca pela “coleta de rituais” cotidianos-coloquiais e seus artistas “talentos” que ressignificam vanguardas e compatibilidades. Mas o que é arte? Tudo que vimos pode ser uma instalação em movimento artístico? Um corpo, uma ação, algo encontrado no lixo?

O longa-metragem é muito mais sobre o “ego” criativo do mundo teatral independente-contemporâneo, que moderniza  ainda mais Henrik Ibsen, o “fundador” do modernismo no teatro, ao lançar um olhar crítico sobre as questões de vida e moralidade da época. Aqui, o argumento do filme evoca o dramaturgo para rediscutir o estágio dos artistas, que recebem um “não podemos fazer nada” das entidades governamentais (que a considera uma “abjeta”). “Gritt” é um processo de (des)olhar. “Uma ficção da minha própria vida, sozinho no medo”, auto-analisa-se, entre “inflamações brancas” e “crueldade”.  É também um filme-ensinamento a Gritt. De “relaxar” a visão radical sobre todas as coisas em necessidade de salvação, como a natureza, por exemplo, e apenas “curtir um filme” ruim.

Nós somos convidados a seguir as dificuldades financeiras da protagonista (de dormir no chão do teatro) e o dia repleto de contras, nos remetendo inclusive ao final de “O Fantasma”, de João Pedro Rodrigues, e à redescoberta da essência (da “solidão da crise”) em “Na Natureza Selvagem”, de Sean Penn. Sim, nós conseguimos captar todos as analogias, simbolismos e metáforas elaboradas pelo roteiro sobre colapso capitalista da Europa e sobre a necessidade de se humanizar leis. Contudo, a escolha do artifício estético de tornar esta obra mais artística acaba invertendo o papel, confundindo mais com a gratuidade das imagens, pinceladas como esquetes-flash de uma edição hipster-arthouse.

O tom burlesco de “Gritt”, inevitavelmente, nos aproxima de “Dançando no Escuro”, de Lars von Trier, mas com a força húngara da personagem principal em “Sweat”, de Magnus von Horn. Aqui, Gritt é uma mulher de grandes ideias de instalar a “Incapacidade de agir”, a tragédia que ninguém quer ouvir o que ela tem a dizer. Em um curso cada vez mais errático pelo mundo. Sua agitação causa curiosidade que causa desapontamento e opressão. Gritt representa a história de toda uma classe de artistas lutando por suas chances de viver (e não mais mendigar) a realidade realizada dos sonhos projetados.

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