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Elementos

Respire e mantenha a conexão

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2023

Elementos

Talvez nós espectadores podemos usar a mesma máxima falada dos filmes de Woody Allen: “até o mais fraco é muito bom” para as obras da Pixar. Se o nível das análises psicanalistas do cineasta americano vem do humor subjetivo e idiossincrático, então as animações querem atingir nossas memórias afetivas mais universais pelo tom sensorial das cores, despertando assim sinapses emocionais, cuja cada uma representa um elemento neurocientista. Em “Elementos”, filme de encerramento exibido no Festival de Cannes 2023, imprime-se um autêntico virtuosismo visual, mas não com preciosismo. Os traços fluídos e a luminosidade intrínseca conferem vida a personagens compostos por água, fogo, terra e ar, oferecendo uma experiência estética única. Os detalhes minuciosos nas texturas e nas expressões faciais, aliados a uma paleta de cores nos transportam a um reino mágico que transcende a tela. 

A trama de “Elementos” é metafórica, visto que explora temas existenciais e questões filosóficas de forma perspicaz, sutil e com propósito divertido, porque há também a necessidade em se conectar com a atmosfera popular-coloquial do público. A jornada da protagonista, que busca encontrar seu lugar no mundo e compreender sua própria identidade, é um convite para uma reflexão sobre a condição humana, pela personificação do abstrato. Transformar fantasia em realidade. Os diálogos evocam um clima de exposição, contemplação e introspecção. O roteiro, de John HobergKat Likkel, subverte as expectativas narrativas tradicionais, oferecendo à audiência uma experiência, por mais que este filme soe um pouco mais convencional. Um pouco menos aprofundado. Digamos que até apressado e afoito em “apagar incêndios”. Pois é, não há como conseguir os cem por cento sempre, não é? 

A trilha sonora, por exemplo, complementa-se como uma sinfonia que ecoa em harmonia com as imagens. Cada elemento possui sua própria melodia distintiva, criando uma atmosfera sonora rica e evocativa. A combinação de instrumentos tradicionais com sons eletrônicos gera uma imersão sensorial, amplificando ainda mais o impacto emocional e nossa imaginação pela habilidade humana desses animadores em transformar a matéria em arte. Dirigido por Peter Sohn (de “O Bom Dinossauro”), “Elementos” tenta captar a essência primordial desses elementos, que foram separados, porque não conseguem se misturar. O fogo, por exemplo, é um perigo para a água. Mas talvez a questão mais importante que o  longa-metragem traga transcende a própria diversidade social quando apresenta a problematização da imigração. Em uma das cenas iniciais, uma família bola de fogo muda-se de sua origem a um novo mundo (a metáfora da América). Lá, na fronteira, uma funcionária não entende os nomes deles, então a sugestão “mais fácil” foi mudar para “nomes normais”. 

Dessa vez, a Pixar usa a ciência moderna a suas substâncias, que adotam diferentes estados da matéria, gerando fricções e descobertas entre esses elementos. Na natureza, a terra é estado físico sólido; o ar, gasoso; e a água e o fogo, respectivamente, são líquido e plasma. A protagonista Faísca vive em completa harmonia numa sociedade extraordinária chamada Cidade Elemento, com seus pais, mas sofre com seu instável temperamento forte, quente, na verdade, precisando parar e sentir o oxigênio: “respire e mantenha a conexão” (contra o medo, ansiedade, pânico). Seu pai está cansado e quer um substituto no trabalho. Só que Faísca quer experimentar a vida. É aí que a aventura começa quando sente o amor pela água, Gota, emocionalmente sensível e chorão. 

“Elementos” pode não ser tão aprofundado quanto “Divertida Mente”, por exemplo, mas sua maestria está em não desistir e entregar os pontos. Muito talvez pela necessidade que o roteiro tem de explicar o passado, com trilha sonora de uma batida new age sentimental com elementos africanos. Tudo aqui é sobre amizade, sobre aceitar as diferenças (aquelas manias que caracterizam a unicidade de um ser humano), a de descobrir a força interna para lutar (e sobreviver), e, acima de tudo, não desapontar quem nós amamos (estes que nos obrigam a sacrifícios e fardos). Lógico que o filme tem seus momentos afiados. Em outra cena, Gota, a água, diz para Faísca quando a toca: “Nossa, você é tão quente”. E depois cria um arco-íris para ela. Sim, são momentos assim que fazem a Pixar ser a Pixar. 

A cada reviravolta, “Elementos” apresenta mais uma questão social. Liberdade artística versus a convencional tradição familiar, gerando assim mais medos, mais defesas, mais boicotes, mais inseguranças, mais conflitos, mais brigas, mais desistências, mais amarguras. “Nada é impossível quando se quer”, sim, pois é, alguns instantes viram uma versão Xuxa de que “tudo posso” no estilo mais coach auto-ajuda. E assim, com amor, “muda-se a química” (esta relação que lembra muito o casal de uma vampira e um não vampiro em “Hotel Transilvânia”). “Elementos” quer referência a Shakespeare, quer liberdade poética, quer até apelar no final para a trama ficar ainda mais fofa e açucarada, e mesmo assim, nós conseguimos tirar leite de pedra e se emocionar. Como foi dito, não é um dos melhores, mas ninguém perderá seu tempo assistindo a este filme. 

3 Nota do Crítico 5 1

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