Ser ou não uma cabra…

Por Fabricio Duque

Quanto mais analisamos o ser humano, principalmente como indivíduo social, mais temos a certeza absoluta de seu poder cognitivo de engessar sinapses (as próprias e dos outros), influenciadas pela repetição massificada das crendices populares do meio em que se vive. É o comodismo do acreditar, que desencadeia uma tranquilidade propositadamente limitadora a fim de proteger de uma possível quebra do equilíbrio do pensar.

Exibido no Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes 2017, “Eu não Sou Uma Bruxa” é sobre a escolha existencial pautada no medo do julgamento divino. Ser um “cabra” ou uma “bruxa”? Ser livre e lidar com todos os perigos ou optar pela submissão total com “regalias” do trabalho e da comida? Aqui, o público embarca junto no épico de uma vida em sobrevivência diária e “alérgica ao conforto”. Nós nos tornamos antropólogos, observadores de uma peculiar e ancestral cultura.

O longa-metragem é um estudo de caso de estética visual. De um poema orgânico, físico e visceral, conduzindo sua narrativa pelo amadorismo improvisado de seus iniciantes atores (moradores e participantes do universo retratado: lúdico, alegórico, ingênuo e amador). O espectador é imerso também nas indecisões de sua protagonista, que “recebe” um título e uma maldição para toda a vida. É, o outro próximo representa o mais  perigoso dos inimigos quando está entre iguais, entre celulares que tocam, entre a necessidade de perucas e principalmente entre aqueles que transformam humanos em experiências circenses e turísticas.

“Eu não Sou Uma Bruxa” é uma parábola. Uma fábula realista sobre o abuso da imposição. Um mimetismo. Uma adaptação na qual um organismo possui características que o confundem com um indivíduo de outra espécie. É o exemplo cirúrgico a Shula, uma  menina de oito anos, que após incidentes banais na comunidade, é acusada de bruxaria e jogada como “uma bola de Ping-Pong”.

É iniciada sua odisseia de conhecimento e crescimento. De perceber a hostilidade egocêntrica do Mundo, que perdeu a inocência e que agora, por vingança talvez, busca denegrir para se sentir superior. O filme faz com que o espectador infira à estrutura cinematográfica do sul-africano “Os Iniciados”, de John Trengove, pela semelhante narrativa condutora e pela temática de conflito. Neste, a apatia suspensa (quase defensiva e auto-protetora) de Shula (a atriz mirim Margaret Mulubwa em uma irretocável interpretação em dosar a sutil economicidade com a força de suas expressões – poderosas, intensas e autossuficientes), que não falava, não negava e tampouco assentia, encontra o próprio viver. É usar a própria vida para se salvar da própria vida. 

Dirigido e roteirizada pela estreante zambiana (País na África Oriental) Rungano Nyoni, que visitou um acampamento de bruxas “reais” em Gana (país da África ocidental), “Eu não Sou Uma Bruxa” é um documento histórico contado pela ficção. Uma contemplação que não objetiva o confronto crítico e sim estimular o julgamento. Somos adentrados nas mais adversas condições humanas, pautadas pela aceitação repressora da tradição. O que podemos reparar é um novo estágio escravocrata. De seres à mercê da boa vontade “divina” dos outros. E das fitas que mitigam o ir e vir. Essas bruxas já estão acostumadas a aprisionada condição? Talvez resignadas com alguma esperança resiliente.

Como foi dito, o filme tem viés antropológico quando nos apresenta crenças tão enraizadas. Uma mulher ser considerada bruxa em Gana não difícil, na verdade é até corriqueiro. Essas mulheres buscam proteção, purificação e refúgio (incluindo das violências de seus familiares) nos acampamentos (que chamam de “lar”), alguns com mais de cem anos. O tema já foi abordado no documentário “Witches of Gambaga” (2010), da diretora Yaba Badoe.

“Eu não Sou Uma Bruxa” também pode ser uma denúncia documental, mas pouco pode fazer para mudar, visto que esta é a tradição de um povo e que precisa ser respeitada, que apesar de nossos olhares agressivamente julgadores, representa costumes típicos, como paralelamente podemos exemplificar com as mulheres-girafas da Tailândia e ou os véus islâmicos do Hijab à burca.

Uma bruxa significa o medo. A metáfora do empoderamento feminino contra a frágil e vulnerável comportamento masculino, este alimentado pelos condicionados machistas de uma sociedade patriarcal. É acreditar que se a mulher crescer, então tudo é permitido e controlado, diminuindo a homogeneidade. Queimar e ou escravizar é a solução. E Shula, apenas mais uma no meio do fogo. “Eu não Sou Uma Bruxa” conquista e nos envolve pela qualidade técnica, principalmente de sua fotografia e seus ângulos de câmera, e pela temática social de documentar com ficção a realidade de um povo.

Trailer

https://youtu.be/rnQmq_Jci-c

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