Crítica: Três Faces

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Um road movie de Jafar Panahi

Por Pedro Guedes


A carreira de Jafar Panahi é, no mínimo, admirável: consolidando-se como um dos principais nomes do Cinema iraniano, o cineasta (que, vale lembrar, dirigiu “O Balão Branco” a partir do roteiro de Abbas Kiarostami) sempre encontra maneiras inusitadas, mas eficientes de usar a estrutura de um documentário para refletir sua própria vivência e, claro, sua postura diante de várias questões sociais e culturais do Irã. Não é à toa que, após ser condenado por “propagandear contra o governo (leia-se: regime) iraniano” e proibido de rodar qualquer outro filme, Panahi, ainda em prisão domiciliar, resolveu filmar um monte de imagens aleatórias com seu celular e montar um recorte que mostrasse apenas sua rotina – e o resultado desta empreitada foi o intrigante “Isto Não é um Filme” (aliás, o título é bem revelador, não é?).

Assim, é um alívio constatar que, depois do ótimo “Taxi Teerã” (que consiste basicamente em uma câmera posicionada dentro de um táxi, registrando uma série de depoimentos peculiares feitos pelos passageiros), Panahi mantém sua boa forma com este “Três Faces”, que, como a maioria dos trabalhos anteriores do diretor, se concentra em uma situação particular para escancarar, através disso, um monte de questões diretamente ligadas à sociedade e à cultura iranianas.

Exibido no Festival de Cannes sem que pudesse contar com a presença de Panahi, “Três Faces” não chega a ser um documentário, já que narra uma história cujas etapas foram previamente pensadas, ensaiadas e encenadas – o que não impede o diretor e a protagonista de interpretarem… bem, eles mesmos. Desta forma, o filme acompanha o próprio Jafar Panahi e a atriz Behnaz Jafari, que, após assistirem a um vídeo perturbador feito pela jovem aspirante Marziyeh, resolvem sair viajando pelo interior do Irã em busca da garota. Na jornada, os dois presenciam diversas situações que expõem a cultura dos moradores, o fundamentalismo religioso e a constante misoginia.

A partir daí, as intenções de “Três Faces” começam a se tornar claras: protagonizado por uma atriz que já sofreu muito por ter escolhido essa carreira, o filme expõe o preconceito de boa parte da sociedade iraniana diante da cultura e da Arte em geral – e o vídeo vertical que abre a projeção (e que termina de maneira chocante) traz Marziyeh falando sobre a intolerância que sofreu por parte de sua família, que considera a escolha da jovem (trabalhar com Cinema) um ato desonroso e vergonhoso. Além disso, as mulheres que surgem ao longo da narrativa estão sempre sendo subjugadas, reprimidas e massacradas por qualquer escolha que possam tomar por conta própria, o que determina o tanto de misoginia que ainda existe naquela cultura – o que não quer dizer, no entanto, que o filme em si seja misógino, pois o que Panahi faz nada mais é do que mostrar uma realidade.

Adotando a estrutura de um road movie sem permitir que isto anule as preferências formais e estilísticas que Jafar Panahi sempre costuma empregar em suas obras (o ritmo lento e contemplativo; a ausência de trilha musical; os planos longuíssimos; etc), “Três Faces” se sai particularmente bem ao testar os limites da encenação e ao aproximar-se da própria realidade, já que inclui diversos elementos verossímeis e realistas demais para pertencerem à ficção – e além de batizar os dois protagonistas com os nomes dos atores que os interpretam, o longa ainda traz diversas pessoas comuns, que não estão acostumadas a atuar, para aparecerem em momentos-chave da narrativa. Além disso, é admirável que a identidade visual do filme consiga soar “suja”, “crua” e “realista”, mas mesmo assim impressione em sua composição (o segundo plano do filme, por exemplo, se passa dentro de um carro e deve durar uns dez minutos, começando com o rosto de Behnaz Jafari e terminando com panorâmicas mostrando a parte interna e externa do veículo).

Eficiente também ao expor o fundamentalismo religioso que se ganhou força com o regime teocrático que se instalou no Irã (em diversos instantes, os personagens recebem ordens para que não falem determinadas coisas e se comuniquem apenas em turco), “Três Faces” ainda consegue adicionar pequenos toques de bom humor no meio da narrativa sem que isto comprometa a atmosfera sóbria, contemplativa e pesada que é preservada do início ao fim. Em outras palavras: trata-se de mais um belo trabalho de Jafar Panahi.

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