Filhos da Tempestade

Os engravatados que se mordam

Por Vitor Velloso

Cinema Virtual

Quando o gênero sofre modificações na estrutura a partir de intenções pouco honestas com o mesmo, nasce um projeto como “Filhos da Tempestade” de Matthys Boshoff. O Western pode ser bastante flexível, pendendo para uma brutalidade desenfreada, “Bone Tomahawk”, ou mesmo um drama mais arrastado como “Slow West”, mas quando há a intencionalidade tacanha de se organizar um filme em torno do “cinema autoral”, onde o drama centralizador é guiado pela forma da “arthouse”, por uma aproximação oportunista de ganhar holofote nos festivais de cinema e distribuição internacional, está tudo fadado ao fracasso.

Assim como seu protagonista, o espectador urge por esperança, parte em direção ao desconhecido sonhando com o fim da exibição infinita de “Filhos da Tempestade”, modesto em duração, mas absolutamente extenso em seu encaminhamento. Tudo se articula em torno dessa estética mais pragmática de festivais aburguesados, onde a imagem pasteurizada vira discurso do peso carregado pela história, até aqueles personagens. Nada nos é estranho, pois nada o é. Realmente, tudo sai de um conceito canhestro de como se deve construir um drama à base daquilo que a burguesia internacional anseia em ver. Não através da violência, da agressividade, da brutalidade, como é comum no Western. Mas de um desenvolvimento arrastado, que aparentemente prioriza personagens e constrói com calma suas articulações dramáticas.

A prática nos mostra que essa teoria se mantém frágil até seu último tomo, pois de nada é funcional fingir uma construção para que receber os aplausos da burguesia intelectual de algum país, quando na verdade o que se propõe é o preenchimento do vácuo narrativo, com diálogos expositivos e o mesmo dispositivo preguiçoso nas paisagens do local. Aqui, a África do Sul vira paisagem para que Matthys Boshoff possa desenvolver suas problemáticas através de metáforas, concepções abstratas, irracionalidade, o lúdico.

É a gangrena intelectual sendo alvejada pela última moda feita na Europa. Vamos importar. Comercializar. Vender para o povo. Eles vão gostar. É alternativo. 

Maldito seja Édipo que não ensinou a mimesis de sua tragédia para os distribuidores internacionais, que repassam a infelicidade alheia e o pensamento tacanho como a última Brahma do deserto. 

O desenho formal é pragmático. Do geral, ao close. É a antidialética funcionando pela mão dos produtores, desse produto que quer manobrar uma massa que não se encaixa como tal, apenas é dada através de um contexto onde o consumo cultural é produto de vulgarização da moral cristão burguesa. Os complementos se dão em virtude, nunca em problema, em compreensão crítica. Cada personagem cumpre uma função pragmática no projeto, um deve carregar o luto em silêncio, a outra manifesta no descontentamento, o outro é o alvo direto do prognóstico da desgraça familiar. A terra não é vil, mas é palco das mazelas praticadas contra a instituição mais “cara de um homem”, a família. 

Em pleno 2020, o espectador é obrigado a assumir a preguiça do projeto, a desenvoltura que desemboca na mediocridade do mercado internacional, onde não há nada que ser consumido, que se faça o fel imperialista. A gangrena formal, a pequeneza do pensamento, o descontentamento descontente, como já dizia o proto poeta liberal no centro do país. Já escrevi em outra crítica e torno a dizer, a necessidade de distribuição desses produtos enquanto punhado de autoria no mercado cinematográfico, demonstra a dependência que possuímos do capital estrangeiro. Como esse investimento nos é caro, até na imprensa. Genival Rabelo já explicitava o caráter tacanho desse tipo de mercado.

“Filhos da Tempestade” é a prova de um projeto imperialista que visa dominar o cinema nacional e as distribuidoras fazem parte desse conluio, ainda que de forma passiva, elas exibem as obras que são produzidas em países diversos, na forma de bolo dos norte-americanos, que desejam padronizar a produção, o resultado disso já estamos vendo aos poucos a crise absoluta do cinema mundial, “Parasita” vencendo Cannes é o sinal que o festival assumiu seu caráter conservador. “Bacurau” ícone do cinema brasileiro, junto com Petra Costa, é a exposição do caráter burguês do pensamento cinematográfico nacional. Estamos em uma ladainha completa, onde quem perde, sempre, é o cinema e a cultura.

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