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Fortaleza Hotel

O conto de duas

Por Ciro Araujo

Durante o Festival Cine Ceará 2021

Fortaleza Hotel

Para iniciar a mostra Ibero-americana (de longa-metragem) do Cine Ceará 2021, “Fortaleza Hotel”, filme de Armando Praça (de “Greta“), dá os pontapés em um tom dialético entre culturas. Como processo de curadoria, o trabalho do festival é interessante pois o passar da sua enxuta estrutura e também por consequência da duração, a obra assimila uma formatação específica muito similar ao gênero do conto. Assim, é uma dose empolgante e bem trabalhada que pincela temas sociais com a pontada de drama que o cinema provêm, uma espécie de escolha segura como estreia para o 31º Cine Ceará.

Muitos roteiristas por aí procuram uma solidez estrutural na escrita de qualquer produção. O básico, o feijão com arroz, porém que tem seu tom de dificuldade. Acaba virando um objeto de desejo da profissão. “Fortaleza Hotel” trabalha um controle através de sua simplicidade. Insere personagens, insere carisma, drama, tristeza, empatia. São dispositivos muito úteis para a produção de duas personagens que acabam sustentando o longa-metragem durante sua hora e dezessete minutos de existência. Apesar de úteis, muito bem colocados, ora. São empurrados, porém retirados no momento ideal, sem muitas arestas soltas. Em uma determinada cena, uma ourives avalia o valor de uma jóia a comprar de uma das duas protagonistas. Quase da mesma forma, é possível olhar para o filme. Sua ambição? Zero, apesar de em contraste os desejos da protagonista representada por Clébia Sousa serem (ambiciosas). E quando uma produção se permite olhar para si mesmo sem maneirismos explosivos, acaba se soltando para um conforto prático e gostoso.

O peso maior cai em Clébia e Lee, as duas atrizes que compõem o corpo estrelante, do que faz de melhor e de mais interessante no longa-metragem. Duas mulheres resolvendo problemas, como repetem por várias vezes. Talvez o grande dinamismo recaído dentro das personagens acabe inclusive dificultando-as. Afinal, a grande Fortaleza que inicialmente propõe um pano de fundo tão complementar para o texto, sai sem brilho algum. Brilho, claro, não seria o ideal para um filme melancólico assim, mas um protagonismo sugerido também para se juntar ao quadro das atrizes que atuam tanto em um plano muito mais planificado, ou seja, só entre ambas, que foca no rosto de ambas, sem sair do além. O maneirismo que o diretor propõe não reflete também ao próprio apreço à obra. É um calcanhar de Aquiles mas que de forma alguma não retira o mérito do cinema que Armando arquiteta. Os minutos são de um aproveitamento extenso para a aplicação dos temas encontrados pelo cineasta.

A proposição de uma dialética cultural intermitente é o que mais aguça os sentidos. Uma conjunção da visão de cada uma, como assumem à pressão diante de estarem em situações extremas, o peso que recai no corpo, o cansaço individual. É palpável e até belo, pois melancolia essa que é sentida empaticamente pelo dueto de “Fortaleza Hotel”. Dizem as más línguas, recolocando o ponto de vista “roteirístico”, se é que pode ser adjetivado, a produção mais concisa em um conto é colocar dois personagens se interagindo. É uma proposta que traz conflito de diferenças, a conjunção e por fim, uma solução. Dialética pura, força estrutural proposta e que entrega coisa de pouco mais de uma hora de prazer, mesmo que seja pela tristeza, enfim. A sintonia de qualquer forma é ótima de se experimentar.

Propositalmente iluminado em um neon tão chamativo, uma estética tão hiper-usada, o filme de Armando Praça se encontra alternando nessas luzes. Engraçado que apesar de consistente e representando uma produção fechada, talvez o que de mais gostoso esteja no momento em que a iluminação é natural e tranquila. Em seu final, o sabor é agridoce, experimentado através da empatia e tristeza experimentadas, que se desprende da representação. Entra uma tranquilidade, mais próxima da calmaria depois de uma tempestade, não antes dela. É como um frio na barriga porém depois de tudo que aconteceu, bem mais longe de uma catarse. Como citado no começo do texto, a curadoria compreendeu muito bem como dar um pontapé no festival, como ter uma sensibilidade narrativa que vai além do próprio filme. É, querendo ou não, algo que contribui para como o filme foi representado. E bem, representou sim muito bem. O luto e a vida acabam num silêncio, mas antes uma dancinha, uma valsa cheia de forró depois de um belo vinho.

4 Nota do Crítico 5 1

Trailer

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