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Eles Não Usam Black-Tie

Obrigada, Guarnieri

Por Giulia Dela Pace

Festival de Veneza 1981

Eles Não Usam Black-Tie

Durante o Ensino Fundamental e Médio eu descobri o teatro. Escrevia e dirigia peças da escola. No segundo ano do Ensino Médio o Cristiano, então professor de sociologia, apresenta para a turma “Eles Não Usam Black-Tie”, longa carinhosamente dirigido por Leon Hirszman baseado na peça homônima de Gianfrancesco Guarnieri. E ninguém ali usava mesmo, já que em sua grande parte eram Marias e Chiquinhos. Todos filhos de Jurandirs, domésticas, porteiros, Otávios, Romanas e eletricistas, como era o meu caso. “Nóis não usava os black e tais”. Então o filme me perfurou e ainda o faz toda vez que revejo, especialmente porque no mesmo ano, na aula de química, outro professor falou “Os elétrons são vocês em suas classes sociais, vocês podem até sair momentaneamente por uma descarga de energia, mas sempre voltam pro mesmo buraco onde ainda estão os seus”.

E o som de cada feijãozinho atirado na tigela por Romana (Fernanda Montenegro) furou como faca: pobre não pode parar nunca, nem pra chorar pela morte de um amigo muito querido. Tem que continuar trabalhando, mas quando se tem ajuda a tigela enche mais rápido e todo mundo pode comer antes. Mas Otávio (Gianfrancesco Guarnieri) não ajuda Romana para comer mais cedo, faz porque a ama, faz porque a respeita e faz porque entende qual o lugar deles e como sempre puderam lutar juntos pela classe e pela família. Nenhum dos personagens deixa de se amar, porque é só o amor que move cada um deles diariamente. O amor aqui não é o ordinário e polido por uma estética fantasiosa estadunidense de jovem casal, como aparenta por um breve momento no começo do filme com Tião (Carlos Alberto Riccelli) e Maria (Bete Mendes) na cidade. Mas ele aparece quando Tião e Maria pegam chuva e sujam os pés na terra do morro na volta para casa: é o apoio que um dá ao outro companheiro diariamente e em tempos ruins. É Romana acordando antes e dormindo depois de todos, é Otávio organizando a classe e a greve, é Jurandir adotando Bié mesmo que não tenha comida para manter a família que já estava lá.

“Eles Não Usam Black-Tie” é, sobretudo, uma história de amor na sua forma mais pura e bonita. É desses filmes minuciosamente afáveis que não precisam de fórmulas de jornada do herói ou de exposição de cada evento, mas detalhes singelos para falar muito com pouco. É dessas obras de chorar soluçando, de rir boba com cenas carinhosas, de sentir uma raiva sangrenta com a injustiça, de engasgar com o silêncio lancinante das incertezas e responsabilidades do futuro. Nada disso aconteceria sem os personagens universais das periferias paulistas – e se arrisco dizer brasileiras –, sem Gianfrancesco Guarnieri e sua consciência de classe, sem Fernanda Montenegro e seu talento inenarrável e sem a atemporalidade da história cíclica da vida operária brasileira.

É em 1981, 23 anos depois da peça do Teatro de Arena, que o longa de derivações do Cinema Novo e de roteiro adaptado por Leon Hirszman e Guarnieri estreia: com a Ditadura Militar de pé na cova e a extinção do AI-5 poucos anos antes. Um cenário de certas expectativas, mas repleto de incertezas. E é assim que a adaptação da peça de 1958 aparece: como um contraste entre ideias atemporais da classe operária que resistiu durante a era ditatorial e uma premonição, com seu rompimento caótico, de um egoísmo meritocrático da pré-democracia.

O longa, além de ser o retrato da situação da época, conta com certos elementos do Cinema Novo, – movimento cinematográfico que teve como um dos fundadores Hirszman – mas de forma mais sensível e sem recursos coléricos de diálogos, fotografia e montagem. Essa aventura político-idealista é sóbria. “Nóis Não Usa os Black e Tais” seria um nome mais apropriado para a estética do filme, pois as palavras, as cenas, os momentos, os pormenores e atuação tudo no seu momento certo para falar além do que é explicitado. Como é o caso das perseguições e abordagens abusivas da polícia no morro, não é o elemento central da obra, muito menos uma visão recorrente, mas uma memória e passado que ainda assombra cada um dos indivíduos naquela história.

Ainda há um segundo caso secundário muitíssimo singelo no trabalho de Guarnieri e Leon Hirszman: Chiquinho e Tesinha, dois personagens adolescentes que são mantidos pelas famílias para estudar, porém por mais que trabalhem como tarefa secundária ainda desempenham tarefas mais “leves”. Chiquinho, por exemplo, trabalha em um escritório na cidade e Tesinha ajuda nos serviços de sua casa e da casa de Romana. Ambos os personagens são estranhos e a atuação destoa dos demais, pois eles são inocentes e um pouco infantilizados por ainda não estarem completamente afetados pelas inquietações que levam ao estopim da narrativa – a greve – e aflições de suas famílias que viveram a ditadura no seu ápice.

Mas o personagem que mais destoa da família e ao mesmo tempo não é Tião – interpretado originalmente na peça por Gianfrancesco Guarnieri –, a figura central que causa os desarranjos do ambiente. Uma criança perdida em posição fetal no fundo do quintal repetindo “Não foi por covardia”, Tião sabe que errou e sente culpa, mas é vaidoso demais para deixar de acreditar no discurso que venderam a ele na casa dos padrinhos – onde foi morar enquanto Otávio, seu pai, esteve preso. “Quem muda de casa muda as ideia”, como diz Seu Otávio, mas Tião não só mudou de casa, mudou de classe social por um tempo, mudou de ambiente, mudou para a cidade onde é mais fácil ter contato com ideais meritocráticas que iludem a classe operária. Todos os personagens têm grande senso de responsabilidade um sobre o outro, e todos muito “honrados” em trabalhar para sustentar a família e fazer aquilo que é “certo”, alguns mais exaltados como o italiano Santini (Francisco Milani), alguns pilantras sem consciência de coletivo como Jesuíno (Anselmo Vasconcelos) e Tião, essa peça desconectada de sua própria realidade, como um elétron perdido que não consegue se encaixar nem entre o seu ideal de vida e nem entre o que é.

Ademais, a peça “Eles Não Usam Black-Tie” foi uma revolução para o teatro nacional, que sempre tratavam de peças sobre a burguesia engessada de terninhos – uma realidade inteiramente afastada da brasileira. E assim tem também importância a sua adaptação para o cinema, pois além de deixar um registro atemporal de mídia que pode ser revisto por gerações com o impecável trabalho de Hirszman é necessário para revisitar e compreender parte do contexto histórico de sua aparição.

Marcante, acrônico, afetuoso e necessário. Uma quebra com a ideia de fazer política somente entre políticos e classe dominante, mas uma lembrança constante de que a política e a democracia são ações do povo e o povo é Otávio, Bráulio e Romana. Amar a causa e amar seus companheiros e companheiras. O longa é uma lembrança de que é preciso ter consciência pelo que se luta, se não é causa perdida, como acontece com a greve: sem ordem, ódio direcionado do povo ao povo e não ao verdadeiro inimigo. É ali, com a periferia, que se pode ver que esse vilão não é Tião ou os grevistas, mas as empresas, os grandes ricaços. Quem vende uma fantasia enfeitada para quem não tem coragem o suficiente, para aqueles que estão perdidos.

“É preferível passar fome entre amigos do que passar fome entre os estranhos.”  – Romana.

5 Nota do Crítico 5 1

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