Filhos do Ódio

Os heróis de Hollywood...

Por Vitor Velloso

Aproveitando os créditos de Spike Lee na produção executiva, “Filhos do Ódio” de Barry Alexander Brown, que já foi editor do Spike em diversos projetos (“Faça a Coisa Certa”, “Faça a coisa certa” e “Malcom X”) assina a direção e mostra que seu forte é mesmo a montagem. 

O longa tenta a velha retomada da culpa branca norte-americana, tentando mostrar que “nem todos são racistas”. A afirmação pode não ser equivocada, mas não é um ato heróico. E é em torno desse ufanismo programático de uma grande figura que “Filhos do Ódio” constrói sua narrativa. Mostrar como é difícil para um homem branco defender um projeto reformista que não passa pela violência. A adaptação da vida real de Bob Zellner (Lucas Till) é mais uma tentativa da indústria norte-americana de fazer as pazes com os movimentos sociais. O reforço constante dessa culpa que eles fingem carregar, é de uma canalhice rasteira.

Sem grandes esforços, a obra desloca uma proposta crítica de uma análise do movimento, para restringir sua representação à “grande figura” de Zellner, que apesar do histórico pró-direitos civis, estava sendo perseguido por diversos motivos. Ao menos eram assim os relatórios oficiais demonstram, afinal qualquer coisa que não fosse ufanista ou da KKK, era comunista. A figura em si não é parte do problema, mas sim a abordagem que é dada. Essa estrutura persegue uma iconografia cristã a todo custo, procurando um retrato que seja real mas demonstra a grandiosidade de seus atos. A montagem foca tanto em seu protagonista, que vemos um eixo de “mártir” surgir na tela como essa deidade cinematográfica. O barato é um tanto problemática quando os personagens negros passam a compôr parte dessa história, sem influenciar diretamente. A falta de um embate mais rigoroso nessa diferença de perspectiva faz com que as coisas estejam sempre na linha dos projetos conservadores. 

É essa superficialidade constante que toma conta boa parte de Hollywood, onde essas “figuras heroicas” são projetadas adiante para que sejam lembradas. Uma espécie de revisionismo que tenta adicionar novas figuras à terrível história norte-americana e seu racismo institucionalizado, sempre no bom-moço que tenta fazer o que é certo. “Filhos do Ódio” pode até não se aproximar das piores decisões industriais tomadas nos últimos anos, neste sentido, mas é sem dúvida uma adição pouco relevante no debate. O reformismo cinematográfico do norte é como as parábolas de uma revolução solitária, ainda que mostre a importância da organização e da luta coletiva, se concentra neste “líder”, uma epopeia messiânica com excessos de ressonância em outras produções. A tendência do pólo imperialista é reforçar cada vez mais um “pedido de desculpa” formalizado e financiado pelo capital privado, tentando uma reconciliação histórica. Com negros, latinos e mulheres, sempre na única representação que podem fazer, centralizando o homem branco nos projetos, ou utilizando sua imagem para criar mediação. 

São poucas obras que realmente conseguem um trabalho honesto na reflexão e curiosamente Barry Alexander Brown trabalhou em algumas, parece que não aprendeu grandes coisas. 

A linguagem programática é preguiçosa, tenta uma composição do sul como a fórmula manda, demonstra a falta de unidade na sociedade norte-americana a partir de seus plano e contraplano de diálogos expositivos, reações e bandeira norte-americana exposta. Poucas coisas se salvam aqui. Till está irregular como sempre, para ser otimista. A fotografia não consegue auxiliar o filme na barreira dicotômica de duas realidades que se opõem e quando tenta, vai atrás das obviedades: a polarização do mundo e do submundo. A falta de sombras e seus excessos. Tudo aqui parece procurar os caminhos mais fáceis, menos ardilosos e quanto menos crítico, melhor. É como um dado, que sem o devido olhar, não é informação. 

A biografia é pouco interessante e o diretor também não acrescenta na trajetória messiânica que o roteiro procura. A chatice é uma tônica e essa culpabilidade norte-americana branca por seu racismo institucionalizado é mais uma vez a “grande âncora” em “Filhos do Ódio”, ou “Homens brancos também podem ser do bem”. Mais um subproduto estadunidense em nosso mercado. 

Trailer

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