Sem Descanso
Na foto, o diretor Bernard Attal e a produtora Gel Santana

Sem Descanso:
Uma entrevista com o diretor Bernard Attal

 

Em 2019, o diretor Bernard Attal apresenta “Sem Descanso” (CRÍTICA AQUI) no Festival do Rio. E conquista o Troféu Vertentes de Melhor Documentário (TRAILER AQUI), pela força e impacto de usar o cinema como propulsor de um diálogo. Em 2020, com oito meses de confinamento, o filme estreia nos cinemas, dia 05/11. Nosso site conversou com o realizador sobre cinema, política social e humanidade. Confira a seguir!

Preciso começar esta entrevista com uma pergunta padrão e protocolar: como surgiu a ideia do filme?

Foram vários fatores: primeiro, claro, a coragem do pai Jurandy que resolveu enfrentar as autoridades públicas para achar seu filho e os responsáveis por sua morte; depois foi o compromisso do jornal Correio de ajudar Jurandy a desvendar o caso e de assumir o papel investigativo do jornalismo, uma raridade hoje em dia; e finalmente foi o fato que Geovane foi assassinado a mesma semana que Michael Brown nos EUA e de ver que as duas sociedades, a americana e a brasileira reagiram de uma forma bem diferente. Fui no enterro de Geovane lá no interior, só tinha família, amigos, alguns repórteres. O estado não mandou ninguém para simpatizar com a dor da família. Nos EUA, milhares de pessoas seguiram o caixão do Michael, inclusive muitos formadores de opinião e artistas. Obama fez um discurso impactante. Quando voltei do enterro, com minha esposa e produtora Gel Santana, que foi criada perto do bairro da família do Jurandy, a decisão estava tomada. Precisávamos contar essa historia.

Seu filme gera o impacto da dor. O espectador sente o luto, a luta e a força de seus personagens reais. Como foi arquitetado o tom narrativo do documentário?

O principal objetivo era de não fazer uma obra sensacionalista, de não instrumentalizar a dor alheia. Nada se compara com a dor de perder um filho. Então, logo a ideia era de acompanhar a jornada do pai Jurandy e da família ao longo dos anos, não somente ao longo das semanas do drama. Por isso, gravamos esse filme entre 2015 e 2018. Poderíamos ter lançado esse filme um ano depois do drama, mas o preço seria sacrificar muitos elementos que analisamos no filme sobre as raizes da violência policia, sobre a cumplicidade da sociedade toda e sobre o fracasso da nossa segurança pública.

O filme venceu como o Troféu Vertentes de Melhor Documentário porque se apresenta como uma obra de diálogo. Qual foi pensada a mensagem inicial?

A mensagem inicial é que somos todos responsáveis por essa situação, não somente os policiais, o estado, mas também a justiça, lenta demais, os políticos que fazem o jogo da demagogia, e nos, cidadãos, que toleramos a violência do estado porque achamos que é um mal necessário para combater o crime.

No início da pandemia, falou-se muito que esta experiência traumática de perdas mudaria, humanizaria e sensibilizaria o ser humano. Hoje, oito meses depois de confinamento, percebemos que o indivíduo social está mais insensível, principalmente por nossos governantes. As vidas humanas tornam-se apenas estatísticas. Como você vê esse descaso compactuado e banalizado de que mortes acontecem “e daí?”? 

Me parece que tem mais conscientização acima do assunto hoje em dia. Chegamos no limite do tolerável. O caso do George Floyd teve bastante repercussão aqui. Mas infelizmente, continua essa postura que vidas negras importam mais lá fora do que aqui, embora aqui temos uma verdadeiro genocídio acontecendo contra os jovens negros das periferias. O ano passado, quase 6.500 pessoas morreram em intervenções policiais (sem incluir os Desaparecidos Forçados que não entram nos dados oficiais). Nos EUA, foram um pouco menos de 1500, na Alemanha menos de 50. Para lançar esse filme, tivemos o apoio imediato e generoso de artistas como Wagner Moura e Vladimir Brichta que gravaram vídeos para nós. Mas de uma forma geral, a classe média tem medo de se envolver nessa luta.

Sem Descanso: Uma entrevista com o diretor Bernard Attal

Sem Descanso

Há no mundo uma violência, racismo, preconceito e egoísmo estruturais. Um grande ferida não cicatrizada. Você acredita que seu filme pode ajudar a mudar a mentalidade das pessoas, as deixando mais humanas? De não  mais comemorar a morte de um “suspeito” e que “na dúvida, mata”?

É sempre difícil avaliar o papel de um filme. Sabemos que ele impacta muito as pessoas que o assistem, tanto no Brasil, quanto no exterior. Estamos fazendo de tudo para ampliar sua distribuição: lançamos agora no circuito comercial apesar do momento difícil, depois iremos fazer um lançamento dito de “impacto, em parceria com o DOCSP / DOCSOCIETY, para levar o filme nas comunidades, nas escolas, onde não tem acesso fácil a salas de cinema. Então espero que essa noção que a violência policial é um mal necessário para lutar contra a criminalidade vai se corrigir, ser reconsiderada porque é falsa, e que as famílias das vítimas vão receber um suporte de verdade do estado e poder contar com uma justiça rápida. Os vários movimentos de Maēs através do país já tem conseguido muito. Esperamos contribuir com essa luta.

