Favela é Moda

A favela é estética

Por Vitor Velloso

Durante o Festival do Rio 2019

Emílio Domingos é um diretor conhecido por trazer a temática da favela para as telas de cinema, aqui em “Favela é Moda” não é diferente, o cineasta percorre uma trajetória para mostrar como a moda é capaz de dar novas possibilidades para os corpos negros das periferias. A maior conquista do documentário é ser dialético enquanto processo político mas acessível e catártico para grande parte do público e a premiação do voto popular traduziu isso com clareza. Ovacionado na sessão, o filme conseguiu angariar uma legião de seguidores às personalidades que foram projetadas.

A moda não é democrática, nunca foi, mas quando ela é criada e difundida por pessoas que se recusam a acreditar nos padrões midiáticos, ela possui a força de incluir neste mundo industrial excludente uma lógica de aproximação de realidades e vidas. Com muito mais louvor que apenas uma “resistência” (e a banalização da mesma), a atitude dos personagens em “Favela é Moda” é um confronto direto com um modelo estruturado e concretizado do que é a beleza, do que é o belo e do julgamento alheio. Zozibini Tunzi, Sul-Africana, vencer o Miss Universo de 2019 é uma conquista importante para essa quebra de uma dominação de padronagem européia.

Mas não é o suficiente. Pois além dos corpos negros, aqui estamos discutindo os mesmos inseridos na favela, mas ocupando cada vez mais as telas dos celulares, dos cinemas e das TVs. Ainda que não estejamos no status ideal, deve-se comemorar que haja esse tipo de atitude.

Emílio realiza seu melhor filme, em questões formais e dialéticas, pois consegue engajar o longa em uma demonstração antropológica (algo comum em sua filmografia) mas também de abrir as portas para aqueles discursos, pois reserva parte dos esforços fílmicos a concretizar a força estética e política da iniciativa destes jovens, sem imposição, apenas o ato de ser livre e poder se enxergar em qualquer espaço, mesmo que isso signifique ocupar.

O mais interessante de escutar todo o projeto que está envolvido no filme é que o grau de dedicação envolvido é maior que as dificuldades enfrentadas. E quanto ao preconceito existente, a barreira que separa o ódio da estupidez é mais grossa que parece. A ignorância de não reconhecer ali um ato político e estético, é uma constante na sociedade brasileira contemporânea, que se projeta em um Estado fálico onde a gangrena cerebral se traduz nas palavras de um governante que é apoiado por um governador que prega pela explosão da Cidade de Deus. Porém, o abismo que secciona os dois adjetivos está no não consumo para o querer o fim.

Em toda sua construção o longa se mantém sólido em conseguir manter o caráter antropológico sem tombar para uma fragilidade comum nas obras que buscam uma apropriação de uma cultura que não faz parte de seus realizadores. Mas o respeito aqui torna-se claro, não apenas uma forma de trampolim para alguma ascensão ideológica. Emílio faz seu melhor filme acreditando que é capaz de ultrapassar uma barreira de preconceitos através dos temas que aborda e ainda que não represente aquilo que projeta na tela, mantém uma postura que dribla os outros projetos vacilantes que vêm sendo lançados ao longo da década e não é oportunista em surfar numa onda simplória.

“Favela é moda” consegue ser brasileiro de maneira honesta e genuína, mantendo parte da proposição de “Deixa na régua” e se distanciando das falhas de “Batalha do Passinho”. Assim, uma das obras mais populares de 2019, consegue arrancar aplausos contínuos de um Odeon lotado e ocupado pela favela, a representatividade que é projetada na tela não possui adjetivos que sejam capazes de descrever. Ao se aproximar do fim do filme, o espectador sente a catarse de uma obra que compreende a periferia como ela é e a esteticidade da mesma. Não à toa o próprio tema é estético e político, pois cada ato que aqueles corpos assumem são de suma importância para um rebote social que atinge o âmbito Estadual e Federal, sem partidarismo, apenas uma volatilidade de revolta diante da ideologia arcaica e canhestra de um governo que os oprime.

 

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