Fado Tropical

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Fado TropicalFado Tropical

Entre a melancolia e a urgência

Por Fabricio Duque

Semana Cavídeo 2019

 

Há uma sensação conflitante e entorpecida quando viajamos a outras geografias, que mais parece um desconforto libertário de não pertencimento. É como se estivéssemos em um universo paralelo que desconecta o do que viemos e o para qual estamos. É um estágio de fantasia realista e distante, quase de sonambulismo. De sonhos acordados tão vívidos que nos confundem o tempo e o espaço; o que é real e o que é imaginação; o que é memória e o que é adulteração dos acontecimentos pelo desejo do ser. É uma revisitação moderna do passado ao atual presente.

A psicanálise sempre acreditou que a mente “é uma caixa de surpresas”. Não confiável, porque nossas sinapses “aumentam um ponto no conto”. Essas dimensões temporais são atravessadas pela perda da ingenuidade, inocência e defesas protetoras, estas para que nunca possamos demonstrar nossas vulnerabilidades, ainda que seja para integrantes próximos de nossa própria família. Quando essa revisitação acontece por uma pseudo obrigação social (e ou colocando a culpa no sádico universo), visto que a situação foi arquitetada bem no fundo de nossos quereres), a terapia de choque de confronto ganha moldes urgentes, passionais e visceralmente existencialistas.

O preâmbulo deste texto ajuda a nortear “Fado Tropical”, última parte da “Trilogia da Viagem” de Cavi Borges e Patricia Niedermeier, iniciada com “Salto no Vazio” e seguida com “Reviver”, este último que também integra a mostra Semana Cavídeo 2019. O longa-metragem busca ser o mais narrativo dos três, invocando a libertação da forma do agora, que deseja o eu anterior da infância. Assim, o espectador é conduzido em um ambiente urgente, impulsivo, teatral e até mesmo afobado de distâncias e aproximações em intimidades amadoras e reações caseiras que desenham o anti-naturalismo como fio condutor pulsante, latente e de única opção possível.

“Fado Tropical” é um jogo de troca-troca, quando almeja fornecer brasilidade à terra de nossos colonizadores e melancolia-angústia-fado à personagem ainda perdida entre estes dois mundos. A contemplação silenciosa de Portugal versus a necessidade da agilidade sobrevivente do Brasil (país colonizado que por sua vez influencia no comportamento de uma família em uma restaurante lusitano). O Fado e o Rap. Para ficar, a personagem de Patrícia precisa querer mudar. Precisa abrir mão de condicionamentos idiossincráticos. Precisa desconectar a liberdade técnica e pragmática, e a transformar em orgânica, viva e espontânea. Não mais buscar “consertar bonecas” que já nasceram mortas. Não mais se exilar em casulos auto-destrutivos. E redescobrir a imprudência característica da juventude.

O longa-metragem também nos mostra que é quase impossível fugir da própria essência familiar. Sim, a família pode ser esquecida por um momento, mas nunca enterrada totalmente e nunca ser uma experiência Lacaniana. Em algum momento, a lembrança assaltará o ser que a guarda, ora pela repetição física dos sintomas de uma doença, ora pela solidão que suplica a companhia, ora pelo simples “deixar ir”. Os irmãos   vivem uma experiência de um desconforto desencaixado e desenformado, quase de pós-morte, como se fossem “cuspidos no universo” e estivessem “flutuando no escuro”.

“Fado Tropical” é também um filme cinéfilo, em que sua narrativa é moldada pela estrutura cinematográfica de François Truffaut, principalmente em “Jules e Jim – Uma Mulher Para Dois”, mas que aqui, são duas mulheres e um homem. E ou a de Jean-Luc Godard quando entram na livraria, que logo destaca o livro português “O Cinema Não Morreu – Crítica e Cinefilia”, uma coletânea de textos-críticas de cinema catalogados e organizados pelos editores Carlos Natálio, Luís Mendonça e Ricardo Vieira do site À Pala de Walsh, fundado em 2012. Contudo, é também um mergulho no cinema de Manoel de Oliveira, e reflexos no do diretor Miguel Gomes.

Sim, mas como já foi mencionado com liberdades mais que poéticas ao nosso Ziriguidum, jeito exótico e exagerado de pensar, agir e falar, que moderniza Neville de Almeida e que infere “Joana D’Arc”, de Bruno Dumont. “Fado Tropical”, nome da música de Chico Buarque (“Oh, musa do meu fado; Oh, minha mãe gentil; Te deixo consternado; No primeiro abril), é cinema direto, que utiliza a inserção do meio ao redor como elemento propositor, avesso e despreocupado, preferindo o conteúdo à forma, que deixa mais brusco o agir para criar aproximação com o público, ainda que bem menos naturalista. Há uma quebra da própria ilusão com a construção de uma realidade quase documental de uma distopia lúdica ficcional.

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