Fakir

A Emancipação que deve ser Lembrada

Por Vitor Velloso

Crítico convidado pela Mostra de Tiradentes 2020

Ante a pluralidade cultural brasileira, o faquirismo é pouco debatido e divulgado, não apenas pela imensidão artística do país mas também pela falta de compreensão da manifestação estética, física e psicológica compreendida ali. Em uma ampla discussão recente, a admissão do não atravessamento da arte do faquirismo não anulou a possibilidade da ação imediata do mesmo no corpo de quem está presente no momento da performance.

A diretora Helena Ignez inicia seu projeto “Fakir” mostrando toda a possibilidade da arte em questão de mobilizar a mídia, o público e uma reatividade direta com as ações de quem a pratica. Porém, não demora muito para que uma ligação com o feminismo seja aplicada ao filme. Não por uma questão de âmbito exclusivamente histórico, mas que acaba atingindo o social em diversas camadas. Dentre as possibilidades de leitura, o faquirismo é majoritariamente dominado por mulheres que buscam sua liberdade através das diversas vertentes da expressão. Seja por força dos testes de resistência ou mesmo na arte de dominar um animal tão popularmente reconhecido como símbolo fálico, a cobra.

Talvez o assombro da arte esteja na apresentação de uma mulher capaz de controlar algo tão mortal enquanto busca uma sedução, seja como provocação ou estética pura e simplesmente. Reconhecer em tal criatura uma virilidade é desvirtuar a maior proposição estética do animal, tão curvo e encantador quanto o estilo que é representado. O documentário inclusive menciona a empoderada e multifacetada Luz Del Fuego, além de sua famosa interpretação de “A Tentação de Eva”, que menciona a primeira tomada de decisão de uma mulher na História ocidental. Em toda essa costura histórica, “Fakir” toca em pontos cruciais da modernidade e contemporaneidade sob questões de gênero, desde o feminicídio até aspectos como emancipação, controle e liberdade de expressão corporal, dentre outros. Essas amarras são realizadas com uma consciência de quem não enxerga o exotismo na prática, mas sim uma elevação da corporalidade ali envolvida.

Entre denúncias e representações das forças femininas envolvidas na arte do faquirismo, o filme consegue conciliar essa verve política com uma brasilidade sempre própria das obras de Helena Ignez. o longa-metragem se concentra majoritariamente nos feitos nacionais em relação a essa arte. Essa postura eleva (e muito) uma questão de apropriação comum de nossa cultura. Logo, é fácil se reconhecer na projeção, ainda que não haja vínculos diretos com o faquirismo, pois a questão regionalista que se instala perante a proposição feminina da cineasta acaba por contaminar a visão do espectador, criando assim esse laço concreto com toda a estética.

Sem dúvida a obra é didática em sua forma, concebendo em sua narrativa uma destreza quase televisiva de apresentação dos materiais de arquivo, conciliando muito bem a exposição informativa com uma estética própria. Chega a esse resultado pois recusa uma formalidade de apresentação dos mesmos, enquanto transmite com matérias de jornais, fotos e uma leitura em off de parte dessas informações. Por vezes a narração acaba se tornando cansativa e desfalca o ritmo do projeto, que cai em uma proposição maneirista desses detalhes, mas consegue transmitir um imaginário epocal bastante apurado.

Justamente o ritmo talvez seja a questão mais problemática durante a experiência com “Fakir”, visto que a lentidão com a qual é apresentada pode vir a afastar parte do público. Ainda que toda a construção seja consciente de sua temporalidade e assuma para si essa questão como um valor de produção. Merece ser visto por atingir de forma eficiente o objetivo de liberar uma discussão extremamente contemporânea e importante para um Brasil, país que continua perpetuando valores que usurpam das mulheres sua liberdade individual e coletiva, por vezes, sua vida.

Entre pregos, serpentes e a fome, quase uma metáfora histórica da história brasileira, “Fakir” é uma corrente de importância nacional, que compreende em si uma necessidade de denúncia e exposição cultural tão ignorada por diversos setores. O faquirismo perdeu seu poder de mídia, mas ganhou a noção potente de uma lenda do cinema nacional. Helena Ignez traz para a 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes uma ocupação dessas mulheres que tanto se dedicaram a uma arte direta e provocativa que tanto gera reações instantâneas. Essa mistura entre uma obra cinematográfica, claro, transforma as performances em objetos temporais que se distanciam da potência momentânea, mas consegue fazer perdurar a atitude de cada uma.

Helena Ignez consegue retomar a potência de um cinema que reúne a performance e o material histórico, enquanto traduz com destreza o próprio dispositivo enquanto verve cinematográfica.

Trailer

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