O Colar de Coralina

Por Vitor Velloso

Prato prato meu

Por Vitor Velloso


A proposta infanto juvenil no cinema brasileiro ainda está em gestação, por não haver uma tradição sólida nessa ideia, as narrativas do gênero acabam tornando-se infantis, o que gera um problema grave quanto à estrutura fílmica, simples, se o público-alvo era X, tornar-se Y por tabela, mas ainda assim, gera uma falta de tom que o diálogo com qualquer uma das faixas etárias será defasado e condenado ao fracasso. A injustiça deste caso é agredir moralmente os realizadores e o Brasil, de uma incompetência em retratar determinadas vertentes cinematográficas. Basta olhar os comentários do trailer do filme para perceber como os ataques ao projeto são de natureza política, moral, cultural, mas sempre gratuita. Infelizmente o cenário moralista/político intensificou uma concepção de decadência nacional, quando no fim, o discurso agressivo contra qualquer manifestação artística que propõe uma ideia não política ou partidária, é o auge da decadência pessoal.

Dirigido por Reginaldo Gontijo, “Colar de Coralina”, parte de um desejo comum no cinema, tratar de uma liricidade e uma frente poética de pensamento, a fim de encarnar uma lucidez narrativa às crianças e adolescentes. Montando o arcabouço imaginário da geração e flertando com anseios adultos, para gerar essa correlação anacrônica com o ser humano. A dificuldade está em compreender a conciliação entre as influências literárias, cinematográficas ou mesmo televisivas. As maneiras de enxergar a realidade e a magia por trás de determinadas coisas mudou muito nos últimos anos, não por culpa dos jovens, mas por uma influência massiva e tóxica de redes sociais, TV e Jornal, devemos nos referir às notícias também, pois, por motivos diversos, incluindo a reestruturação do patriarcado patriótico, que se disfarça atrás do rosto exemplar meritocrático, os adultos forçam seus filhos a assistirem aos jornais, conhecerem o que está acontecendo no mundo, limitam seus filhos a educarem-se através da internet, ignoram parte do conteúdo visto por eles no YouTube etc. É fácil enxergar que o desenvolvimento desta geração está flácido. Desta maneira, a proposta que Reginaldo dá à sua obra, nasce fora de época e sem público, fragmentos de seu discurso, suave, acerca de assuntos históricos no Brasil, como o lugar da mulher na sociedade e onde a escravidão se encaixa neste protótipo de humanidade que vivemos, pode até funcionar e ter um caráter didático interessante, mas toda sua construção narrativa, a lentidão que ele propõe à uma desenvoltura dramática ou mesmo decisões estéticas que remetem a um estilo mais calcado no caráter onírico da história, irão ser esquecidos, simplesmente porque grande parte do público já não se interessa mais por tudo aquilo.

Quando vemos uma busca de introduzir a animação na obra, querendo esta ligação de aproximação com o fluxo imagético clássico e um aprimoramento na relação com a platéia infantil, até compreendemos a intenção, mas o funcionamento da estrutura no projeto final, é falho. A intencionalidade de alguns diálogos expositivos é justificada pela condução do diretor, porém, infelizmente, o trabalho com diversos atores é duvidável, ainda que Letícia Sabatella consiga atrair determinada atenção a um certo espírito onírico, a outra face do elenco fica solta no longa, sem amarras sólidas e compromete diversas cenas, por exemplo, um jantar onde um longo diálogo acerca do patriarcado caminha para alguma resistência ao mesmo. As intenções são boas, o problema é toda essa condução se dá a partir de um design televisivo que remonta não apenas a encenação das telenovelas mas sua fotografia e linha narrativa. A consequência disso é uma textura batida e já esgotada pelos olhos dos espectadores, ainda que a maior parte das pessoas só compreende a imagem desta maneira. Esse cruzamento entre cinema e televisão é absolutamente inevitável, mas é necessário saber quais são os limites que determinadas linguagens possuem na transcriação entre os dois. Aparentemente diversos filmes hoje em dia não difere os meios de exibição, nem o público, apenas traduzem aquilo que possivelmente dará bilheteria às telas, a fim de garantir um retorno garantido e ainda assim, não o faz.

A ideia como é um todo não é ruim, mas a falta de cuidado com a comunicação direta com a audiência e decisões estéticas que comprometem o funcionamento da proposta inicial, faz com que “Colar de Coralina” seja um projeto falido em ideias e morno em estilo.

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