Crítica: Emma e as Cores da Vida

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Ciclo de auto-referência

Por Vitor Velloso


Já foi dito inúmeras vezes como o cinema europeu se consagrou através de uma aproximação com o público a partir de uma pseudo-austeridade, que mais serve de exercício fálico intelectualizado do que propõe um formalismo autêntico à obra. A masturbação narcísica do ego eurocêntrico é culpada por diversas questões do “velho continente”, neste caso, a artística. “Emma e as Cores Da Vida”, possui parte dessa culpa. Não que haja, de fato, uma pretensão quanto ao espectador, mas um maneirismo de reforçar parte do exercício narrativo ocidental, um abuso dos gatilhos melodramáticos importando-se mais com uma caracterização típica, que buscando compreender o próprio material.

Dirigido por Silvio Soldini, conhecido pelo trabalho em “Pão e Tulipas” e “Que mais posso querer”, o diretor busca uma narrativa padrão de uma história de amor inusitada, não planejada. O desinteresse é tamanho, que o eixo narrativo paira entre um exercício de observação tolo e uma busca íntima em destrinchar parte do funcionamento do romance. Parece que não se permite sentir a narrativa, ou os personagens, apenas a visualidade que isso toma, além de uma confecção melodramática que consiga fisgar o público ou parte dele. A questão humorística que permeia o interesse da construção dramática não funciona de maneira pragmática, sendo frágil na imediatez inerente à proposta.

A obra não inflama nenhum sentimento mínimo na experiência completa, seja por falta de sensorialidade no andamento ou mesmo pela característica européia de retratar com esterilidade os relacionamentos. O projeto de visualidade compõe uma leveza que busca uma popularidade inerente à tolice do material, enquanto enfrenta as mesmices da “arthouse” e toda sua repetição infame de uma estética padronizada fadada à masturbação intelectual e estética dos flácidos seguidores da demência ao cult como gênero e forma. Ainda que a proposta seja minimamente válida a ideia, a pretensão que fundou o pensamento sucumbiu o conceito à mediocridade formal e narrativa.

Os personagens transitam entre o minimamente carismático e o completamente detestável. A insuportabilidade da histeria italiana retratada em um romance de Soldini, poderia resultar apenas no óbvio, tédio absoluto. Enquanto a luta para manter-se relevante à atenção das pessoas, nitidamente intensa, vai perdendo seu público aos poucos, vê-se um tremendo esforço em compor uma autoralidade mínima, com as características do diretor. Sendo falho nos dois pontos, o filme não irá sair do circuito burguês, uma pseudo-aristocracia decadentista presente nas áreas nobres de determinadas regiões, curiosamente, berço de diversos cineastas cultuados pela melosa velha-crítica que louva a narrativa engessada, como classicismo intelectualóide. Se minhas críticas a todas as instituições de panelinha cinéfila são comuns em diversos textos, é porque muitos longas seguem um padrão preguiçoso de tendência de nicho industrial, um dos maiores desserviços possíveis à cultura cinematográfica.

Essa tentativa de reconciliação entre um discurso popular à lá burguês, não é nova, longe de ser, mas a funcionalidade que é tenebrosa, de fato. Pois, é um conceito complexo de ser realizado filmicamente. Joaquim Pedro de Andrade é, sem dúvida, um dos melhores cineastas brasileiros a conseguir o feito, sendo capaz de uma proeza poética popularesca e com um teor semi-barroco, que apenas suas adaptações conseguiam retirar, seja Mário de Andrade à Graciliano Ramos. Além da cultura cinematográfica do diretor ser extensa e possuir referências claras, mas com a consciência de limites culturais, tratando-se, em si, de uma sincera releitura.

Todo o processo de realização de “Emma e as cores da vida” revela a fragilidade do conceito que o cineasta busca implementar. Ainda que todas suas ideias não sejam descartáveis, ele mantêm-se em um ciclo de ideias travados em um limbo de fracassos dramáticos, possuindo como maior problema, não reconhecer determinados limites que a narrativa possui, assim são os personagens. E todas essas complexidades que deveriam ter sido pensadas durante a produção ou mesmo na pós, são ignoradas. Manter-se fiel à uma determinada ideia ou ao roteiro, às vezes pode ser suicídio. Um diretor que não compreende as infelicidades de determinadas decisões, deve repensar como trabalha suas estéticas e histórias. Soldini já provou seu valor em outras obras, mas aqui, erra a mão e decepciona até os fãs.

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