Em Guerra

Resignação ou ação, eis a questão!

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2018

Exibido na mostra competitiva oficial do Festival de Cannes 2018, “Em Guerra”, novo filme do realizador Stéphane Brizé (de “O Valor de Um Homem“, “Mademoiselle Chambon“), conduz o público à sensação de filme catarse (como por exemplo, podemos referenciar mais “120 Batimentos Por Minuto”, de Robin Campillo, que a fábula portuguesa de “A Fábrica de Nada”, de Pedro Pinho), que se desenvolve pela imersão da câmera na mão (quase mosca), sempre em ação e muito próxima (quase super-close) às personagens, criando intimidade direta e cúmplice da carência urgente da luta política. Da revolução do proletariado contra o “mercado pesado” de patrões embasados no desigual sistema dos direitos trabalhistas.

“Em Guerra” traz o protagonismo falido da lógica empresarial, que não funciona mais como modelo fordista, interpretado aqui pelo ator Vincent Lindon, à moda da estrutura cinematográfica dos Irmãos Dardenne, e/ou “Os Ferroviários”, de Ken Loach. Sua narrativa, que indica caminho preterido ao dramaturgo Bertolt Brecht, recria situações e reviravoltas por discursos protestantes, enérgicos e, muitas das vezes, agressivos. De seu líder sindicalista que, calmo, tenta manter sua equipe unida e “integral” para assim conseguir as condições exigidas nas reuniões emergenciais.

O longa-metragem é sobre a proteção constitucional e democrática. É orgânico e sinestésico quando estuda casos, argumentos, estratégias e necessidades. Questiona-se não o egoísmo da não solidariedade e da avareza, mas a sobrevivência, o grande vilão que gera o medo de perder o dinheiro e consequentemente o fantasma da miséria. É sobre a responsabilidade moral do Governo, obrigado a fornecer dignidade a todos os indivíduos sociais.

“Em Guerra”, ultra-naturalista, orgânico e espontâneo (com estrutura de documentário), arquiteta-se por embates, debates, discussões, tréplicas e conflitos; matérias de televisão; intervenções governamentais “contra-produtivas no dia-a-dia”, assim como da confederação industrial; e repreensão-confronto da polícia (que, sem “postura”, “invade”, “usa a força contra o povo” e “estimula a raiva-revidada”). O filme é um exercício de verborragia ininterrupta. E quando o descanso deles e o silêncio se faz presente, nós respiramos e podemos balancear nosso cérebro. A decisão muda todo o contexto. O que poderia ser evitado, agora é alimentado pela revolta passional.

O filme também estuda a legalidade do direito da greve, que, na prática e no momento mais intenso, não está “disponível”. E as propostas, que “não são resolvidas há dois anos”, ganham “gavetas” e nunca o “final feliz”. Assim, verdades são deferidas e ofensas recebidas no calor da emoção. É também uma metáfora do silêncio e de que nada adiantará (“eles não dão a mínima”), vide a passagem temporal com o acorde de uma música, e os próprios conflitos entre eles, que deixam a luta mais morna por medo de “desrespeito a Justiça”. A vitória só saíra se estiverem juntos. Se disserem “Pare as máquinas!” juntos. Mas o filme mostra que não há mais união como antigamente. Ou talvez nunca tenha tido, se analisarmos o comportamento egocêntrico de cada um de nós. Sozinhos, “não são nada”.

“Em Guerra” lembra a inversão da fábula “Ensaio sobre a Lucidez”, do português José Saramago. Se na literatura, as personagens mantêm a decisão, aqui, em beat acelerado, interesses divergentes aparecem temerosos ao não-conseguir os benefícios e/ou um novo trabalho. Entre leis franceses e alemãs, o longa-metragem cria seu realismo a mercado não utópico de “viver regras de outro mundo” e analisa a personalidade comportamental de seus “arruaceiros” (palavra mantida e cunhada pelos líderes industriais) não apaziguadores.

A revolta gera violência que gera alimentação de mais violência, com xingamentos e brigas por fanáticos (quase “”Hooligans”). Espera-se a decisão final à moda de “Dogville”, de Lars von Trier. E quando menos se espera, o caos atinge níveis indomesticáveis de razão perdida e ódio gratuito. “Em Guerra” nos ensina que o mundo é dos “grandes”, que direitos reais e constitucionais não são válidos se atrapalharem os “poderosos” e que nossa emoção sempre nos trairá se estivermos lidando com interesses próprios. O filme concluí com uma pergunta retórica: Como agir caso este caso aconteça? Aceitar as regras desproporcionais e injustas dos patrões e fornecer a “outra face”? Ou lutar até o fim ainda que a derrota seja inevitável? Não há respostas objetivas. Cada um sabe a necessidade diária que lhe convém.

 

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