Glauber Rocha, Cinema Novo e uma proposta de Brasil

Da Matéria à Forma

Por Vitor Velloso

“O problema internacional da AL (América Latina) é ainda um caso de mudança de colonizadores, sendo que uma libertação possível estará sempre em função de uma nova dependência. Este condicionamento econômico e político nos levou ao raquitismo filosófico e à impotência, que, às vezes inconsciente, às vezes não, geram no primeiro caso a esterilidade e no segundo a histeria. [… ] Assim. somente uma cultura da fome, minando suas próprias estruturas, pode superar-se qualitativamente: e a mais nobre manifestação cultural da fome é a violência. […] somente conscientizando sua possibilidade única, a violência, o colonizador pode compreender, pelo horror, a força da cultura que ele explora. Enquanto não ergue as armas, o colonizado é um escravo; foi preciso um primeiro policial morto para que o francês percebesse um argelino.” – Estétyka da Fome. Glauber Rocha.

O raquitismo denunciado aqui por Glauber nos trouxe à situação política do Brasil contemporâneo. Por vezes, recebemos as falas anti dialéticas que promove um discurso sobre a “didática da violência”, recentemente proferida de maneira tacanha na defesa do “carcará desidratado”, como já explicou André Queiroz em brilhante texto sobre “Bacurau” (2019). A fala inflamada, invocatória da memória de Glauber, era acompanhada por um cinismo virulento, uma verborragia canhestra que tentava dar luz à uma comparação da obra de Glauber com o tímido pássaro noturno.

Bradar as palavras do cineasta baiano, neste Brasil que lhe matou, possui um efeito imediato, em todos os campos. Podemos inclusive lembrar do gesto violento do ocupante da cadeira no Planalto, que dá as costas à homenagem ao Glauber, no Aeroporto que recebeu seu nome, em Vitória da Conquista, sua cidade natal. No mesmo episódio, a frase “Somos todos Paraíbas”.

Então, debater Glauber Rocha no Brasil contemporâneo, é inevitável. Não apenas por sua Revolução na “estétyka” cinematográfica, mas por sua relevância no âmbito cultural, político e social. Ao lado de Glauber, Nildo Ouriques, diretor do IELA, Instituto de Estudos Latino Americanos, clama pelo fim do raquitismo intelectual brasileiro, pois esta mesma miséria, nos levou ao abismo que nos encontramos. A falta do debate em torno do subdesenvolvimento, do terceiro mundo, do precário e da “dependência” (Theotônio), nos remete diretamente ao discurso de síntese dialética, profético, de Glauber, “O terceiro mundo é a base da pirâmide”. E a preguiça ou o mau-caratismo da falta de brio no debate sistemático sobre a América Latina e o Brasil, faz com que falar de Glauber, em 2020, nos traga à tona a cara questão do materialismo, da fragilidade econômica e do subdesenvolvimento. Síntese do subdesenvolvimento é a fome, a pobreza, a miséria. Não um fulgor de quinta que evoca à esmo os ídolos caídos desta política brasileira fracassada.

Glauber, ao lado de Darcy Ribeiro, buscou a Revolução Cultural, nas bases, na educação, na econômica, na cultura, deu a vida por isso. O cineasta não filmou o Cristo do terceiro mundo, pois interpretou o mesmo, a “doença romântica” o levou antes dos milicos. Mal descabido entre os poetas e intelectuais. A doença branca pode usar farda.

Recentemente, o curso “Glauber Rocha, Cinema Novo e uma proposta de Brasil” tentou abordar todas essas faces do cineasta, em suas obras, textos e entrevistas. A “Lume Store” abriu a oportunidade de sediar o curso, e graças à eles, uma troca imediata a partir das aulas, se iniciou. Algumas pesquisas apresentadas, desde uma historiografia do cinema brasileiro à relação Fanon x Glauber, que Ismail debate em “Sertão Mar”, nos mostra que a dialética da relação da cultura com o momento político de seu tempo, possui raízes fortes com a História. Assim, a sistematização de um estudo sobre essa questão materialista que está presente de maneira explícita em “Eztétyka da Fome”, deve ser retomada com força total, a partir de uma revisão crítica. O livro “Revisão Crítica do Cinema Brasileiro” não possui esse nome por mera coincidência.

O burguesia brasileira promove a projeção da realidade à sua maneira, alguns vão em defesa dessa visão, parafraseiam Glauber e criam relações de consciência, não da realidade, da materialidade. E era isso que o mesmo temia, uma miséria, tacanha, medíocre, da intelectualidade brasileira, que reverencia o imperialismo como a nova façanha civilizatória, progressista.

O melhor convite que posso fazer, após a realização do curso e dos debates ali proporcionados, é que o IELA está promovendo um curso absolutamente essencial para o pensamento crítico, “O que ler para entender a América Latina”, com Nildo Ouriques, é a expansão dos assuntos de “Glauber Rocha, Cinema Novo e uma proposta de Brasil”, não podemos ceder a mediocridade, a ojeriza à mesma é o único caminho.

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