Estrangeiro

Pretensões Vazadas

Por Jorge Cruz

Mostra Sesc de Cinema 2019

Quando “Estrangeiro” se inicia, mostrando uma representação de mulher indígena no meio de uma floresta em uma fotografia artificialmente monocromática, é difícil não se recordar de “Vazante“, incursão equivocada de Daniela Thomas pelas memórias de seus antepassados. O medo de encontrar a mesma pasteurização romântica dos invisibilizados não se concretiza, para alívio de muitos. Mesmo assim, há no longa-metragem de Edson Lemos Akatoy uma ausência de objetivos, uma fuga de assumir algo, que o insere mais na vida da protagonista Elisabete (Cecilia Retamoza) do que o contrário.

A ideia vendida pela obra é a de que a personagem transitará por lugares que lhe são familiares em uma procura por autoconhecimento. Cansada de parecer viver sem objetivo, Elisabete tenta na ancestralidade – próxima ou distante – preencher o que entende como vazio. Akatoy não mede esforços para criar um patrimônio de lindas imagens. Em relação a isso, “Estrangeiro” segue o mesmo caminho do excepcional “Ambiente Familiar“, também representante do cinema do Estado da Paraíba. São planos abertos com panorâmicas que saltam aos olhos, além de sequências debaixo d’água. Uma forma de pensar essa construção que confirmam que o talento do diretor (roteirista e montador) é mais do que genuíno.

Se depois desse prólogo com uma temática indígena que demorará a se justificar, o longa-metragem começa sua trajetória de vagar sem direção. Visitas à casa da mãe e na praia onde passava a infância não são capazes de massagear o ego de Elisabete, que se incomoda com algo que não consegue definir. As conexões vinculadas às territorialidades, relações sociais e familiares são alcançadas a muito custo, diante de uma câmera que age como observadora participante.

Essa crise creditada à ausência de conhecimento sobre a ancestralidade se revela cada vez mais comum em uma sociedade que não se permite parar. As gerações mais novas desenvolvem todo um leque de transtornos vinculados à falta de saúde mental. Acaba que a solução encontrada pelos organismos complexos e inteligentes que nos sustentam é a de criar fuga. Com isso, cada vez mais os temas trazidos por obras como essa serão identificados nas artes. A maneira como Elisabete se comporta é típica daqueles que, insatisfeitos com os rumos que a vida tomou, idealizam motivos para fugir, criando buscas que acreditam que satisfarão seus desejos.

De certo modo, “Estrangeiro” como produto audiovisual se faz valer dessa mesma crise identitária e dessa mesma busca incessante por algo que não se concretiza eis que indefinível. Sua protagonista não chega à conclusão alguma, mas ao mesmo tempo não desenvolve qualquer olhar crítico. Em determinados momentos, o aeroporto nos é apresentado como cenário – um ambiente que, dentro das vedações herméticas de suas janelas de vidro sempre muito limpas, é um território sem alma, uma zona neutra. Um local que concentra pessoas com as mais diversas experiências, de vivências que deveriam ser compartilhadas. Só que nunca o fazem, uma vez que as convenções sociais rotularam aquele local como transitório.

Uma sessão de terapia longa e de um paciente que dá a impressão de que lhe basta apenas ser ouvido. É louvável essa provocação de Akatoy, mesmo que seu resultado final seja uma obra que não cria conexões, nem dentro de si e muito menos com quem assiste. Parece sempre a caminho de algum lugar que nunca chega, pois cada cena é um abandono, uma fuga do que foi mostrado antes. Como proposta de construção de trama ou até mesmo como exercício dentro do campo do experimentalismo, talvez fosse possível considerar o longa-metragem mais admirável. Da forma como é exposta, fazendo crer que o refinamento estético amplifica significações, se vale como um adorno – senão uma moldura vazia.

Dentro dessa lógica de sensibilizar e comover uma geração que acredita na fuga como solução de seus problemas, é compreensível que seja longa a campanha por festivais e mostras de “Estrangeiro“. Sigamos colocando nossas expectativas naquele feriado no campo ou nas férias onde nos enganaremos com fotos cheias de filtro com os pés na areia. Talvez seja mais genuíno assumir essa fuga com prazo de validade do que acreditar que tropeçaremos em uma epifania como Elisabete quer fazer parecer. Porém, se as falhas de representação, que pareciam macular a obra na origem não se confirmam, persiste a sensação da proposta de questionamento de origem ter sido mal sucedida.

 

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