Carmem Mirando em Slow Motion

Por Vitor Velloso

Durante o É Tudo Verdade 2019


Não me recordo a idade que tinha (acredito que uns doze anos), mas estava no carro de meu pai e escutei uma voz grave e impactante cantar “Vamos chamar o vento…”, perguntei à ele quem era que cantava, meu pai sorriu e disse: “Dorival Caymmi”. Eu na época não fazia a menor ideia de quem era, mas conhecia Caetano Veloso e Gil, não era um ouvinte assíduo mas possuía a ciência de suas existências. Quando mais velho passei a escutar com frequência Caetano e em uma entrevista lembro-me de ouvir novamente o nome, Caymmi, ao pesquisar, recordei daquele momento no carro, um nome quase impossível de esquecer, além do mais é uma das últimas lembranças que tenho de estar com meu pai na estrada, sorrindo, até hoje não sei se sorriu pela minha curiosidade ou da doçura de simplesmente dizer Dorival Caymmi.

Essa pequena história deve ser contada para que alguma dimensão pessoal seja passada ao leitor, pois falar de Dorival não é um exercício unicamente crítico, sempre levanta memórias e realça sentimentos.

Dirigido por Daniela Broitman, o documentário busca resgatar algumas memórias do cantor, recolher depoimentos da família e de cantores amigos. Não trata-se de uma biografia exatamente, muito menos de um levantamento de importância histórica, mas sim acerca da pessoa por trás da música. Encantador é um adjetivo pífio na descrição de Dorival, carismático é eufemismo, a brasilidade que ele emana é divina. E desta maneira Daniela busca retratá-lo, através destes depoimentos ela traça um retrato que é paralelo ao objetivismo recorrente do documentário convencional, o que não faz o longa original, tanto em estrutura quanto em caráter formal, pelo contrário, é rigorosamente arquitetado para levantar a nostalgia da persona e enaltecer sua obra. O que torna-se um problema ao longo dos noventa minutos, pois a repetição da essência de toda aquela construção fica brevemente maçante. Não o torna aborrecido, porém gera um breve maniqueísmo que não se justifica diante da temática que estamos assistindo.

Por sua vez, essa nostalgia funciona perfeitamente, saímos da sessão de “Dorival Caymmi – Um Homem de Afetos” querendo escutar os clássicos que por vezes nos esquecemos. E essa espiritualidade que Dorival possui, nos contamina. “Sentar é um gesto de grande dignidade. Exalta a preguiça”. Essa síntese de parte da Bahia é de uma beleza estonteante, é compreensível que Daniela tenha se encantado pela figura do cantor, mas infelizmente deixou ser engolida pela grandiosidade do assunto. Apesar de parecer simples montar um documentário onde o assunto central se expressa sozinho, isso dificulta as coisas, pois o filtro que a cineasta deve realizar tendo em mente a funcionalidade do filme passa na essência da realização do mesmo, sua paixão por aquilo, logo, julgar as decisões de Daniela a partir dessa admiração acerca daquilo é de uma ignorância tamanha, porém, exterior a este processo de feitura da obra, é possível sentir pequenos excessos na tela, esses afetos acabam por tomar conta da própria forma documental, gerando pequenas barrigas no fim. Ao mesmo tempo, essa é a chave do didatismo e da simples absorção feita através da projeção do longa, pois alcança exatamente aquilo que há de comum entre o espectador, Dorival e Daniela. Essa poesia brasileira que se emana involuntariamente de cada plano, graças ao músico e as pessoas que são entrevistadas, é de uma força única. Então grande parte de seus acertos geram consequências não tão positivas, mas suas “falhas” dão luz aquilo que há de melhor na obra. Logo, escrever sobre este filme é um exercício extremamente dúbio, que levanta questões reflexivas do ato que realizamos ao buscar elucidar questões e propostas formais.

A música de Caymmi elucida grande parte da história brasileira do século XX. Tendo nascido em 1914 e partido em 2008, ele atravessou quase toda a música brasileira, e isso se reflete não apenas em sua obra, mas nas entrevistas onde olhamos em seus olhos e podemos enxergar que por trás de todo o desespero nacional, as desgraças, tragédias que se amontoam diante dos noticiários, há um Brasil que abala-se, mas confia na sabedoria e no tempo daqueles que nos são superiores, que subjetivamente pode ser qualquer coisa (inclusive deidades), a Bahia, o Vento, o ato de observar os pescadores e quem sabe de possuir a consciência que a partida não é a pior das hipóteses, mas uma conclusão de sentido que só a idade e a vivência nos permite possuir.

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