Crítica: Um Ato de Esperança

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Aborrecido e unidimensional

Por Vitor Velloso


Que a Emma Thompson é um fenômeno, todos sabem. Não à toa a cabine de imprensa estava lotada, apenas para vê-la. Acontece que apesar de sua qualidade, os projetos onde vem trabalhando ultimamente, forçam a amizade. Ainda que esteja bem em todas suas interpretações, é nítido que não possa ir além com um roteiro tão unidimensional ou mal escrito.

“Um ato de Esperança” é dirigido por Richard Eyre e traz Fiona Maye (Emma) como uma juíza que se vê no meio de um julgamento complexo acerca de um garoto de 17 anos e 9 meses Adam (Fionn Whitehead) que se recusa a fazer transfusão de sangue, mesmo tendo leucemia, pois sua religião não permite (testemunha de Jeová). Tudo isso enquanto Fiona atura as aventuras de seu marido, Jack (Stanley Tucci) com uma garota mais jovem. A trama irá acompanhar discussões morais e éticas de outros casos, mas é o de Adam que a narrativa se fixa e irá desenvolver a maior parte de seu drama.

O diretor ele busca um compasso bastante clássico à toda sua construção, ele não ousa em nenhuma virada de roteiro, muito menos formalmente, todo seu jogo é simples e previsível, não à toa até suas fracassadas profundas reflexões acerca desse campo moral e principalmente ético no caso do jovem, não vão longe e cada pensamento parece ser dito em voz alta para explicitar a todos que estão na sala de aula tudo aquilo que irá acontecer, talvez como um alerta para possíveis emoções dos desprevenidos. E tudo isso acompanhado por uma música maniqueísta que acompanha a maior parte da projeção, com o volume indo lá em cima em momentos dramáticos, ou com construção de “valor” (algo típico dos europeus) e grandiosidade da personalidade de determinado personagem. Essa postura de tentar o tempo inteiro convencer o público que há uma superioridade em tudo aquilo que se vê projetado, não como maior filme, mas uma determinada potência de interpretação, de força de caráter mesmo, soa tão infantilóide quanto todos aqueles filmes que estamos acostumados a ver, vindos de Hollywood, geralmente com Sandra Bullock, que lotam as sessões e arrancam umas lágrimas aqui e acolá.

A montagem segue a cartilha dos arquétipos de dramalhão contemporâneo, são planos de média duração que não está preocupado com os saltos de composição e encenação, apenas contar a história é o importante. Curiosamente esse empenho em contar sua história, o faz escravo do roteiro que opta por algumas saídas fáceis de seus problemas. As resoluções de determinados impasses dentro da história, são consumidos com uma avidez mortal por uma necessidade de caminhar com a narrativa. A sutileza que se espera de um porte dramático como este, com um elenco de peso à seu favor, é deixada para trás, dando lugar à mediocridade de um produto que parece ter sido mirado ao vídeo on demand. E toda essa fragilidade na forma, cria sérios sulcos no texto, já que não há rompimento das etapas de produção, assim a própria Emma perde seu brilho. Não é que esteja mal, mas seu esforço em tirar leite de pedra não dá tão certo, porque a traição (enquanto transcrição da literatura ao cinema) estética e construtiva do texto original do escritor Ian McEwan, não foi repensada ao novo meio onde seria projetado. E na história do cinema já vimos diversos casos de roteiro que não conseguiam solucionar as próprias problemáticas pois não compreendiam a dimensão daquilo que havia de frente de si. Não é juízo de valor de uma arte à outra, mas as diferenças entre elas deve ser respeitada, ou minimamente desafiada, o que Drácula de Bram Stoker (1992) de Coppola fez, no caso da literatura, ou no caso dos quadrinhos com “Homem-Aranha: Aranhaverso”. Onde não há necessariamente o contorno narrativo como solução, mas uma reflexão direta que irá pôr em xeque certos limites entre os dois meios.

As situações onde Fiona é colocada são interessantes e poderiam gerar debates produtivos acerca das questões éticas e morais, além da lei intervindo diretamente em um assunto religioso. Claro que opinião cada um tem, mas nunca é tão simples de decidir firmemente, quando a fé está envolvida. A história construída a partir dos protagonistas, Adam e Fiona, é bastante burocrática e com um lento ritmo que chega exatamente onde todos esperavam, assim como o filme inteiro. E esta é a síntese de “Um ato de esperança” um produto genérico que se acha mais interessante do que é, unidimensional e que sabota o maior trunfo que possui, Emma.

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