De quem é o Sutiã?

Feitiço de Poucos Encantos

Por Adriano Monteiro

O início da projeção do longa-metragem “De Quem é o Sutiã?”, dirigido pelo alemão Veit Helmer, abre as portas para uma sucessão de planos de mulheres lavando suas roupas íntimas, para logo serem subtraídas pelo acordar de uma cidade pequena. O bucólico é atravessado por, talvez, única inovação técnica do local: a locomotiva. Inerente ao próprio surgimento do cinema, a figura do trem é rodeada pelas imagens emblemáticas de “Chegada de um trem à estação da Ciotat”, dos Irmãos Lumiere à Dziga Vertov em “O Homem com a câmera na mão”. A jornada de maquinista no filme alemão, portanto, não parece ser por acaso, já que faz até uma alusão ao cinema mudo, ao propor um roteiro sem diálogos com performances quase teatrais.

O recurso parece funcionar com o tempo. É possível encontrar uma coerência muito clara entre o que se propõe e o que é de fato: uma sátira engraçada ao conto de fadas “Cinderela“, de Charles Perrault, popularmente conhecido pelas adaptações em animação e posteriormente live-action da Disney. No lugar do sapatinho de cristal há o sutiã azul. Nurlan (Predrag ‘Miki’ Manojlovic), o maquinista, assim como uma máquina, segue uma rotina específica e trajeto próprio. Quando seu trem cruza pela cidade de Baku regularmente, alguns objetos, peças de roupa e brinquedos ficam presos ao trem. O fato move o personagem a devolver a quem pertence. O protagonista segue uma motivação duvidável ao realizar tais feitos.

O ponto de virada em “De Quem é o Sutiã?” acontece quando um sutiã azul é arrancado de um dos varais da cidade. Envolvido por uma moralidade quase religiosa, Nurlan, em primeiro momento, recusa a procurar pela dona da peça. Contudo, movido mais pelo desejo que qualquer outra coisa, segue na sua jornada exaustiva (também para quem assiste). O fato da direção escolher contar essa história sem texto é razoável dada a dedicação de se fazer um cinema, ainda que sonoro, mais arraigado ao poder das imagens e montagem. A linguagem cinematográfica utilizada é capaz de trabalhar muito bem com a sugestão, em contramão a exposição. O “não dito” é fundamental na construção semântica do enredo.

No entanto, por se tratar de uma comédia, é perdoável passar por cima do caricatural de algumas cenas e relações ali envolvidas. Ao explorarem o subtexto, esquecem de lapidar a sutileza. Diálogos parecem ser apenas subtraídos em um exercício mais de obrigação em ser um filme sem palavras do que um filme por si mesmo. A trilha sonora de apenas um piano homenageia o “primeiro cinema” com música acompanhada em projeção. Assim como a composição dos planos e uso das cores se assemelham ao badalado Wes Anderson tanto em “O Grande Hotel Budapeste” quanto ao promissor “The French Dispatch”, a ser lançado daqui a alguns meses.

O que não parece tão justificável, talvez, seja o objeto que o corpo feminino se torna nas mãos do protagonista, algo que pode incomodar alguns olhares. O que gera uma questão curiosa quanto ao tabu do que o sutiã representa e da exposição dos corpos de mulheres aos outros. Há um conservadorismo bastante agarrado àquela comunidade, que perpassa toda a narrativa, como uma recusa a receber até mesmo a máquina do trem, quem dirá um homem atrás de uma mulher que perdeu essa peça. Embora brinque com tais performances de gênero, o longa-metragem, no entanto, propõe acima de tudo uma visão unilateral masculina da relação. E o que motiva de verdade o fio da história permanece uma incógnita tanto para quem assiste como, talvez, para o próprio personagem.

Enquanto Cinderela se mantém coberta por toda inocência de um conto de fadas, “De Quem é o Sutiã?” é um retrato menos otimista e mais devastador quanto ao contexto social de uma cidade interiorana. Não chega a ser uma crítica feroz a nenhum sistema (que bom!), se aproxima melhor de um despretensioso filme açucarado demais quanto as escolhas da direção de arte e roteiro. Como uma locomotiva, segue em infinita reta ao seu destino final. Uma viagem de contemplação, única das distrações que restam em noventa minutos de percurso sem muitas inovações. Apesar de se diferenciar de um conto de fadas tradicional, “De Quem é o Sutiã?” ainda consegue alcançar um final feliz, dada as circunstâncias. Mesmo que o feitiço das imagens, embora não se quebre à meia-noite, ainda seja de pouca durabilidade.

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