Rebecca – A Mulher Inesquecível

A Sombra de um Espírito

Por Laisa Lima

Netflix

Além de “Psicose” (1960), Alfred Hitchcock tem muito mais a oferecer. Se em “Os 39 Degraus” (1939) o diretor deu início às suas marcas registradas, como o MacGuffin (desejo buscado pelos protagonistas da trama, tal qual um objeto ou uma idealização), em suas demais obras, sua autoria foi perpetuada. Apesar da fama como principal precursor dos filmes de suspense estar simplificada em películas como “Janela Indiscreta” (1954) e “Um Corpo que Cai” (1958), foi com “Rebecca” (1940) que o artista deu as graças em Hollywood, arrematando seu primeiro e único Oscar de Melhor Filme. Como homenagem ou como gratidão, a Netflix resolveu lançar sua própria versão – em tom Hollywoodiano – do clássico de 1940, o remodelando por meio da direção de Ben Wheatley. “Rebecca – A Mulher Inesquecível” (2020) é a aposta da vez para reviver algo que talvez não tivesse a necessidade de ser remexido.

Retirada do livro de Daphne Du Maurier, “Rebecca – A Mulher Inesquecível” de 1940 e de 2020 possuem basicamente a mesma premissa: uma jovem solitária e considerada “dama de companhia” por uma esnobe mulher, apaixona-se por um milionário que a leva para sua mansão. Lá, o espírito de Rebecca, ex-esposa de Maxim (Armie Hammer), o rico dono da moradia, assombra cada morador da residência. Se o longa-metragem de Hitchcock leva esta essência da história por um caminho de constantes questionamentos e um trabalhado terror psicológico, Wheatley opta por um rumo mais fácil: o apelo estético e sua consequente manipulação das sensações dos espectadores, que podem passar de admiração por um visual requintado, para impaciência diante dos acontecimentos rasos.

Em seu início, “Rebecca” parecia ir por um bom rumo. Imagens com cores saturadas, cenários riquíssimos e iluminados, alternância entre diálogos do presente e flashbacks que corroboravam com a fala dos personagens, e um romance sendo construído naturalmente, tudo com um ar de filme da Cinderela – figura oportunamente já interpretada pela protagonista Lily James. Afinal, há uma certa semelhança entre a garota órfã explorada por um ser maléfico e resgatada por um possível amor verdadeiro, e a trama da princesa da Disney. Entretanto, o objetivo do filme era passar longe de um conto de fadas melodramático e exibir um forte suspense envolto em criminalidade, sexualidade e passividade. A tentativa de contornar esta atmosfera encantada e a transformar em um ambiente de clausura, reverte o quadro iniciado pela película mediante a apresentação de uma casa típica de um terror fílmico: retratos em pinturas a óleo, móveis de madeira rústica, pouco arejamento e componentes internos já manjados, como a governanta “má”.

Mrs. Van Hooper (Ann Dowd), a tal governanta da mansão, é apenas um dos elementos batidos presentes no longa-metragem, que premedita a tensão do público a partir de informações esmiuçadas sobre a falecida Rebecca e suas decorrências psicológicas em Mrs. De Winter (como é chamada a personagem de Lily James), mas sem manter uma profundidade narrativa e sem criar o devido imaginário do espírito da mulher, já que tudo parece orquestrado. Além disso, os criados amedrontados, a sala secreta enlaçada por um mistério, os sonhos perturbadores da protagonista, etc; são elaborados debaixo de uma camada visual convincente, mas ao tentarem se desgarrar da forma clichê em que tais itens são utilizados geralmente, o filme tropeça no mesmo buraco, dispondo de uma trilha sonora brega e fazendo até da doentia fascinação dos residentes da casa por Rebecca, algo artificial.

Ao almejar um thriller psicológico, o diretor Ben Wheatley transmite o efeito reverso de algo que deseja mergulhar na psicologia humana: uma frivolidade. Por mais que o conceito externo seja compatível com um filme de suspense, visto a contínua névoa que paira a mansão e a cenografia que, juntamente com a fotografia, dão uma aparência gélida para todos os moradores da casa e sua própria locação; isto não é suficiente para que os plot twists internos interfiram significativamente no sentimento de inquietude desejado pela história por parte da audiência. Além do filme ser guiado de modo com que a emoção nunca chegue até um ápice, o diretor reflete sua intenção de demonstrar uma modernidade em relação a “Rebecca” de 1940, escolhendo movimentos de câmera giratórias, zooms e aparatos que explanem tal objetivo, focando neles e não na maior confecção das temáticas que o filme pôde proporcionar, como uso do erotismo e da dependência amorosa patológica. Sem escolha, os atores principais – apesar de esforçados – integram o conjunto de superficialidade do longa-metragem, com Lily James interpretando uma menina inocente carente de uma personalidade mais impositora, e Armie Hammer empenhando-se em fazer um papel de homem controverso.

“Rebecca – A Mulher Inesquecível” de 2020, se apoia na motivação de ser um filme inesquecível. Contudo, para o alcance de tal feito, toda a elaboração da obra tinha de conter uma originalidade capaz de tornar ou esquecível ou igualável, o filme de 1940 feito por Hitchcock. O remake dirigido por Ben Wheatley, porém, nada mais é do que um longa-metragem trabalhado visualmente para causar um terror com base no que é observado, deixando o enredo em segundo plano. A filmagem pode ser irretocável em suas dimensões exteriores, mas a história por dentro destas belas imagens é deficiente de uma atenção maior, de um clímax maior, de um aproveitamento maior dos boas discussões do material fonte, e de uma vontade maior de inovar no quesito drama, ou terror psicológico, ou como a película prefere ser considerada. A pretensão de aproximar-se de um clássico com a intenção de se sobrepor ou de equiparar-se a ele, é perigosa desde o momento em que se escolhe qual clássico será a fonte. Se a base for uma construção de Hitchcock, é melhor ter em mente que a superioridade em relação aos filmes do diretor, será uma tarefa de difícil execução.

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