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Ennio, o Maestro

Meia palavra não basta

Por Pedro Mesquita

Durante a Festa do Cinema Italiano 2022

Ennio, o Maestro

Há dois caminhos possíveis para se analisar o mais novo filme de Giuseppe Tornatore, “Ennio, o Maestro”. O presente texto os apresentará separadamente, dando ao leitor a possibilidade de escolher um em detrimento do outro, de acordo com suas opiniões pessoais. Prossigamos.

1. É possível considerar “Ennio, o Maestro” um filme competente. Este juízo de valor não se dá em nível estético — e nem o poderia, pois a sua aparência é absolutamente genérica, indistinta de toda a grande massa de documentários biográficos que vemos por aí —, mas sim em nível de conteúdo. Nesse sentido, a proximidade entre Tornatore, o diretor, e seu objeto de estudo, o compositor Ennio Morricone, parece fundamental ao êxito do projeto: a parceria entre os dois, que durou décadas (a partir da colaboração entre Tornatore e Morricone em “Cinema Paradiso” (1988)), rendeu ao filme uma quantidade impressionante de material a ser explorado. O filme é narrado predominantemente pelo próprio compositor, que conta nos mínimos detalhes vários dos momentos mais importantes de sua vida. “Ennio, o Maestro” não escapa, é verdade, da batida estrutura biográfica linear que assola boa parte dos documentários dessa natureza, à maneira de um artigo da Wikipédia que resume de maneira bastante protocolar a vida do seu protagonista; mas pelo menos ele o faz recorrendo aos próprios personagens das histórias contadas. Além de Morricone, Tornatore reúne no filme uma enorme variedade de pessoas para contribuir com suas histórias e oferecer os seus pontos de vista sobre o que está sendo dito, desde familiares a colaboradores profissionais, e essa profusão de vozes é tamanha que os convidados parecem completar as frases uns dos outros (feito conquistado através da montagem, é claro). O filme percorre a trajetória de vida do compositor de uma maneira que se pode considerar bastante completa, na medida em que faz questão de acumular a maior quantidade possível de informação dentro dele — desde os grandes acontecimentos às pequenas anedotas; desde os momentos profundamente emocionantes aos mais engraçados. Eis, portanto, um filme que almeja — a despeito de não anunciá-lo — o status de biografia oficial, dado o seu tamanho, volume de informações e caráter celebratório de uma celebridade recém-falecida. Sabemos que as biografias têm um público específico; que elas poucas vezes interessam a outras pessoas que não aos fãs, aos previamente aclimatados à pessoa retratada. Com “Ennio, o Maestro” não é diferente: para aqueles interessados na personagem, pouco importará — e não há problema algum nisso — o fato de o filme parecer pobre e formalmente inepto. Importará apenas o seguinte: como homenagem, como coleção de memórias acerca de um homem, este é um trabalho, como dizemos ali em cima, perfeitamente competente.

2. Analisamos o valor do filme para aqueles que possuem nele um interesse particular (ou seja, aqueles que já conhecem o compositor e desejam exatamente aquilo que o filme propõe fazer: revisar os grandes momentos de sua carreira). Aqui, porém, o texto começa a se colocar em divergência com estes, pois a atividade crítica exige do autor que ele analise o filme em si, despindo-se desses interesses particulares. Em outras palavras: apesar do filme abordar assuntos que todos nós certamente consideramos agradáveis (como não apreciar várias das composições de Morricone?), onde está o valor de “Ennio, o Maestro”? Em verdade, custamos a encontrá-lo. Apesar da grande quantidade (e qualidade) das informações reunidas por Tornatore e sua equipe, a forma como elas estão organizadas no filme deixa a desejar. O ritmo absolutamente frenético com que a narrativa se move, por exemplo, é um grande problema: com a vontade de tudo contar, o filme espreme um enorme volume de material num curto intervalo de tempo. O resultado é uma experiência tão densa que torna-se quase claustrofóbica: os 156 minutos de “Ennio, o Maestro” praticamente não têm modulações, pausas, silêncios (lembremos do próprio Morricone falando da importância das pausas em suas composições). As próprias músicas só são executadas, na grande maioria das vezes, na medida em que servem para exemplificar aquilo que alguma personagem acabou de dizer; um ou dois compassos é o suficiente, aparentemente. Cada pedaço da narrativa é percorrido tal qual um item numa gigante checklist, impacientemente e sem a devida atenção. Vale retomar a analogia do parágrafo anterior — um filme é um filme, não um artigo da Wikipédia — para concluir que é uma pena que a série de eventos retratada em “Ennio, o Maestro” tenha o seu impacto diminuído graças à abordagem protocolar e frenética de Tornatore, que parece estar contaminado com as piores tendências de edição do audiovisual contemporâneo (saturação de informações, supressão dos silêncios…). O filme mostra muito pouco (no sentido de dar algo ao espectador na sua totalidade; dar-lhe a oportunidade de descobrir e redescobrir as músicas; dar-lhe, enfim, alguma experiência que não seja constantemente interrompida pela montagem ou pelos comentários redundantes de terceiros…) e referencia muito (no sentido de mostrar o mínimo, apenas o necessário, confiando que o espectador reconhecerá aquela coisa e a completará em sua mente: para que tocar a música toda se o princípio da melodia já basta?). O lema de “Ennio, o Maestro”, portanto, não pode ser outro que “para o bom entendedor, meia palavra basta”: este é um filme feito para os “bons entendedores”, os fãs, os predispostos a amar aquelas coisas e aquelas músicas às quais ele faz referência. Mas se o seu filme é um filme feito apenas para os fãs, para aqueles com um interesse particular na obra de seu personagem principal, e se o prazer que derivamos dele reside exclusivamente no ato de reconhecer coisas que já conhecíamos previamente, então ele não é mais digno de respaldo crítico que qualquer um dos enlatados Marvel que saem aos montes por aí.

Frente a esta bifurcação, tomo o segundo caminho. E você?

1 Nota do Crítico 5 1

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