Blá Blá Blá Chanchadesco

Por Vitor Velloso


E lá vamos nós para mais uma obra chanchadesca adolescente que não busca a originalidade no discurso, nem mesmo uma questão de anti autoria pode ser argumentada durante a projeção. Maísa, Fernanda Paes Leme, Filipe Bragança e todo mundo unido sob o comando de… Bruno Garotti. Pera, esse nome não me é estranho… Verdade, é o diretor de “Eu fico loko”, “Tudo por um Popstar” e sua nova pérola “Cinderela Pop”. Como escrever sobre algo que foi clonado três vezes às telonas pela mesma pessoa? Incessantemente meus dedos fuzilam o teclado na esperança de se encerrar esta crítica com alguma virada de roteiro da vida. Na mesma velocidade que digito, ele replica seus filmes. E Maisa ganha mais dinheiro.

“Ah mas possui um público alvo e blá blá blá”. É verdade. Possui inclusive sua identidade estética de internet e todo um jogo de misancene que lembra uma web-série. Mas além dos diferentinhos que irão defender certas obras com frases soltas, buscando alguma brasilidade em toda a encenação que há nesta tortura cinematográfica, não há o que se defender aqui. E esta pseudo identidade que alguns dizem, é reflexo frágil de uma colonização da cultura norte-americana, onde celebrar pequenas frases do roteiro em uma nacionalidade própria é… descolado. O cansaço da indústria brasileira é nítido, a preguiça é epidemia, não há mais uma busca em se conciliar uma qualidade e o produto rentável, apenas o dinheiro importa. E se a geração youtube é o alvo fácil, que assim seja, vamos atrás dela. A toxicidade deste mercado falido ideologicamente e natimorto criativamente se dá na própria característica de reprodução da contemporaneidade.

Se a reprodutibilidade irrefreável dessa flácida ideologia medida em cifras é o que rege todas essas produções que vemos alavancar grandes multidões nos cinemas, por outro lado vemos o mesmo povo se alimentando repetidamente da mesma forma, e sempre, à maneira dos engravatados. Inconscientemente toda a doutrinação que acontece na TV, se dá agora em tela grande. Como uma doença esse modelo de produção vai dominando todo o mercado até que não haja mais interesse dos exibidores em dar espaço à autoria, ou minimamente, à reflexão. A agressiva proposta de desmantelar à cultura brasileira e dar lugar a estes produtos que mal compreendem seu lugar nos cinemas, fora às tabelas de lucro, é feita de maneira vil e intencionada sempre visando fragmentar o pensamento em resoluções de estereótipo e equalização de postura das classes. Linearizar a atitude e visão de todo o escopo nacional é a primeira medida a ser tomada pelas corporações colonialistas que buscam a infiltração total. O cinema é a bola da vez.

Nenhuma decisão estética da obra é minimamente pensada, fora a cópia da linguagem contemporânea de internet. Nenhum corte é cobiçado, minimamente um plano elaborado ou um diálogo limpo, sempre a superexposição à frente da direção. Como se o público não pudesse enxergar mais que um véu na tela. Não há recompensa em assistir a “Cinderela Pop”, pois tudo que se vê foi retirado de algum lugar e pra piorar, não existe dramaticidade ou desafio durante a projeção, todas as viradas no roteiro são mais que previsíveis, não apenas por tratar-se de uma livre adaptação de Cinderela, mas por uma questão de estereótipo e preguiça de encenação. Com uma narrativa tão direta que cansa, ao olharmos para um personagem o descrevemos em uma palavra, nada mais que isso, e sabemos todas suas intenções até o fim do filme. Incrivelmente, não tem como errar. Nenhuma vírgula foi colocada visualizando uma identidade enquanto se “aprecia” o longa, apenas um algoritmo imprimiu a obra pronta e Bruno assinou.

Curiosamente não venho aqui criticar autoria ou qualquer coisa do gênero, muito menos a validade do texto, apenas alertar que com uma intensidade monstruosa projetos como este vem ganhando espaço no mercado e nos editais, o que é mais grave. A supersaturação desse estilo irá implicar primeiramente numa limitação grotesca do processo cinematográfico, em seguida, o colapso do mesmo.

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