Fluidity

O binarismo das redes virtuais

Por Vitor Velloso

Cinema Virtual

“Isso define uma geração”. Não é bem assim… A questão-problema de “Fluidity” é acreditar que está soltando todas as amarras que existem, enquanto libera o corpo para seu bel-prazer e categoriza de forma excessiva determinadas relações interpessoais, assumindo sempre o caráter do conforto social, trabalhando de forma ostensiva a pluralidade em meio social, suas relações mais imediatas e bastante perenes e uma transformação digital que sempre está atrelada à um movimentador modelo industrial de capital financeiro.

É o famoso caso de um projeto neoliberal, progressista em determinados costumes que acredita firmemente que enquadrar essa liberdade de ser, enquanto denuncia a objetificação superficial do mundo contemporâneo, é estar atrelada diretamente à causas que se propõe a filmar em determinados espaços/corpos políticos. E a primeira palavra dessa última afirmação que encerra a sentença anterior é onde mora o perigo.

Linda Yellen está mais concentrada em transformar a velocidade do mundo em uma estrutura narrativa, enquanto filma determinadas composições distintas de comportamento, que propriamente desconstruir alguns arquétipos comumente vistos como problemáticos. Acreditando que a simples exposição de certos planos é suficiente para que haja libertação daquilo que se filma, o que é no mínimo uma pretensão bastante ingênua. Não porque parte de uma necessidade de oportunismo, algo que não quero impor aqui, mas porque se desloca a política das instituições e dos aparelhamentos estatais e sociais da problemática individual.

Ou seja, através de um indivíduo isolado, a câmera de “Fluidity” acredita estar aglomerando um conjunto de debates na sua capacidade frívola de se locomover no meio social. O que no fundo reforça o olhar unilateral para uma questão que não é de uma geração, muito menos do mundo contemporâneo. Aqui nasce a confusão, tal realidade simultânea, vidrada nas telas e que monetiza o exibicionismo, que é perpetuado com o longa, não nasce desse ponto geracional, como é apresentado no filme, a diferença é que a luz chegou à esses corpos, não que eles surgiram em meio a “revolução virtual”.

E essa falta de comprometimento com a dialética intrínseca ao debate, permite uma longa exposição de corpos à esmo, que se aglutinam em um meio vazio, trocam fluidos e não concebe uma discussão de fato, muito menos nos permite refletir a partir daquilo. É uma necessidade de agregar ao cinema uma “autoria” da libertinagem formal, ou seja, é mais um exercício de ego de se colocar no meio daquelas situações, que são completamente absurdas, mas que sempre coloca a objetiva apontada para relações burguesas de caráter absolutamente de crise.

Sim. O mundo vive uma crise. E os indivíduos são diretamente afetados por isso, mas o caminho inverso não deve ser compreendido como a realidade dos pixels, se não o discurso pode ficar bastante turvo, até problemático. Dessa maneira, se a intenção era erguer o orgulho e promover um fim de rotulações, os rótulos só se modificaram para o formato hollywoodiano e de caráter absolutamente industrial, pois nada surge de novo na tela.

Enquanto concentra esforços em levar ao espectador à esses espaços, anteriormente citados, o filme parece jamais reconhecer em meio à própria indústria e ao capital que o financia, os vales e depressões que separam os indivíduos um dos outros, construídos pelo Estado ou pela sociedade, recorrendo à uma formalização do horizonte da capacitação do indivíduo de permanecer em sociedade enquanto cidadão livre e comum. O que nos traz à tona a cegueira assombrosa que permeia “Fluidity”, uma permissão concedida de “retratar o modo burguês de sua crise quase programática”, encenar uma pesquisa empírica bastante arriscada, denunciar os crimes do meio virtual com a exposição dos corpos, mas faz tudo isso fixando os padrões de beleza e comportamento de toda uma sociedade que é uma colcha de retalhos, mal costurada, mal arquitetada, que só é incluída, quando lhe convém.

Enquanto divide a tela e utiliza de pop-up, acreditando estar se adequando ao mundo contemporâneo, “Fluidity” parece não estar compreendendo uma revolução permanente, seja ela de caráter contrarrevolucionário digital, o perpétuo crime sexual e as necessidades de um indivíduo, que acabam transbordando para um coletivo, tocando em pontos basilares de uma sociedade problemática, logo, é tão ingênuo em sua abordagem que nos leva a crer no pior, um produto feito por encomenda para apaziguar os ânimos e quem sabe, se reconciliar com quem está à frente de toda essa rede impenetrável de ódio e insegurança.

Trailer

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