O Vertentes do Cinema entrevistou a diretora Mónica Lairana, do filme “La Cama”, que, depois do Festival de Berlim, chega aos cinemas brasileiros.

Por Vitor Velloso


Vertentes do Cinema: Os planos são longos, há uma dominância do silêncio, os personagens possuem uma idade mais avançada. É perceptível um olhar mais maduro em todo o filme. Como a misancene, a fotografia e a montagem se relacionam em seu longa?

Mónica Lairana: Em primeiro lugar eu tenho um curta-metragem, anterior a este longa, onde eu já havia experimentado este tipo de narrativa (livremente traduzido de “narración”) cinematográfica, mais formal, onde experimentei esta coisa dos planos fixos, longos. Eram também observacionais, onde o espectador era um observador da situação. Então quando decidi fazer este filme, quis continuar este caminho que já havia iniciado nestes curtas. Mas também digo ser uma exceção, pois os curtas metragens permite uma liberdade criativa, que muitas vezes os longas, não. Pois no longa metragem, exigem uma outra velocidade, outra informação. Tomei a decisão de não fugir do caminho estético, visual e narrativo que havia iniciado nos curtas.

VC: Então trabalhei neste filme, aprofundando este caminho que estava traçado fundamentalmente em inúmeros elementos formais e cinematográficos, …para que o espectador possa se sentir um voyeur do que está vendo. É um filme que os atores são muito presentes, eu queria que os atores não parecessem atores. Então o trato com eles, foi de suavizá-los, para deixá-los mais naturais e realistas. Funcionando com o tempo da câmera e da cena.

ML: Me permiti ter cenas longas, como a primeira que tem oito minutos, quase respeitando o tempo real. Quase, por que é impossível. Por isso, vemos uma personagem sozinha, sentada, com todo seu drama, apenas observando, sem interromper, nem com música, pois é invasivo, não é natural. E buscando isso, filmamos de fora dos cômodos, buscando essa questão da observação. E também entendendo que o mais importante do filme, é a construção da intimidade, pequena.

VC: O silêncio é tão narrativo quanto o diálogo. Não me interessava fazer um filme com muitas falas, pelo contrário, todas os diálogos no filme não dizem nada, são supérfluos.

ML: Isso é interessante, é a convivência de dois personagens que podem conviver no silêncio. Compartilham o silêncio. Não é um filme virtuoso, foi bastante tranquilo. A ideia é permitir o espectador sentar e embarcar nesta proposta mais lenta, de observação, para então, reflexionar sobre as ideias que estão ali.

VC: Você acredita que a teoria é capaz de esvaziar a imagem?

ML: Acredito que o mais importante seja ser fiel a si mesmo. Não acredito que o filme é falho quando se trata da história que está contando, mas sim quando o realizador não é fiel a o que quer contar. Se o filme expressa a essência do realizador, para mim, é um feito. Acho fantástico quando um diretor se entrega a abrir mão do roteiro como aparato, quando assume e entende que aquela convenção não tem como vir a ser o melhor caminho para sua obra, já que pode lhe distanciar de uma oportunidade de espontaneidade absoluta. O que me remete a relação de necessidade que alguns autores desenvolvem com o ofício da realização, aqueles que se veem numa condição de necessidade constante de filmar; já não me vejo nesse cenário, para mim vejo mais como uma necessidade profunda de concretizar aquilo que está dentro de mim e no agora. Vem a ser, muito mais, uma questão de visceralidade, de idiossincrasia. Então, acredito que a teoria servir ou não acaba dependendo desta crença, em si, do realizador. O que não é bom que se aconteça é a teoria se sobrepor, de alguma maneira, ao filme. Uma questão de respeito a o que cada um necessita, porque, afinal, existe o filme anti-teoria, o filme-teoria, o filme-livro, tamanha pluralidade que, se vem a chegar onde quer, está bem.

VC: Como você enxerga o papel da crítica?

ML: Isso é complicado. Só posso me referir, claramente, à minha perspectiva argentina. Com o espaço e o tempo se deteriorando, o que teria a crítica junto dos grandes meios gráficos? Esse espaço veio se deteriorando. Um crítico, que antes tinha o espaço para refletir com dignidade sobre uma obra, hoje terá que pensá-la num espaço de 8 linhas e algumas carateres. Não se pode ler, não se pode escrever. Uma redução que acabou por empobrecer demais esse espaço da crítica. E não estou aqui culpando o crítico, mas foi, na verdade, o sistema que veio deteriorar o seu trabalho. E no outro lado, a condição das novas mídias (internet) veio gerar uma exposição desse objeto de uma maneira massiva trazendo holofotes a um discurso que não sempre especializado. De fato, já não há mais a devida valorização do campo, é um momento verdadeiramente esquisito. Não consigo imaginar o que seria o futuro da crítica.

VC: Hoje, em nosso maior jornal, a crítica é um desenho, um bonequinho, batendo palma ou dormindo.

ML: Sim, lembro-me que os realizadores chegavam a guardar, fisicamente, os textos de críticas de suas obras. Fazia-se uma análise tão profunda do filme que acabava por levantar os olhos de todos que liam. Um processo reflexivo de valor imenso. E hoje a grande mídia ainda vem chegar à conclusão de que a crítica popular não gera audiência alguma. Parece haver uma pressão para que ela desapareça por completo. é muito esquisito, quantos anos sobrando, até mesmo, o jornal impresso deve ter de vida?

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