Sem Descanso

A Relação de Efeito e Causa que nos Torna Descartáveis

Por Jorge Cruz

Sem Descanso“, documentário do diretor Bernard Attal selecionado para o Festival do Rio 2019 (onde conquistou o Troféu Vertentes de Melhor Documentário), é um exemplo de obra de diálogo. Com estética e linguagem carregada de tradicionalismo, poderia limitar toda a sua potência na força da história por trás do Caso Geovane, jovem assassinado na Bahia de agosto de 2014, após ser abordado por três policiais em sua motocicleta. Após uma introdução em que o pai da vítima, Sr. Juracy, seus avós e uma ex-namorada nos ambienta, tratando o rapaz no passado e nos colocando a par da realidade do populoso bairro soteropolitano da Liberdade, o filme avança até de maneira surpreendente em sua narrativa e nas questões abordadas.

Construindo uma relação a partir da inversão, de efeito x causa, o longa-metragem abandona rapidamente esse sensação de suspensão de sensações e informações para iniciar uma trajetória do micro para o macro. Se nas três semanas que se sucederam ao sumiço de Geovane sua família se preocupou apenas em obter informações sobre seu paradeiro e, posteriormente, exercer de forma digna o direito de repousar seu corpo inerte, o que se seguiria nos três anos de intervalo entre o fato e a conclusão do documentário é o mais puro descaso do Poder Público.

Em uma sociedade onde a desmilitarização das forças segurança se mostra algo tão dogmático quanto a regulamentação do aborto, “Sem Descanso” faz a acertada escolha de enfiar superficialmente o dedo em várias feridas. Não quer ver nenhum paciente se contorcendo de dor, pelo contrário. Quer unir as manifestações das dores, na busca por um diagnóstico mais preciso. Mesmo que não veja saída a não ser concordar que o caso usado como norteador do filme é tão normal quanto naturalizado, se nega a ser apenas um veículo de concessão de voz, de possibilitação de defesa do oprimido. Um expediente que a mídia hegemônica cada vez abandona mais e que, no caso do documentário, encontra nas figuras do jornalista Bruno Wendel e do editor-chefe do jornal Correio Sergio Costa, personagens fundamentais. Costa faleceu antes da finalização da obra, que conta com o depoimento de todos os citados em conjunto com professores e estudiosos sobre segurança pública, antropologia e sociologia.

“Sem Descanso” transita pelas ciências, pelas questões judiciais, sem deixar de perder seu fio. Foram identificadas críticas acerca do didatismo e do excesso de informações fornecidas por alguns analistas de respeito. Quanto ao primeiro ponto, há de se concordar que a cronologia que o aproxima de uma obra engessadamente metódica é o que permite o perfeito entendimento de sua múltipla abordagem. A montagem acurada prima pelo encerramento dos arcos que se abrem quando o anterior beira o esgotamento. Quanto ao segundo ponto, este é o segredo para o documentário se rechear com a densidade que uma lupa (ou um microscópio) debruçada em um caso paradigmático não conseguiria obter. Algo como um seriado de dez horas como “Making a Murderer” se propõe a fazer, por exemplo. Terminamos a experiência de assistir aos menos de 80 minutos de “Sem Descanso” sabendo mais da nossa estrutura judiciária, da política de segurança pública e da sociedade brasileira do que o enlatado da Netflix faz com o sistema prisional norte-americano.

O Caso Geovane ganha o noticiário baiano pouco mais de um ano após Amarildo Dias de Souza, ajudante de pedreiro, desaparecer na Favela da Rocinha no Rio de Janeiro. No caso da vítima tratada no longa-metragem de Attal a localização do corpo se deu em mais de um ponto da cidade, uma vez que ele foi decapitado e teve membros cortados. Em um país onde o auto de resistência foi banalizado, a ponto da expressão “licença para matar” sair da ficção dos filmes de James Bond e passar a ser visto quase como norma de segurança dos agentes da lei, há espaço em “Sem Descanso” para buscar paralelos nos Estados Unidos. São esses alguns dos momentos mais surpreendentes do filme, por sinal.

Surpreendente não apenas por essa transição micro-macro já citada elevado a uma potência inesperada, mas também pela manifestação oficial do representante maior do Estado, o Presidente Barack Obama. Dentro de uma lógica de governos brasileiros tidos como progressistas durante mais de uma década, pouco se avançou no Brasil nessa questão. Quando a chave virou, a tendência se inverteu de maneira que nossos Geovanes sequer chegarão ao nosso conhecimento daqui para a frente. Quando era possível materializar, concretizar ações para diminuir ocorrências como essa, a demagogia dos autonomeados “homens de bem” e a elevação dos defensores dos Direitos Humanos como grandes inimigos da nação jamais foram combatidas. Nessa analogia internacional, Attal se permite por alguns momentos trazer imagens mais perturbadoras. O longa-metragem poucas vezes usa este artifício, como se quisesse a atenção do espectador ao frustrar tanto os sedentos pelo sensacionalismo quanto pelo jogral socio-econômico que insistem em se confrontarem nas abordagens desse tema em uma binaridade tacanha que deixa a sensação de uma falsa polarização da sociedade.

O que há mais de mais devastador em “Sem Descanso” é que a insurgência não parece ser uma opção. Ao contrário dos avanços normativos nos Estados Unidos, em que todas as ações policiais são filmadas, aqui se comemora a morte de qualquer um tido como suspeito. Na dúvida, mata. A aceitação de que nunca haverá uma reparação histórica se esfarela na falta de perspectiva de uma justiça social mínima. Dentro do amplo pessimismo inerente ao tema que aborda, Bruno Wendel ressurge quando completados três anos do Caso Geovane e nos mostra que as execuções sumárias de jovens negros são fotografias que não conseguem sequer envelhecer. São polaróides urbanas, que se acumulam e lutam pelo precioso espaço das sangrentas páginas dos jornais de tal forma que um documentário como “Sem Descanso“, para boa parte do público, (infelizmente) não consegue provocar o mínimo choque. Mesmo assim, para outros que sente o sangue do humanismo correndo nas veias, fica como consequência um embrulho no estômago e a certeza de algumas noites mal dormidas.

 

 

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    Obrigado pela leitura sensível, precisa e aprofundada. Raramente, se encontra critico procurando entender ao fundo a estrutura e os objetivos de uma obra e os confrontar com o resultado. Grande abraço e parabéns a todos pela riqueza desse site que acabei de conhecer.

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