Dor e Glória | Crítica

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Revisitar o passado liberta o presente

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2019

As cores de Pedro Almodóvar nunca perdem a intensidade. A cada obra, o diretor aumenta a maturidade em lidar com suas questões existencialistas, principalmente de seu passado que o marcou imensamente nas decisões e desamarras do presente, em uma elegância Kitsch de uma arquiteta espanhola Art Nouveau. Seus filmes são essencialmente autobiografias.

Em sua nova obra, “Dor e Glória”, em competição oficial a Palma de Ouro no Festival de Cannes 2019, e já estreia na Espanha há mais de dois meses, representa mais uma viagem a sua infância. O que o espectador precisa entender que assistir Almodóvar não é para traduzir e sim sentir.

O longa-metragem consegue arraigar melodrama com a mais pura das emoções naturalistas. O sentimento é real, pulsante, envolvente, inocente, orgânico, físico, livre, possível e mitigado de tabus e maniqueísmos. É um desejo latente que queima a alma, que altera a patologia. A transformação é uma mutação.

O corpo recebe a energia e a eletricidade para nunca mais se comportar como antes. Isso é o cinema de Almodóvar: passional, surtado e deliciosamente dramático, embalado por um humor de sagacidade ingênua e de verdade absoluta nas palavras. Não há meio termo, tampouco hipocrisias da aparência. Em seus filmes, não há espaço para prolongar sensibilidades, esta que serve apenas para um cúmplice “charminho”. O que se escancara é “língua solta”. “Queria ser um homem para nadar no rio desnuda”, diz-se.

“Dor e Glória” não tem vaidades do existir. É uma confissão. Uma terapia cognitiva de resolver as próprias memórias. Emprega-se uma nostalgia quase teatral, que é entendida no final, entre passado, presente, pão, chocolate, realidade, ficção, projeção e recriação subjetiva de particulares e íntimos momentos, como as músicas cantaroladas e dançadas. Nós sentimos os gostos, texturas e as sutilezas do olhar. “Não se pode viver mais sendo ator, está mais difícil”, lamenta-se, abordando os bastidores do universo dos filmes.

É uma análise de espaços ambientes. Vai e volta. Exatamente como acontece na mente: fragmentos desconexos em portas metafóricas. De questionar crenças e quereres. Nosso protagonista Salvador Mallo (encarnado por Antonio Bandeiras, sim, que agora retorna vivendo o auto-ego de Almodóvar em uma caracterização impecável) caminha por padres, escola de canto, conversão em um solista de coro, geografias e expansões, inferindo ao mundo lúdico neorrealista de Federico Fellini. Será a forma de salvação pelo sacrifício? “Para os pobres, a única forma de estudar é pelo seminário”.

“Dor e Glória” desnuda todas suas patologias. Seus medos, suas contradições. É um filme puramente humano, até porque o pecado está na limitação de quem vê. É também uma experiência. Visual e imersiva. “Para que provar heroína a essa altura?”, pergunta-se. É uma atmosfera resiliente que briga amigavelmente com a impulsiva esperança. É uma “curiosidade”. Tentar degustar o máximo da existência, especialmente o que ainda não se viveu. É a dor, alívio e o descanso de si mesmo, como uma férias do incessante pensar. Salvador é um sonhador, que aceitou sem vergonha a mudança a uma caverna pela queda financeira de seus pais. E a solidão, uma companheira para toda a vida. Com a presença musical da cantora Chavela Vargas.

É também um balaço. De reapresentação para “saber se o filme sobrevive há trinta anos”. “O cinema lembra mijo, jasmim e a brisa das noites de verão”, define-se entre cenas icônicas de filmes clássicos. O protagonista aprende outra coisa: a de priorizar seu tempo. E assim pode organizar tudo e depois não ir, fazendo uma coletiva de imprensa por telefone.

É a personificação do surreal em um tempo misterioso de “ritmo letal”. É dinâmico por mostrar também que o mundo mudou. Que está mais vazio, que a violência gratuita aumentou. E que “os atores sempre acham qualquer propósito para chorar”. Que a luta política ficou mais radical. “Sem filmar, minha vida não tem sentido”, decreta urgente em suas emoções, conduzindo pelo limite tênue de evitar o sentimentalismo. E consegue. A cadência é mantida do início ao fim. “Filmar é um trabalho físico e por favor não faça cara de narrador”, uma de suas tiradas espirituosas.

“Dor e Glória” é acima de tudo um filme de amor “que não é suficiente para saber q pessoa que quer”. “É a aventura do amor que fica”. Do medo de “falhar” com a mãe “por ser como é”. Reverbera-se desejos, estímulos e uma “lavagem de roupa suja” para se libertar de uma vez por todas as angústias guardadas. É delicado e nem um pouco clichê. É sobre o primeiro desejo, tanto que este é o nome da produtora de Almodóvar. Sim, o desejo reina majestosamente e de completa autonomia. “Drama ou comédia? Isso não se sabe”, finaliza-se.

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