Foi Apenas Um Acidente
Um sinal "milagre" para fechar feridas do passado
Por Fabricio Duque
Assistido presencialmente durante o Festival de Cannes 2025
Há filmes que não só conseguem expandir a essência do primeiro cinema, “descoberto” pelos Irmãos Lumière, como aprimoraram essa percepção mais contemplativa, porém sem lentidão excessiva, de tempo sensorial que os pioneiros franceses conseguiram. É como se as novas obras pudessem construir a personificação de uma invisibilidade metafísica, mas com edição, em que o ritmo e cadência estão em equilíbrio aos nossos limites. Estou falando em particular do cinema iraniano e principalmente de seu realizador Jafar Panahi, que retorna à competição oficial a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2025 com “Foi Apenas um Acidente”, e que neste em específico adiciona pitadas extra dosadas de suspense psicológico. A narrativa é situacional e estimulada pela reação-vontade de suas personagens em um impulsivo e passional “plano vingativo”.
Em “Foi Apenas um Acidente”, seu realizador continua a fazer uma crítica ao governo iraniano, mas pela crônica intimista e pessoal de uma família. Jafar consegue transcender todas as barreiras morais, éticas, religiosas e legais ao posicionar o elemento humano à frente do coletivo. A individualidade subjetiva versus a ponderação estabelecida no trato social. A narrativa aqui parte do cotidiano (muitas das vezes estática e planos longos em sequência) e ações motoras e triviais, como dirigir por exemplo, entre perturbações coloquiais e sons atravessados até que um acidente acontece. Esse acaso “sinal” (“Deus sabe o porquê disso”, diz-se) “encontra” o verdadeiro conflito, uma possibilidade “terapêutica e de choque” de “resolver” pendências e feridas abertas do passado. Isso desenvolve tudo o que virá a seguir e nós, assim como o próprio filme, não sabemos quais serão as consequências e o resultado final.
Aqui, numa mise-en-scène de estética (da câmera em super close) mais observacional, mais imersiva, mais urgente, mais realista ao orgânico e de vida acontecendo sem filtro (há suor, pele oleosa e barba por fazer), ora pela tensão e iminência de perigo, percebemos por conversas e “conselhos temporários” que cada personagem tem suas questões, seus princípios e suas formas de lidar com “surpresas”. Nós entendemos também que interações sociais os assustam. Que a maioria tem “medo de pessoas”. Que se fazer de “coitados” e reclamar dramas e dores representa uma forma de autoproteção, gerando assim “tempo” para reiniciar as jogadas e tomar o controle da situação. “Foi Apenas um Acidente” nos apresenta uma história de tensão sentimental e emocionalmente instável. Qual a relação deles com esse “inimigo” que reapareceu? Pois é, já não importa mais. Estamos completamente entregues e receptivos (em sinestesia) ao que irá se desdobrar.
E assim, no meio de todo essa tensão naturalista, “Foi Apenas um Acidente” insere discursos, argumentos, reflexões em monólogos gritados (quase em tom de catarse), questões e opiniões político-sociais, sobre policiais corruptos e máquinas de cartões de crédito, à espera de justiça “pelas próprias mãos” por “imprudentes vingadores amadores” (Se essa moda pega… “milagre ou vingança?”) em emoções afloradas, cúmplices deboches agressivos, raiva contida por toda uma existência. Mas quando “saem” é porque estão “falando sério”. É genial e ultra crítico. Sem precisar sem panfletário e didático. E buscando algum autodomínio de se tomar atitudes melhores e mais racionais. Um outro desdobramento metafórico, fatalista e pessimista que podemos tirar do filme é a de que ninguém se importa, de que os outros estão mais preocupados com o “próprio umbigo”.
Só mesmo Pahani para criar em “Foi Apenas um Acidente” um conto tão universal, tão possível e tão coloquialmente nonsense, que consegue abarcar todas as camadas orgulhosas e “armadilhas emocionais” elementares do comportamento humano quando se encontra no limite de suas faculdades mentais. Há uma violência com empatia, que desconstrói a própria percepção do que é certo ou errado. Ou melhor, aqui não há preocupação moral para levantar a bandeira do maniqueísmo. Assim, essas personagens, unidas por uma finalidade pessoal, até parecem extrações de um universo que “espera Godot”. Mas também não só isso. Lá “fora” o cotidiano real aumenta o caos, a confusão e a “burocracia do hospital”. Só os “cachorros” que não. E então, o que eles farão? Tudo isso foi um “teatro mais vívido” para o “ato final”? E tudo aqui foi gravado clandestinamente, sem a “validação” autorização do governo do Irã.
A maestria de “Foi Apenas um Acidente” está na forma comum e genuína que aborda e sustenta sua tergiversação. Tudo aqui é para ser ingênuo, num patriotismo que busca mais proteger o ser humano que o coletivo. Que se preocupa mais com a honra e existência manchada (e se preserva por aparência aos outros). Cada um ali também sabe seu “lugar”. Em qual posição de importância se encontra, como a arrogância, consequência nata do poder. Até a revolta e a “vingança” dos mais vulneráveis geram culpas e bloqueios demais, esperando o perdão para a tão libertadora redenção. Pois é, toda “explosão” acarreta uma reação. E a vida a seguir nunca será a mesma. É, durante todo o filme, duas perguntas não saem da cabeça: que culpa protetora é essa? E será mesmo que a humilhação e a confissão resolvem mesmo e acalma uma alma em dor durante muitos anos? Pois é, “Foi Apenas um Acidente” é um certeiro “soco no estômago”. Um filme “pirraça”, que combate o “fantasma” do “agente secreto” do passado.


