Neville D’Almeida: Cronista da Beleza e do Caos | Crítica

Por Fabricio Duque

O Maldito Que Nós Amamos

Por Fabricio Duque

Uma das características-propósitos essenciais de um documentário-biografia é a de contar histórias acima de tudo. É, como a própria terminologia-gênero define, um documento não ficcional que ensina, e ou relembra e ou reitera fatos da vida do homenageado.

“Neville D’Almeida – Cronista da Beleza e do Caos” (título este que infere à paródia de um trecho da música “Rio 40 Graus”, de Fernanda Abreu), que integra a seleção do Festival de Roterdã 2018, é dirigido pelo estreante Mário Abbade (que de crítico do jornal O Globo à curador de mostras de cinemas, embarca agora atrás das câmeras).

A narrativa escolhida buscou o tom pululado da curiosidade (livre e libertária) sobre o veterano Neville Duarte Almeida, que imprimiu autoridade marginal em seu cinema, criando um gênero próprio que pode ser chamado de “Nevilleano”.

O longa-metragem, que tem produção de Cavi Borges, e que segue o classicismo das entrevistas estáticas, inova quando moderniza a forma, com suas telas divididas e molduras com o nome dos filmes, buscando assim a didática visual do entretenimento e a importação de Neville ao universo atual da nova geração. Para isso, a linguagem precisa ser de cinema direto.

O que não falta em “Neville D’Almeida – Cronista da Beleza e do Caos” é adjetivos para categorizar o cineasta: “provocador”, figura, performático, audacioso, arrogante, que “corta como uma raio”, autoritário, idiossincrático, direto, que “transforma”, que “transmuta”, polêmico, transgressor, passional, hiperbólico, agressivo, enérgico, “primitivo”, “primário”, orgânico, escatológico, assumidamente de submundo, urgente, que é “contra a vanguarda chapa branca”, que “veio para ganhar”, sexual (“quem tem garrafa vazia para vender fica mais pelado ainda”), “tarado”, que coloca “tesão” no que faz, “caboclamente brasileiro”, que “abria a cena e deixava livremente chegar aquele ponto”, espontâneo, que deixava o “improviso” do momento, impetuoso, “anarquista”, que “não está para agradar”, que criou cenas antológicas,

Entre os depoentes, estão atores, diretores, críticos: Bruna Linzmeyer, Regina Casé, Lima Duarte, Maria Gladys, Johnny Massaro, Carlos Diegues, Claudio Assis, Paulo Cesar Peréio, Denise Dumont, Fernando Ceylão, Sura Berditchevsky, Nelson Hoineff, Luiz Carlos Merten, Ruy Gardnier, Mario Bortolotto, Ana Lúcia Sette, entre tantos outros, que discorrem sobre as “explosões de ideias”.

Todos contam algum causo e experiências vividas com o protagonista que lança quem está próximo no caldeirão do caos da organicidade da própria vida, que “tira toda a animalidade” de seus atores, especialmente suas atrizes “repolhos”, “envaidecidas” por “ereções” (“Sônia Braga, uma atriz fisiológica”), que realizou cento e cinquenta filmes “sujos”, muitos icônicos na história do cinema brasileiro, como “Os Sete Gatinhos”, “Matou a Família e Foi ao Cinema”, “A Dama do Lotação”, “Bang Bang”. Não podemos negar que era um época social majoritariamente machista.

“Neville D’Almeida – Cronista da Beleza e do Caos” explora nossa sinestesia, nos ambientando na sensação de uma saudosa nostalgia parada no tempo do agora. O passeio de barco inicial  (uma experiência “Belair” de ser, com narração de um filme da época) fornece o o ritmo narrativo que se segue.

Desiludido com o fazer cinema no Brasil, e suas constantes dificuldades, Neville sai de cena, embrenha-se na arte moderna em no Instituto Inhotim (em Minas Gerais) e permanece vinte anos sem lançar um filme comercial, mesmo depois de ter sido a quinta maior bilheteria do Brasil e de ter escrito livros sobre cinema. “Hoje melhorou para os vigaristas e piorou para os artistas”, diz.

Ele sofreu com uma implacável censura (“uma tortura humana, sem pudores” – “a arte não pode ser mutilada, não se pode cortar um acorde de uma sinfonia”), lutava para “liberar o filme da suspensão” e se tornou o cineasta “mais censurado da história do cinema nacional”. Mais nem só de caos ele viveu.

Hélio Oiticica, Zé Celso, Waly Salomão, “Fellini”, Pior Paolo Pasolini em “Teorema”, o LCD, o ácido, todos o ajudaram como uma fuga, um descanso, um respiro para bater na tecla de construir sua carreira com filmes de “linguagem” “sem take 2″ e não desistir do cinema que se enquadrava e que queria filmar: “mostrar o que você vê todo dia e ninguém vê”, diz. “Sexo, nudez, vida”, complementa. Era “a vida como é”, de um Nelson Rodrigues enaltecido e venerado.

Aqui é inserido julgamentos da época de “Rio Babilônia” (“uma espécie de “Doce Vida” brasileiro”, uma “festa-volúpia de louca liberdade” – que nos faz a inferência a “120 Dias de Sodoma e Gomorra”, de Pasolini) com arranjos afro-brasileiros que corroboram a ideia principal de “manter a liberdade contra corações empedrados”, ser “contra as leituras os canalhas e incompetentes” e “contra cortar o trecho que Antonio Pitanga fala sobre negritude”. “Cinema não induz, ele só expressa”, diz-se com “caralhinhos voadores” e com a representação do feminismo que exerce ativamente a sexualidade.

O documentário, uma metalinguagem de “requinte intelectual”, uma auto-biografia comentada,  um recorte-montagem (que pulula trechos de “Histórias que nosso cinema não contava”, de Fernanda Pessoa; “Belair”, de Bruno Safadi; “Cinema Novo”, de Eryc Rocha” e muitos filmes de Neville), quer ser propositalmente caseiro para assim adentrar sem firulas na essência pensante e criativa deste diretor “Apocalypse Now”, que encena à câmera e que inaugurou com “Jardim de Guerra” a primeira edição da Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes em 1969. O longa foi proibido, interditado e jamais exibido comercialmente.

Tudo é sobre o discurso que choca (que alfineta o questionamento), sobre a luta de pertencer com o outro lado não padronizada da diferença, sobre a permissão de projetar vozes por catarses libertadoras, terapêuticas, que dão sentido à ideologia e que representam o existencialismo individualista de cada um.

O curioso de “Neville D’Almeida – Cronista da Beleza e do Caos” é que é realizado por um crítico de cinema, visto que na época de seus filmes as alfinetas eram mais duras: “Matou o cinema e foi ao clichê”, “pornô carnificina”, o “assassino da família brasileira”. Muito por estar à margem na arte “maldita”, contra a correnteza do “Cinema Novo”, que era “chique”. É um filme que nos alimenta de memórias, curiosidades, histórias, perpetuando-se como um documento necessário e obrigatório de nosso cinema e homenageando o cineasta “ame ou odeie” Neville Duarte de Almeida, mineiro de Belo Horizonte, com seus setenta e sete anos. É uma celebração cinéfila!

Trailer

https://www.youtube.com/watch?v=cUo0GlXMU-U

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