Festival Eurovision da Canção: A Saga de Sigrit e Lars

A fórmula do erro

Por Vitor Velloso

Netflix

A Netflix se coloca na disputa pela melhor canção no Oscar de 2021, o projeto é:  “Festival Eurovision da Canção: A Saga de Sigrit e Lars” de David Dobkin, mais uma bomba pro catálogo da gigante do streaming. O longa tenta encontrar uma miscelânea entre diversos produtos norte-americanos, é onde The Voice encontra “Débi & Lóide” sob a direção de um cineasta que há décadas se esforça para acertar em pelo menos uma vez. Onde as franquias se encontram, há apenas o resíduo industrial que encontra o representante perfeito, Will Ferrell. 

Esse casamento não poderia ser mais desgastante para o espectador que vai atrás de uma risada. A decadência do besteirol encontrou a gangrena da preguiça na produção, piadas se repetem por mais de duas horas, as interpretações caricatas não entram em sintonia, Dan Stevens faz um personagem que serve como molde estereotipado para Hollywood atacar a Rússia com a preguiça que lhe é característica. O filme serve apenas como uma fórmula desgastada das piores intenções do mercado industrial dos Estados Unidos, utilizando a Europa como ponto de piada para distanciar a imagem centralizadora patética que norteia os projetos. É inevitável que parte do público sinta o desgosto de mais uma exibição frágil de comédias tóxicas com pouco ou nada para oferecer. 

Contudo, nenhuma expectativa é quebrada aqui, aliás esse casamento de filme musical, Ferrell, Dobkin e piada anti-Rússia é um roteiro velho e datado que ainda rende cifras. “Festival Eurovision da Canção: A Saga de Sigrit e Lars” investe em algum protótipo dramático para pavimentar uma base funcional às falhas tentativas humorísticas, mas sempre esbarra na própria receita de bolo que segue. Nessa tentativa de homologação da representação, investe em uma unidade imperialista da cultura musical e formaliza uma espécie de unidade. Tudo que vemos no festival que dá título ao filme é uma mera reprodução do que os EUA vem empurrando ao mundo. A pouca criatividade é uma tônica cada vez mais recorrente nas redes de distribuição imperialistas, com os eufemismos alienantes que insistem na nomenclatura: globalização. 

Essa alienação como frente da própria produção encontra na linguagem um meio pragmático de exposição. O plano e contraplano dita o barato entre a tosquice e a festividade de um mundo sempre repleto de “magia” em um mundo artístico canonizado pelos “sonhos possíveis”, a capitalização de suas vontades. E é um investimento formal que Dobkin estrutura, a partir dos enquadramentos diretos que “vulgarizam” as ações dos protagonistas e reforçam seus erros, pataquadas, deslizes etc. A montagem acelera os devaneios para relembrar a força do amor entre eles e a obsessão de uma superação com a figura paterna. Até poderia funcionar em alguma chave se houvesse, pelo menos, algum carisma. Rachel McAdams tenta carregar com sorriso o projeto do início ao fim, Ferrell é vergonhoso como sempre e Brosnan está tão decadente quanto seus últimos filmes. 

“Festival Eurovision da Canção: A Saga de Sigrit e Lars” ainda marca mais uma etapa da carreira de McKay como produtor, com mais um longa assombroso no currículo, o cineasta, produtor e roteirista, só conseguiu enganar parte do cinema com seu frágil “A Grande Aposta” que possui a montagem de Corwin para dinamizar a falcatrua. 

O filme erra em todos seus segmentos e é incapaz de arrancar uma risada em sua tediosa exibição de pouco mais de duas horas. Manter-se diante do televisor é uma árdua tarefa que não consegue recompensar em nenhuma de suas etapas. Onde está tudo fora de ordem e nenhuma química prova ser funcional, o resultado que “Festival Eurovision da Canção: A Saga de Spirit e Lars” é previsível e tacanho, como a carreira de Gobkin. Estar concorrendo ao Oscar de melhor canção, por Husavik entre os sintéticos, giros de câmera, luzes escandalosas e contrastes preguiçosos, é a prova de que nenhum dos fatores presentes nessa equação mercadológica está bem das pernas. A decadência é um processo longo e demorado, mas a saturação é dolorosa.

Trailer

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

quatro + 9 =