Crítica: Crimes Obscuros

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Perdidos nos instintos

Por Fabricio Duque


O cineasta francês Jean-Luc Godard, em um de seus catárticos e passionais discursos de catárticos de efeito, disse que o “cinema morreu”. Talvez esta afirmação não esteja totalmente errada, e nas devidas proporções não tão radicais, se analisarmos que na verdade todas as histórias são as mesmas e recriadas por outros pontos de vista e outras perspectivas.

Vejamos o caso do filme em questão aqui! “Crimes Obscuros” muito pode ser comparado, por sua semelhante narrativa e ambiência cinematográfica, ao holandês “Instinto Selvagem”, de Paul Verhoeven, e ao sueco “Os Homens que Não Amavam as Mulheres”, de Niels Arden Oplev, com reflexos do americano “Seven – Os Sete Pecados Capitais”, de David Fincher, e principalmente do italiano “Salò ou os 120 Dias de Sodoma”, de Pier Paolo Pasolini.

Baseado no no artigo “True Crime – A Postmoderm Murder Mistery”, de David Grann, publicado em 11 de fevereiro de 2008 no The New Yorker, “Crimes Obscuros”, segundo longa-metragem do diretor grego Alexandros Avranas (de “Miss Violence”) traz sua trama ambientada na Polônia, falada em inglês e com o ator Jim Carrey no papel principal, vivendo o policial Tadek (“o último honesto”).

Produzido por Brett Ratner (de “O Regresso” e da direção de “X-Men: O Confronto Final “, “A Hora do Rush”), o filme busca uma psicológica atmosfera noir. É um drama criminal que objetiva a tensão sugestionada, adentrando no submundo sadomasoquismo, lugar este um “parque de diversões” a “pervertidos”. “A realidade é percepção”, diz-se.

O policial Tadek (“A Polônia”) investiga um caso de assassinato não resolvido e encontra semelhanças do crime em um livro do artista polonês Krystov Kozlow (Marton Csokas). Ele começa a investigar a vida do escritor e da sua namorada, uma mulher misteriosa (a atriz Charlotte Gainsbourg, de “Ninfomaníaca”, de Lars von Trier) que trabalha num sex club. Sua obsessão aumenta e Tadek fica cada vez mais atormentado, mergulhando num submundo de sexo, mentiras e corrupção.

Mas a tentativa de “Crimes Obscuros” naturalizar a realidade fica apenas em uma distante percepção. As interpretações transpassam o nível do anti-naturalismo. Os diálogos frágeis e altamente amadores soam como hesitações forçadas parecendo que seus atores apenas decoraram suas falas. O que sentimos é que todos ainda estão estão no pré-ensaio. Talvez pelo engessamento de seu diretor em trabalhar com um ator famoso, mais uma investida de Jim Carrey fora de suas tão conhecidas expressões caricatas e cômicas.

Entre a busca pela verdade, investigações, detector de mentiras, histerias, close contemplativo, tangentes moralistas, nós espectadores somos conduzidos a um universo redesenhado de Marques de Sade e sua literatura pôrno-erótica que desperta os leitores de suas pensantes e limitadas liturgias convencionais. “Apenas não se esqueça de quem você é”, diz-se. Será esta uma frase retórica e metafórica a um “simulacro fictício”?

“Nada na vida é permanente”, outra mensagem (talvez) subliminar. Sim. E ainda bem. “Crimes Obscuros” quer uma espontaneidade orgânica, mas encontra uma limitada e vulnerável resultado. “O rio tem um fim e um início” e “A verdade é tudo o que resta” são outras frases que corroboram esta ingenuidade criativa. É o acreditar incondicional sem filtro.

Assim, o longa-metragem caminha na corda bamba de fracas interpretações, de falsos silêncios induzidos, tornando-se completamente perdido, em voltas à moda de uma “barata tonta”. Contudo, há vontade de acontecer. E com potencial. Na sua direção de arte, seus cenários underground e sua estrutura sensorial. Só que a parte técnica não consegue segurar a responsabilidade pelo contexto, visto que cinema é uma arte acoplada de elementos e todos precisam estar conectados e em sinergia.

As interpretações optam pela pressa (e nem mesmo a de Jim Carrey salva – por causa de uma mimetização padronizada e condicionada de seus papéis anteriores já enraizados), como se estivessem em um filme B de Ed Wood. O roteiro, fora de tom, escolhe sempre a saída palatável e de fáceis reviravoltas. Tudo é reverberado na direção, que se tivermos que usar um único adjetivo seria preguiçosa, pelo imediatismo atropelado e pela falta de apurar a tradução da história à tela grande.

“Crimes Obscuros” traz o questionamento sobre para onde o cinema vai. Será que morreu mesmo? Será a teoria de Tostines (comercial de biscoitos que tinha como slogan “Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais”)? Será que o querer pela simplificação afeta a simplificação dos filmes, visto que a sétima arte é um espelho do mundo atual em que vivemos? Estas e inúmeras perguntas resumem e explicam cirurgicamente esta obra.

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