Agora, uma provocação política. O mundo precisa ser mais militarizado? A liberdade precisa de limites para ser melhor aceita? O que há de errado no mundo? 

Acredito, que pelo contrário, que o mundo precisa ser menos militarizado, que as armas devem ser proibidas. A democracia está doente e se refugiou no espaço virtual, muitas vezes ineficaz, das redes sociais. Tomamos como fatos consumados a democracia, a liberdade de expressão, o direito de ir e vir,  enquanto devemos lutar por eles o tempo todo. O jovem negro que tem medo de voltar para casa à  noite e de encontrar uma viatura da polícia na rua é a primeira vítima dessa complacência nossa. Mas um dia, e já começou, seremos todos também as vítimas  dessa redução do espaço democrático. Isso vale para o Brasil, os EUA mas também para a França, a Inglaterra e muitos outros países.

Você acredita que a mídia, com seu papel, em muitos casos, sensacionalista, atrapalha o despertar de uma nova conscientização do indivíduo social perante seus próximos?

O grande trunfo dessa história foi de ver o quanto o papel da imprensa pode ser positivo e importante. Nunca a imprensa foi tão mal tratada por parte da população. E assim descobrimos seu papel fundamental no funcionamento da democracia. Hoje quem fala da violência do estado são os jornais, as revistas, muito pouco os políticos. O Jornal Correio, liderado na época pelo finado Sergio Costa, ajudou muito a desvendar o caso e a proteger a vida do pai Jurandy. O repórter  Bruno Wendel e os colegas dele são os outros heróis dessa história.

Há uma polarização da sociedade, mas não embasada. Salvo exceções, percebemos uma condução perdida e maniqueísta. “Homens de Bens” versus “inimigos do povo? Como identificar um e o outro?

Por mim, o marcador entre “pessoas de bem” e “inimigo do povo” é quem respeita e defende a vida, não importa sua religião, suas opiniões politicas, sua classe. O que temos visto com a violência policial é que ela sempre existiu, desde a fundação da República, mas nos anos recentes, ela começou a crescer durante o governo Lula e se tornou fora de controle a partir de 2014. Governadores de direita como de esquerda se recusam hoje a lidar com essa tragédia porque tem medo de uma greve da PM. Quando você vai na periferia de Salvador e encontra os familiares do menino Micael de onze anos, que morreu jogando pipa na hora errada e no lugar errado, você não encontra nenhum representante do estado para se desculpar e procurar soluções para acompanhar a dor da família. Se o estado não pretende ser o amigo do povo e dar o exemplo, é muito difícil para o cidadão se comportar de uma maneira diferente.

Sem Descanso: Uma entrevista com o diretor Bernard Attal

Sem descanso

Nosso país há anos busca se tornar americano. Muitas  pessoas respondem em inglês para se sentir antenadas e globalizadas. Como foi filmar e captar as imagens nos Estados Unidos? Houve algum elemento limitador?

Não enfrentamos limites mas tivemos que lidar com a fatiga das pessoas. Em 2014, as pessoas acreditavam que as coisas iriam mudar. Foi neste momento que nasceu o movimento Black Lives Matter. Mas filmamos em 2017, com Trump eleito presidente, e o clima se tornou muito desanimador. Muitos ativistas perderem o emprego, alguns se mataram. Então muitas pessoas não queriam mais falar, tinham perdido a esperança. Então procuramos as que ainda tinham a fé que as coisas podiam mudar. E estão mudando, o Black Lives Matter agora é uma força política e  a gestão dos departamentos polícia está sendo repensada.

O Vertentes do Cinema é um site essencialmente de crítica. De pensar a sétima arte, permitindo que as obras possam ser completamente livres. Como você vê o papel da crítica de cinema?

Acho que o papel da critica é de procurar entender o que o autor da obra tentou fazer e julgar o resultado em função desse objetivo. Você não vai avaliar um documentário do Frederic Wiseman da mesma forma que um documentário encomendado pela HBO. Você pode gostar mais da abordagem de um ou do outro, mas precisa mesmo, em primeiro lugar, respeitar a liberdade do autor.

Muito obrigado! E para encerrar, gostaria de saber dos seus novos projetos. O que está vindo por aí? 

Estou trabalhando em um documentário sobre o porto de Salvador, sua história, sua vivência contemporânea, as tentativas de revitalização, os traços do passado ligados a escravidão. Mas a pandemia interrompeu as filmagens e, só o ano que vem, devemos retomar. Eu sou lento, gosto de tomar meu tempo, de refletir. Comecei nessa profissão ja com mais de 40 anos. SEM DESCANSO foi pensado a partir de 2014 e finalizado o ano passado. Então não tenho pressa.


Sobre o Diretor Bernard Attal

Seu primeiro longa de ficção, A coleção invisível (2012), conquistou quinze prêmios no circuito de festivais – Nashville, Bogotá, Lisboa, Newport Beach e Festival do Rio – e foi licenciado para canais de TV como HBO e Telecine. O diretor ainda realizou a comédia para TV A finada mãe de madame (2017) e o curta Dela, que abriu o encontro do BRICS na África do Sul.​

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