Edna

Sem lugar e tempo

Por Vitor Velloso

Durante o Festival É Tudo Verdade 2021

Eryk Rocha não deve provar nada a ninguém. Há anos constrói uma carreira singular que se distancia de qualquer comparação a ser feita, com quem quer que seja. “Edna” seu novo trabalho, não apenas vai nas entranhas do subdesenvolvimento para expôr que o espaço e o tempo no terceiro mundo é uma unidade de sobrevivência. A teimosia da vida e a permanência da memória, uma constante nacional que em cada esquina transa a morte e a vida. 

Edna e a História de sua Vida não é a síntese de Brasil, mas da margem de um imaginário que foi usurpado, atravessado e engolido pelo “progresso neoliberal”. A rodovia carrega a história do que caminha sem destino, entre o desespero e a força de manter-se de pé. Viver é uma provocação. Guerrilhas que se entrelaçam na matéria e na projeção, não é fantástico porque existe fora da imaginação, não é real porque a imaginação é o campo da mise-en-scène em registro constante, gravando o movimento, o caos em luz de consciência material. A definição da experiência que o registro mantém o cinema brasileiro contra os dogmatismos de uma cadência formulada à padronização. Por vezes “Edna” parece um ensaio de sons, ora imagem, a transcriação entre o movimento surge como tutano do corpo ancestral. 

A transgressão é o não-enquadro, a não mimesis, um recorte da disfunção, função limítrofe da tela e da dor. Onde o real se desfaz e resta Brasil. Você morre de Brasil tentando encontrar Brasil. 

Perseguindo o assunto, o filme vai ao registro. É a iconoclastia histórica. Os depoimentos que descrevem os cadáveres e as mortes surgem como ecos da própria matéria. A tradição oral é a contraposição à homologação cultural. “Edna” é o paradoxo de um sorriso e da melancolia, entre a vida e a memória da morte. Nada se desloca, pois tudo se desloca. Dilúvio de transe endoantropofágico, consumação do corpo físico. É a câmera-corpo encontrando os espaços da teimosia em sobreviver na memória e no tempo de lembrança. 

É a (re)invocação de Araguaia e de um trópico que em seu calor, revela as faces da herança imperialista. Ao vermos o conservadorismo ressurgir “ligado à tradição brasileira”, embebido de violência, nos perguntamos onde está o registro e a oralidade para nos salvar da homogeneização. “Edna” vai contra o esquecimento, o estoico e a inconsequência. Caminha ao lado do delírio tendo fé na história. É uma formalização da síntese prorrogada por nossa dependência. Da memória a “transliteração” para o oral, em registro cinematográfico. Como um primitivismo formal, descobrindo seu tato, o filme percorre o quadro e os espaços atrás de sua protagonista. Materializa a imaginação para figurar o subdesenvolvimento nesse campo onde a violência é uma constante que encontra na imaginação, uma forma de resistir. 

O som mergulha no íntimo, se expandindo na resolução das imagens. Em seus vácuos. Suas presenças. Compreender, aqui, é um ato de passividade, escutar é a experiência que traz consigo um norte de “não pertencimento”. As “ideias fora de lugar” é uma necessidade de responder ao processo de ruptura histórica e memorial. O cinema de Eryk caminha nas veredas de um pertencimento suspenso, “fora de lugar”, mas perfeitamente consciente da luta pelo espaço, pela terra. 

Na breve história do Brasil, Edna está presente em uma representação dessa falha, de tudo. É o que entristece, orgulha, por “insistir sobreviver”. Se em termos gerais um professor de outrora, vociferou contra a homologação, situando seu exemplo no folclore, hoje podemos dizer que enquanto a história desta mulher estiver viva, teremos motivo para seguir encontrando Brasil. Raramente choramos duas vezes pelo mesmo motivo. Mas “a guerra não acabou”. 

Divido entre a matéria, o espírito e seu espaço, “Edna” é um retrato do tempo de luz ofuscante. Entre o campo e o atravessar do “progresso” o delírio é permitido para lembrar, mas antes do canto de guerra devemos lembrar que ainda há o medo.

Trailer

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