Eu e o Líder da Seita

O perdão e o mal

Por Vitor Velloso

Durante o Festival É Tudo Verdade 2021

“Eu e o líder da seita” de Atsushi Sakahara é uma das coisas mais desconfortáveis do ano. O que não é um elogio. O projeto de terapia mútua surge do encontro do cineasta, vítima de um atentado terrorista na década de 90 realizado por um grupo religioso, com o atual líder da seita. Apesar da ideia ser interessante, os esforços do diretor dialogam com algumas frentes católicas, porém de maneira dialética, esse perdão deveria surgir como o sentimento de culpa, exposta em momentos diferentes. 

Mas o barato é tão lento e entediante, que essa prerrogativa humaniza um adorador de genocida, na pretensão de conseguir abalar essa “fé”. O projeto se transforma em uma montanha russa de frustrações, onde o espectador fica vislumbrando um imenso potencial ser desperdiçado com provocações frágeis. As coisas não funcionam bem quando o diretor decide realizar essa terapia com uma ideia preestabelecida do que pretende com o encontro. Não é muito difícil dobrar ocasionalmente uma pessoa sem personalidade que está em profunda descrença consigo mesma, mas acreditar que a pompa discursiva em torno de dor e sofrimento vai romper a “bolha da fé”, é de uma ingenuidade grosseira. E esse sentimento é traduzido em um documentário que vai perdendo todas as forças para cada minuto que avança. Tudo se torna repetitivo e entediante em “Eu e o líder da seita”. 

O pressuposto das provocações vai se perdendo em um exercício pseudo antropológico, amplamente contaminado por dogmas cristãos. A cena dos pais de Sakahara indo encontrar Hiroshi Araki é de uma presunção pouco eficiente. E por essas escolhas tendenciosas e desonestas, o que poderia se tornar um proeminente debate entre política, religião, sociedade etc, se torna uma exposição de angústias e motivos para estarem ali. É uma das projeção assustadoramente entediante que não consegue desenvolver nem a crítica que decide fazer no início do longa, quando expõe um trecho da Constituição. A falta de uma análise e de um diagnóstico da seita, faz com que esse jogo entre os protagonistas esteja sempre em uma suspensão da individualidade, mas diferentemente de uma sala de aula onde a experiência pessoal é o motor provocativo para discussões, Sakahara insiste nesse câmbio mútuo para aproximar as duas realidades. 

Formalizando essa crença, nada mais importa em “Eu e o líder da seita” e a própria linguagem apenas enquadra os encontros, organizando seus tempos, mas não é capaz de articular um confronto dos momentos distintos que cada um enfrentava no momento do registro. A perspectiva unilateral do filme é traduzida pela inabilidade do diretor em extrair algo além das imensas fragilidades do terrorista. Ao descrever parte do projeto como “um relatório moderno sobre a banalidade do mal”, para criar um paralelo mais direto, parece acreditar em uma correlação que não passa de uma interpretação imediatista dos problemas. 

Araki é uma figura que passa por diferentes leituras durante as quase duas horas de exibição, desde momentos mais “sensíveis” ao mais detestável discurso. Mas seu protagonismo diante da objetiva é fruto de um interesse premeditado, com poucos frutos visíveis, para não negar em absoluto. Além disso, se os primeiros minutos de “Eu e o líder da seita” são minimamente interessantes por estarmos adentrando parte desse território hostil e violento, o restante da obra visa uma construção direta sem o exercício acusatório, para tentar formalizar um palco de “mea culpa” e um confessionário que possa perdoar a figura, sob a pena do perdão da mesma. Mas a ingenuidade e pretensão do diretor, embaça qualquer vislumbre crítico de uma abordagem que mais parece um encontro casual de dois amigos e não aquilo que visa inicialmente. 

A suspensão acusatória demonstra que a superação do fato ocorreu na tentativa de humanizar o líder, desarticular uma “máscara” e fomentar essa aproximação conjunta. Até um casaco o diretor compra para Araki, um presente que ele dá na esperança de receber um pedido de desculpas, mas a terapia não funciona na montagem, mas sim nos fatos. A frustração é mútua, o desenvolvimento uma chatice e o fim… dúvida. 

Trailer

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