Fale com as abelhas

É doce, mas...

Por Victor Faverin

No primeiro ano da faculdade de jornalismo – e talvez na consciência social – descobrimos que a imparcialidade é um mito. Somos um poço de sentimentos, de experiências, de rima, de dor, de inícios e fins. Como esvaziar esse amplo repertório para analisar de forma precisa o que quer que seja? Ainda assim, cabe a um crítico não ter sexo e, diante de uma tela, verter-se de expectativas para, aos poucos, ser preenchido com sensações, boas ou más. Digo isso porque “Fale com as abelhas” (2018) é um filme que, provavelmente, será melhor apreciado pelo público feminino, ainda que ser uma pessoa sensível independa de gênero. O longa, dirigido por Annabel Jankel (que conduziu ao lado do marido e também diretor Rocky Morton o desastroso “Super Mario Bros”, 1993; e “Morto ao chegar”, 1988), busca dizer muito, mas expressa pouco, preso em um microcosmo aflito por ser global sem, com isso, apresentar suas minúcias.

Na história, baseada no livro homônimo de Fiona Shaw, temos a médica Jean Markham (Anna Paquin) voltando à cidade natal para assumir as funções do pai falecido, antigo médico de uma vila rural escocesa dos anos 1950. Ao conhecer o pequeno Charlie (Gregor Selkirk) e sua mãe Lydia (Holliday Grainger), envolve-se com os dois, tomando para si o papel de guardiã, colocando carreira e reputação em risco diante de uma comunidade de costumes tradicionais. O problema é que enredos com essa temática necessitam que os acontecimentos sejam descortinados aos poucos, que a descoberta seja saboreada a partir de pequenos gestos, olhares e insinuações. Ainda que tenha o ritmo lento, “Fale com as abelhas” atropela esse processo para estabelecer-se como algo pronto, cabendo ao espectador a tarefa de ingerir de supetão o que está sendo mostrado. Preliminares fazem falta aqui.

Para atender esses meandros introdutórios, a narração em off talvez seria uma alternativa interessante, desde que feita de maneira não expositiva. Mas o filme apenas utiliza desse recurso no início e no final, fazendo com que nos esqueçamos que a trama está sendo contada por alguém diretamente envolvido no que está sendo mostrado. Tratam-se das lembranças de uma criança que não tem certeza se o que viveu aos dez anos foi real ou fruto de sua imaginação. Pressupõe-se, então, que a diretora daria mais vazão à fantasia do garoto, mas isso não é feito. A verdade é que nem a sua relação com as abelhas possui esse ingrediente. Falando no inseto, uma analogia interessante trazida pelo filme reside em duas cenas, filmadas com a mesma perspectiva: o olhar de dentro para fora de uma colmeia e do exterior para o interior de um quarto, pressupondo que, aos olhos de uma criança, da mesma forma que abelhas mantém segredos na incansável produção do mel, adultos confidenciam-se na cama.

Nessa relação de amor que ora teme por se mostrar e ora se explicita, é difícil notar a força que poderia se esperar da personagem de Anna Paquin, marcada por um trauma de juventude. Sua voz sempre sussurrada parece ainda impedida pela mão que brutalmente a calou. Assim, é através dos olhares dirigidos a Lydia, a mãe, que vemos a externalização do ódio pelo diferente que uma sociedade fundamentalista sente em suas entranhas. Tal repulsa é sintetizada na figura de Pam (Kate Dickie), cujo amargor e secura lembram a de sua atuação em “A Bruxa” (2015). O filme escolhe a dedo quem o público deve amar ou odiar, fruto da unidimensionalidade trazida pelo roteiro. Desta forma, parece telegrafado o que o pai do menino (Emun Elliot) tentará fazer ao invadir a casa da médica em uma das cenas, como se ele tivesse entre as pernas o antídoto para qualquer ato que considera pecaminoso, tal como nos dias de hoje em que conservadores abominam a legalização do aborto, mas fecham os olhos para as milhares de crianças abandonadas que povoam os grandes centros urbanos.

Ainda assim, “Fale com as abelhas” tem belos momentos, como a interação do menino com as polinizadoras, que passam a obedecê-lo, e o vínculo dele com a mãe. Quando alguém a fere com palavras, nos colocamos no papel da criança, indignada por tentarem macular a imagem de pureza que se tem por quem nos deu à luz. A despeito disso, a obra não entra com destaque na filmografia de Anna Paquin, que com apenas nove anos nos brindou com uma belíssima atuação em “O piano” (1993), que lhe rendeu o Oscar de atriz coadjuvante, sendo a segunda artista mais nova da história a conquistar a estatueta. É natural que se espere mais de alguém tão prodigioso.

Trailer

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