Fake Art: Uma História Real

F for Fake, Q for Qian: a história real do chinês que pintava Rothko e Pollock

Por João Lanari Bo

Netflix

Pei Shen Qian é um artista chinês: começou fazendo retratos de Mao Tse Tung para escolas e escritórios no seu país natal. Veio para os EUA em 1981 como estudante e deu um jeito de ficar em Nova York. Foi “descoberto” no final da década, enquanto pintava em uma esquina de Manhattan. Começou a fazer cópias de Keith Haring e Jean Michel Basquiat, dois artistas da moda naqueles tempos. Estudou na Art Students League enquanto trabalhava como zelador e se sentia desanimado com a carreira: montou um atelier ao ar livre perto da West 4th Street, onde cavaletes se alinhavam com quadros que chamavam a atenção. Parecia que a sorte de Qian estava mudando quando ele recebeu uma oferta de 200 dólares de um admirador que passava, para fazer uma imitação na linha do Expressionismo Abstrato, um Rothko ou um Pollock, quem sabe Motherwell, cujos originais – oh, céus! – valem milhões e milhões de dólares no polpudo mercado de arte norte-americano.

Qian é uma das estrelas – se não é “a” estrela, mesmo que praticamente invisível – do documentário “Fake Art: Uma História Real”, da Netflix. Em 1995, a Knoedler Gallery, a galeria de arte mais antiga de Nova York (que já existia há 151 anos, aberta antes da Guerra Civil e de todos os principais museus da cidade), comprou uma tela que ninguém tinha ouvido falar de Mark Rothko, por 750 mil dólares, uma pechincha inacreditável. O autor, claro, era Qian: quem vendeu foi a desconhecida e discreta art dealer, Glafira Rosales, mexicana residente em Long Island; quem comprou foi Ann Freedman, diretora da galeria, conhecida no jet set artístico como exigente e gananciosa negociadora – em uma palavra, agressiva. Especialistas autenticaram a obra, do filho de Rothko ao guru acadêmico sobre o famoso pintor, David Anfam, a despeito do histórico um tanto nebuloso acerca da propriedade pregressa da tela, conforme a versão apresentada por Rosales. Ann não checou as fontes e, posteriormente, a pintura foi vendida em um leilão por 5,5 milhões de dólares.

Não, não estamos em Ibiza, cenário do fabuloso “F for fake: verdades e mentiras”, de Orson Welles: o pintor-falsário de Welles é o impagável Elmyr de Hory, absolutamente indiscreto, ao contrário do seu sucessor chinês, morador do Queens, em Nova York. Elmyr, que até Qian aparecer ostentava o título de “o maior falsificador de arte do nosso tempo”, pintava Matisses e Picassos, sobretudo: ninguém sabe quantas telas feitas por ele estão em museus e coleções, nem quantos milhões renderam ao dealer, o egípcio Fernand Legros (acabou preso por fraude em Paris, morrendo logo depois: é conhecido no Brasil por ter sido mentor do ator e produtor Carlos Mossy). O que se sabe é que Elmyr nunca acumulou capital nem se tornou financeiramente independente: recebia uma pequena mesada para continuar trabalhando, até que Legros construiu uma casa para ele em Ibiza. No intrincado e obscuro mercado nova iorquino, no escândalo que ficou conhecido como a “maior fraude da história da arte”, a galeria Knoedler vendeu dezenas de pinturas “atestadas” de artistas renomados do Ab-Ex, como é conhecido o Expressionismo Abstrato no jargão da crítica local, e faturou 80 milhões de dólares!

O mérito de “Fake Art: Uma História Real”  é desnudar, impiedosamente, os agentes do mercado que tiveram alguma participação nesse colossal engodo – peritos, compradores, socialites, respeitáveis críticos e populares arroz-de-festa de vernissage. A cadeia de valor da obra de arte – do pincel do artista ao dealer, da galeria ao colecionador – conta com uma elasticidade sem par na indústria cultural, talvez na indústria em geral. Nesse caso a valoração financeira dos trabalhos artísticos e os lucros astronômicos são tão mais absurdos quanto calçados em premissas falsas, pelo menos para o código do mercado. O páthos que Rothko imprimiu em suas telas, cores fortes radiantes arranjadas em retângulos de tamanho variável, extrapolou da alma do artista e inscreveu-se no imaginário americano como seu ápice pictórico, verdadeiro emblema nacional: seu contraponto, no mesmo nível de representatividade artística, é o projeto de decomposição radical levado a cabo por Jackson Pollock, com seu estilo de gotejamento, pingos lançados e entrelaçados na tela, uma pintura de ação. Os dois se complementam como yin-yang, camadas interpenetráveis de matéria expressiva. O crítico Clement Greenberg é o grande intérprete desse momento histórico, considerado o salto fundamental dos Estados Unidos para alcançar a first league dos países produtores de arte do planeta. Pollock e Rothko foram os principais artífices desse salto.

Pois toda essa estupenda construção intelectual terminou sendo reproduzida no Queens por um frustrado chinês…cercado de falsários-de-si-mesmos, diria Orson Welles, fazendo com que “Fake Art: Uma História Real” exiba uma galeria invejável de personagens. O ex-companheiro de Rosales, o espanhol Jesus Angel Bergantiños Diaz, lembra a figura atarracada de Akim Tamiroff, ator-fetiche de Welles: tinha antecedentes policiais com fake art, e fugiu para seu país de origem. No rol dos compradores, o casal Domenico/Eleonora De Sole é um caso extremo: personalidades em exposição permanente na mídia – ele é executivo da moda, ex-Gucci e atual Tom Ford, além de Chairman da Sotheby’s desde março de 2015; ela descendente de fazendeiros confederados da Carolina do Sul – compraram em 2004 um Rothko por 8,3 milhões de dólares! (no julgamento sobre o caso em 2016, ela se debulhou em lágrimas ao lembrar as circunstâncias da compra). O dono da Knoedler Gallery, Michael Hammer, é um atribulado homem de negócios, conhecido pela frota de carros caros e por ser pai do ator Armie Hammer, estrela de filmes como “Me chame pelo seu nome”, “A Rede Social” e “Rebecca – A mulher inesquecível”, remake do clássico de Hitchcock lançado em 2020 na Netflix. No começo de janeiro último, vazou na internet uma suposta conversa de Armie com uma mulher, em que o ator se diz “100% canibal”. Em outro momento, ele diz ter “arrancado o coração de um animal ainda vivo e comido enquanto ainda estava quente”. A Knoedler, desnecessário ressaltar, fechou em 2011.

As falsificações só foram comprovadas por meio de análise molecular das telas, com técnicas microscópicas, depois que compradores estupefatos resolveram protestar. Quase todos litígios foram acertados em vultosos acordos fora do tribunal, exceto o do casal De Sole, que rendeu, naturalmente, ampla cobertura midiática quando levado à corte. Qian, por seu turno, voltou para a China disposto a arriscar uma nova e original carreira artística. A China não tem acordo de extradição com os EUA, logo está inatingível. Ann Freedman nunca reconheceu qualquer culpa e abriu uma nova galeria, que anuncia, em seu site: “nosso compromisso é com o artista e em aproximar arte e colecionador”. Glafira Rosales admitiu sua parte de culpa, passou uns meses presa e estaria trabalhando como garçonete em um restaurante no Brooklyn.

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