Estaremos Sempre Juntos

Declínios Bárbaros

Por Jorge Cruz

Estaremos Sempre Juntos“, continuação de “Até a Eternidade” (2010) é mais um exemplo de tentativa de estabelecer conexões com o público a partir de representações idiossincráticas de adultos que não conseguem se entender a ponto de agir com coerência. Há alguns dias falamos como “Estrangeiro“, produção nacional recebida com empolgação por parte da crítica e certa preguiça por outra, possui essa mesma temática. Se aquela obra traz essas construções de personagens a partir de um lirismo cansativo, no longa-metragem dirigido por Guillaume Canet o excesso de narrativas acaba jogando contra a experiência. Quase como se toda a imaturidade temporária daquelas pessoas urgissem por uma explicação prévia – quando, na verdade, eles são apenas “gente como a gente”.

O protagonismo do roteiro do próprio Canet ao lado de Rodolphe Lauga é todo dedicado a Max (François Cluzet), o homem branco heterossexual bem sucedido que vive a única crise possível: a chegada da velhice. Com a mesma premissa da fuga tratada no filme de Edson Lemos Akatoy, a reação do personagem é oposta. Se em “Estrangeiro” Elisabete tenta se reconectar ao mundo, ciente de que sua condição de mulher a privou de muitas experiências, Max é um macho cansado de fazer sucesso. Ele quer apenas ficar sozinho, colocar à venda sua casa e não ter que ser agradável com familiares e amigos que insistem em lhe amar. O rompimento se dá quando o mesmo grupo que estrelava “Até a Eternidade” surge em sua porta no dia do seu aniversário de sessenta anos. Ele reluta, mas bem pouco – já que está condenado a ser o homem querido.

O primeiro ato de “Estaremos Sempre Juntos” traz uma escolha interessante de Canet e do montador Hervé de Luze (indicado nove vezes ao César e uma vez ao Oscar, por “O Pianista” de 2002). A fase introdutória se dá sem uso de trilha, com quase trinta minutos de diálogos se sobrepondo, em montagem paralela com um ritmo bastante novelesco. Esse ciclo se encerra quando a álcool começa a subir e o grupo dança ao som de Don’t Go Breaking My Heart, de Elton John Kiki Dee. Dali em diante, se abrem as portas das inserções de músicas dos anos 1970 e 1980 para ilustrar de forma insistente a nostalgia da juventude dos personagens.

Essa vibe “vamos nos permitir” de “Estaremos Sempre Juntos” esconde a real camada a ser trabalhada pelo roteiro. Em nenhum momento aquelas pessoas se perguntam o porquê de quererem sempre resgatar aquelas amizades de infância e adolescência – mesmo com tantos anos de novas experiências. Cada vez mais o medo com o que se passa agora nos recoloca em um passado idealizado, romantizado. É assustadora a maneira com a qual obras como essa se valem desse clima de mesa de bar, repetindo ao longo de mais de duas horas um conceito que já se apresenta de forma eficiente em poucos minutos. Quase como quem coloca água no feijão porque aqueles parentes que aparecem sem ligar surgem na porta de casa naquele domingo no final do mês.

Depois de um ato inteiro com o único objetivo de transportar essa turma da pesada para a casa de praia (gastando mais tempo do que a série de episódios de “Chaves” em Acapulco), o que se vê adiante é essa reverberação da falta de vínculos entre aquelas pessoas – que precisam passar o dia relembrando fatos muito antigos ou embriagadas para alcançar o ideal de férias perfeitas. Com os filhos servindo quase como um obstáculo, as interações que fogem do narcisismo daquelas pessoas aparecem de forma esporádica e sem grandes consequências. A babá que age quase como uma mãe da criança menor até ganha tempo de tela com duas ou três cenas. Por outro lado, há um momento tão descartável em “Estaremos Sempre Juntos” que se transforma em uma cena de trinta segundos inesquecível em um filme de quase duas horas e meia por ser o diferente no meio do lugar-comum. É o momento em que dois filhos adolescentes mexem no telefone celular e são censurados brevemente por um dos adultos que colocou na cabeça que tudo o que está vinculado à rotina não lhe permite ser feliz por completo.

Na única sequência em que filhos têm espaço, o longa-metragem destila comportamentos de “tio do pavê” com projeções de relacionamentos de jovens senhores em discursos machistas direcionados aos garotos. Um exercício de construção de personagem pouco eficiente no segundo ato, vira uma ode à amizade no ato final. Guillaume Canet insere uma linda sequência de salto de pára-quedas tão bonita que soa até deslocada. Um momento que sofre pelo cansaço que já tomou conta do espectador, que precisa lidar com aquelas pessoas agora sensatamente adultas por um estalo. Se a ideia era fazer com “Até a Eternidade” o que “As Invasões Bárbaras” (2003) fez com “O Declínio do Império Americano” (1986), é melhor indicar uma masterclass com Denys Arcand quando a dupla de roteiristas passar pelo Canadá. Para a geração que insiste em não envelhecer e encarar a realidade, “Estaremos Todos Juntos” é a prova de que a saída tampouco está no cinema.

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