Dente por Dente

Aos olhos e dentes da audiência

Por Fabricio Duque

Há muito o cinema brasileiro deixou de ser considerado apenas um gênero e abarcou formas e narrativas. Essa plural perspectiva permitiu que novos cinemas fossem experimentados, como o de Gênero, instigando as obras mais independentes a existir fora da hegemonia comercial. Contudo, esses filmes não conseguiram se desvencilhar do desejo de criar o mainstream, unindo elementos mais doutrinários e menos artesanais. O mais recente exemplo é o terror psicológico “Dente por Dente” (2020), que mesmo com a indicação de uma atmosfera noir, buscou refúgio na Globo Filmes e Telecine, aceitando a consequência de suas características primárias, uma condução mais palatável e mais didática ao público, e reverberando nas reações e reviravoltas o tom direto-urgente das novelas.

Ainda que este seja uma obra de cinema, nós espectadores percebemos um aprisionamento blasé, cuja liberdade está amarrada na performance da encenação e não no elemento orgânico de sua própria existência. “Dente por Dente” é um filme-audiência de recorte referencial. O público encontra semelhanças com outras obras de gênero de nossa cinematografia, como “Trabalhar Cansa”, de Juliana Rojas e Marco Dutra; “A Sombra do Pai”, de Gabriela Amaral Almeida. Importa-se o sangue e o imagético visceral de uma típica e realista fábula de terror. De ilusão entre sonho e realidade. Aqui, o suspense de possessão cerebral, à moda de “Repulsa ao Sexo”, de Roman Polanski; “Zodíaco”, de David Fincher (vide o nome do hotel); e que encontra o espectral-etéreo de “Os Inquilinos”, de Sérgio Bianchi, também quer amalgamar as desigualdades sociais de moradia (e o desencadeamento das lutas pela ocupação – obrigando a mudança do termo “mendigo” por “pessoa em situação de rua”), a “barbarie sempre da polícia”, e a corrupta e “mafiosa” elite brasileira, que “reboca o podrão”.

Sim, são gêneros dançando ao som do “criolo doido” e o “homem da encruzilhada”, tudo embalado pela narração (frases de efeito superficial) do protagonista (“O sonho é a realidade que está atrás do espelho” e/ou “O que desaparece sempre volta”) e a causal filosofia freudiana  de se ficar sem dormir. “Dente por Dente”, exibido na edição especial online da Mostra Internacional de São Paulo 2020, almeja embasar seu roteiro nessas confusões-quebra de tempo e espaço, altamente cerebral, fragmentando elipses. Sanidade e cognição disfuncional. Sonhos acordados. Perda da realidade. Se é “olho por olho, dente por dente”, então o crítico nestas linhas precisa devolver o que recebe, podendo inclusive ir e vir como câmeras subjetivas que aparecem do nada, apenas como um estético-fetichista instrumento vazio. “Nada fica no passado, nada volta no futuro, tudo é presente”, diz-se. Sim, mais uma prova de que o que temos aqui é um filme casual. Que não quer agregar diálogos, ideias, contextos e até mesmo o puro e simples entretenimento de diversão de massa. Não. Essa facilidade tradutora intensifica-se pelas interpretações forçadas, de silêncios editados e contemplações mais ágeis. O que nos leva a corroborar que a direção é a função mais importante de todas.

“Dente por Dente” é uma superprodução. Música-industrial por ruídos coloquiais (um faroeste perdido em obras, contemporâneo pretendendo ser atemporal – e épico na trilha final) do compositor sul-coreano Mowg (de “Em Chamas”). O cineasta Helder Gomes (de “Cine Holliúdy”) coreografou as cenas de luta. José Alvarenga Jr. (de “10 Segundos Para Vencer”), o Produtor Associado. Deborah Carvalho e Fernanda Ranieri (de “Elis” e “Crime Delicado”) prepararam o elenco. Mesmo com tudo à favor, os diretores, estreantes em longa-metragem, Júlio Taubkin e Pedro Arantes, após o curta-metragem “A Guerra de Arturo” (2009), deixaram correr mais solto uma visão mais ingênua-prática (quase de preguiça urgente facilitadora), mais que permitido no amadurecimento desses “marinheiros de primeira viagem”. Contudo, nós críticos-público sentimos falta de uma imersão ao submundo. “Dente por Dente” ficou demasiadamente como uma novela anti-naturalista,  por mais que a fotografia seja de cinema, como já foi abordado aqui. É o que incomoda: o aprofundamento e não a necessidade de explicar o óbvio.

Peguemos por exemplo o seriado “Servant”, produzida por M. Night Shyamalan, o terror sobrenatural está na sutileza. No menos é mais. A obra passada majoritariamente dentro de uma casa gera um desconforto, causado pela iminência do medo. Assim, em “Dente por Dente”, o espectador fica à deriva, esperando uma indicação-condução. Algum lugar esperado de estímulo à fobia. E nada. O que encontramos é a fórmula do olhar. Da sensação. Ainda que com um elenco de peso,  Juliano Cazarré (personagem principal), Aderbal Freire Filho, Paolla Oliveira, Paulo Tiefenthaler, e até mesmo a eterna “Nazaré” Renata Sorrah. Não.  “Dente por Dente” desaparece e não volta nunca mais.

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