Fassbinder: Ascensão e Queda de um Gênio

Obsessões e desejos vulcânicos

Por Vitor Velloso

Cinema Virtual

Rainer Werner Fassbinder sempre gera alguma curiosidade no espectador e não é de hoje que alguns longas se debruçam sobre a figura do artista. Aproveitando isso, o Cinema Virtual traz “Fassbinder: Ascensão e Queda de um Gênio”, uma ficção que retrata um período da vida de Fassbinder sem grandes compromissos com a realidade. Ou assim parece.

Pegando como ponto de partida sua vida nas improvisações do palco, o filme de Oskar Roehler está mais interessado na personalidade do realizador e nas transas entre suas obras, sobretudo as cinematográficas, e sua vida pessoal. Assim, o projeto possui a ambição de costurar os trabalhos com suas paixões, ciúmes, intrigas, ódios, ambições etc. Na teoria é mais interessante que na prática, pois quanto mais as coisas avançam, mais fica claro que existe uma certa glamourização autodestrutiva. Apesar de Roehler tentar simular, em algumas circunstâncias, a linguagem de Fassbinder, tudo é artificialmente estetizado, com luz verde, rosa, uma montagem que quer procurar o rigor teatral mas só encontra uma certa burocracia dos espaços, uma encenação que é incapaz de fugir da esquemática cíclica.

“Fassbinder: Ascensão e Queda de um Gênio” ainda tenta minimizar algumas polêmicas do autor, deslocando seu racismo para um jogo de obsessão que nós sabemos ser fruto de um exotismo eurocêntrico. Quando procura emular o famoso plano de “O Medo Devora a Alma” (1974) retira o contexto original e caminha na contramão do seu sentido. Esse exotismo não pode ser compreendido como uma situação deslocada, são as chagas de uma formação racista. Nesse caminho, todas as vezes que o filme investe em representações que remetem às suas produções, existe uma tendência de procurar um pragmatismo dessas ideias, uma espécie de genialidade que surge do nada, de uma desgraça entre drogas, cigarro e abuso de álcool. Ainda que “As Lágrimas Amargas de Petra von Kant” (1972) gire em torno das rejeições constantes, como poderia o projeto assumir que “Oito Horas Não São um Dia” (1972) ou mesmo a obra-prima “Berlim Alexanderplatz” (1980), quem sabe o rigor delirante de “O Mundo por um Fio” (1973) vieram de simples colisões prosaicas?

Está certo que há uma liberdade nessa construção que procura nas obras essa vida ensandecida, a obsessão nas produções de quem muito produziu em pouco tempo, porém desnudar o tom político que o próprio personagem apresenta no início da projeção ao dizer “Quero falar sobre a Alemanha”, é estar atentando contra a própria formação do autor. Por essa razão, não é possível afirmar que trata-se de um longa sobre o Fassbinder, mas sim um compilado de curiosidades supérfluas de suas relações ao longo da vida, profissional e amorosa. E falar da superficialidade aqui não é absurdo, já que até suas polêmicas vão sendo diluídas em uma projeção pouco interessada nos absurdos do cineasta.

Quanto mais Roehler procura fazer homenagens através de sua câmera, mais enfadonho fica. A tentativa da encenação teatralizada, onde grande parte dos acontecimentos se mantém em um mesmo cenário por um longo tempo, até são capazes de gerar alguma dinâmica na falta de divisão entre os espaços, com cômodos contínuos e uma certa homogeneização do palco, mas é difícil ser fisgado por “Fassbinder: Ascensão e Queda de um Gênio” que soma uma quantidade considerável de interpretações comprometedoras e algumas sequências verdadeiramente vexaminosas (ainda que a intenção seja o caráter “cômico”), como a cena onde um ator é arrastado por uma moto. Dessa forma, por mais que o espectador inicie o projeto empolgado, dificilmente não irá se frustrar com os fetiches autodestrutivos, as intrigas superficiais, a minimização das polêmicas ou mesmo a tentativa desesperada de estilizar encontros, desde as transas à Andy Warhol. Essa cena é o fundo do poço.

A radicalidade das ideias de Fassbinder, o autor, são exploradas como apenas um artista obcecado, que morre tentando superar as próprias criações. Um misto de “All That Jazz – O Show Deve Continuar”, de Bob Fosse (1979), com um entendimento atravessado dos espaços teatrais diante da objetiva. O resultado é uma frustração que é incapaz de debater o próprio protagonista e suas transgressões. Há muitas ambições interessantes envolvidas aqui, mas Roehler não desenvolve algumas ideias até o fim, parece abortar tudo para fetichizar sempre que pode. Oliver Masucci ficará conhecido como o ator que interpretou algumas pessoas verdadeiramente detestáveis.

Trailer

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