Dois Tempos

Entre os espaços

Por Vitor Velloso

Durante o Festival É Tudo Verdade 2021

“Dois tempos” de Pablo Francischelli é um projeto que trabalha na dicotomia do título, assimilando na própria linguagem uma dicotomia entre a ficção e o documentário. Filmes como este são registros de questões limítrofes de pontos frágeis nas nomenclaturas mais estabelecidas. Categorizar se torna um exercício pouco eficiente diante de uma experiência que se constrói em memórias e tradições, um espaço em constante movimento onde o tempo faz e se desfaz na oralidade.

Uma virtude particular da obra é sua capacidade de atrair o espectador para uma narrativa inicialmente desinteressante. O reencontro dos personagens não gera uma forte expectativa e as transas musicais mais cansam que aproximam. Porém, o longa mergulha nesse encontro como uma possibilidade de ponto basilar novo diante da própria objetiva. Interessa mais essa união e história em conflito que os dois indivíduos em si. Por essa razão, é necessário que o funcionamento de “Dois Tempos” capte a atenção do público, utilizando uma decupagem que vai diminuindo os espaços no campo do documentário e tornando-se um registro, seja ele ficcional ou não. Esses quadros são construídos em torno de seus íntimos e das memórias que vão assumindo uma materialização na tradição. A música entra como um elemento mediador desses espaços sem uma base de encenação e o tempo em constante reconstrução, entre histórias, encontros e notas musicais. 

Caso esse motor não consiga angariar o espectador, o tédio e a sensação de “nada acontecendo” pode ser uma tônica dominante durante todo o processo. Alguns bocejos podem surgir e o abandono da sessão não seria uma surpresa. Contudo, essa suposta inércia presente na narrativa, convoca um olhar mais atento às pequenas parcelas provocadas pela perspectiva da passagem do tempo e da vida em si. É um jogo que funciona, em sua totalidade, nessa partida e na retomada de uma trajetória conjunta. Entre o mestre e o “aprendiz”. A materialidade das histórias e do conhecimento, se sobrepondo e complementando o outro. Por essa razão, a maioria dos planos de “Dois Tempos” encontra seus dois personagens dividindo o quadro, acessando uma estranheza na relação com o “tempo”. O protagonista invisível, dilatando e esgarçando a relação formal direta com o cinema. A montagem entra aqui como elemento fundamental para consolidar uma decupagem que não adentra nenhum campo distinto de seu registro mais momentâneo. 

Por isso, entender onde estão as coisas, não é uma tarefa simples. Muito menos necessária. O que importa é o encontro como motor basilar para a própria feitura do longa, que não se prende em pequenos delírios de encontros estranhos e bem quistos. Em sua clareza de ideias, há um breu de amparos pré-estabelecidos. Com algumas ressalvas de ritmo, o filme de Pablo consegue uma introspecção que apenas expande os horizontes possíveis na forma, mas gera um vácuo no ritmo. Investir os esforços em “Dois Tempos” pode ser recompensador, ou não. São as incertezas que solidificam. Esse paradoxo é a relevância máxima na compreensão da trajetória toda. A única certeza que estamos munidos, é que os dois estão indo para Corrientes. De resto, só as memórias formam o mosaico que formula a cadência do barato todo. E aqui, a tradição aparece como um reflexo cultural e não espasmo temporal, apenas. É uma compreensão multifacetada do materialismo e da memória em uma dialética de pouca ou quase nenhuma resposta, mas um punhado de reflexão e violão à mão. 

Não apenas uma elegia ou crítica imediatista (muito menos a repetição obstante e chatíssima de Caetano), o tempo aqui é esse objeto de reflexão que está ao alcance de ambos, mas caminhando para direções opostas. “Dois Tempos” é convidativo na roda de histórias, porém pouco interessado em fisgar seu espectador na primeira metade. Sua dicotomia, entre os personagens, espaços, tempos, músicas e formas, dão uma característica particular pro seu andamento, mas o progresso pode acabar provocando alguns bocejos.

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