Lixos humanos

Por Fabricio Duque


Segundo a terceira lei do físico Isaac Newton, em sua obra Princípios Matemáticos da Filosofia Natural, toda ação gera necessariamente uma reação. Mas na vida real o tempo entre uma força e outra pode variar por impulsos subjetivos e estendidos. Essa talvez seja é a premissa de “Um Elefante Sentado Quieto”, que, em suas quase quatro horas de duração (3h54m), conduz o espectador por um filme sensação.

Nós somos imersos um uma atmosfera depressiva, melancólica e sombria. Há uma latente e apática desesperança. De que o mundo é o pior lugar para se estar. E que o filósofo francês Jean-Paul Sartre estava certo quando disse que “o inferno são os outros”.

Suas personagens seguem a vida esperando a morte chegar. Em uma “cidade demolida”, iguais a espectros de um limbo sensorial. Há, entre eles, um pessimismo retroalimentado, com apenas duas soluções possíveis: a fuga ou o suicídio. Seria coragem ou covardia não mais continuar a viver? Envolto à hostilidade do meio (violência, bullying, o poder do mais forte, a vulnerabilidade medrosa do mais fraco), todos estão no limite de suas tolerâncias. Então, gritos catárticos, labirinto metafórico, acasos facilitadores, ingênuas encenações, sarros sarcásticos, espontaneidade orgânica, ofensas verbais, histerias coletivas e longos silêncios vitimados podem salvá-los, por “confortáveis” instantes, da iminência da loucura. “Alguém me matar seria perfeito” é dito.

“Um Elefante Sentado Quieto” é um filme coral, e que tramas se cruzam. Cada um possui um passado e tragédias próprias. E a história de um elefante sentado em um zoológico o dia todo representa o último resquício de esperança. Busca-se aqui uma melancólica atmosfera, uma viagem a um sombrio, metafísico e cognitivo submundo psicológico. De dentro para fora. Filhos querem internar o pai no asilo. Uma mãe excessivamente realista e cruel tenta ensinar de forma pouco ortodoxa (com verdades que doem) o mundo a sua filha. Outros filhos sofrem com a impaciência implicante de seus pais. Sim, o tema central é a relação familiar. Incompatibilidades, angústias, egoísmos e criações.

Sob o céu escuro de uma pequena cidade no norte da China, o individualismo marca várias histórias paralelas. Wei Bu, um garoto de dezesseis anos, se envolve numa briga na escola, que provoca o acidente de um colega, filho de uma família poderosa. Logo, ele precisa descobrir um meio de fugir. A melhor amiga dele, Huang Ling, está em apuros após o vazamento de um vídeo íntimo envolvendo o vice-diretor da escola. O avô de Wei Bu mora com a filha, mas sofre pressão para abandonar o seu próprio apartamento e se mudar para um asilo, deixando mais espaço aos outros moradores. Yu Cheng dorme com a esposa de seu melhor amigo, mas quando o caso é descoberto, este se joga de uma janela e se mata. À medida que as histórias se cruzam em um único dia, eles ouvem falar da cidade vizinha de Manzhouli, onde haveria um elefante sentado, imóvel, por algum motivo misterioso.

Em “Um Elefante Sentado Quieto”, exibido no Festival de Berlim 2018, todos os dramas -desgraças são potencializados a fim de radicalizar a experiência vivida. O público embarca em um universo autodepreciativo em que a morte é a única solução possível. Pois é, esta foi a decisão de seu diretor estreante (e promissor cineasta, segundo os críticos de cinema) Hu Bo (do curta-metragem “Jing li de ren”), com vinte e nove anos: tirar a própria vida após a conclusão deste filme. Seria esta uma reação revolucionária contra a doente sociedade abordada? Contra uma “vida chata, confusa e miserável” de um “mundo repugnante”?

“Todos podem perder tempo em uma merda sem sentido, outras coisas fazem se sentir ainda pior”, deprecia ainda mais a vida. São um “monte de lixo humano”, que tentam sobreviver por meio de implicâncias cúmplices. É um filme de esperas. De contemplações que objetivam traduzir o cotidiano da vida como ela é, como o eterno embate da inocência versus perspicácia. Ousadia versus passividade. Engolir o choro versus explodir emoções. “Bebezinhos” versus adultos sagazes. A briga é contra a vaidade, a invisibilidade, a maldade, a opressão, “bobagens da classe média”, pessoas “intrometidas” e contra o “lixo que se acumula e é impossível limpar”.

“Um Elefante Sentado Quieto” assemelha-se à técnica cinematográfica dos filmes do filipino Lav Diaz, diretor conhecido por suas obras de longa duração, por estender a ação e por integrar de forma quase amadora a cidade e seu cenário real. É uma obra que questiona nossa existência em um mundo que já morreu, mas “esqueceu de cair”. Ao final, não nos resta dúvidas que este é um pessoal filme protesto. De uma andorinha que revoltada, e inferindo “Yonlu”, de Hique Montanari, e ou a “Dogman”, de Matteo Garrone, resolve mostrar radicalmente ao mundo todo o incômodo de se estar entre sociais. Um longa-metragem que já nasce incômodo e icônico.

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