Crítica: Alita: Anjo de Combate

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Melhor do que parece ser

Por Pedro Guedes


“Alita: Anjo de Combate” tinha tudo para dar errado. Para começo de conversa, trata-se de um projeto que James Cameron tenta levar à frente desde a década de 1990 e, quando a produção finalmente começou a caminhar, ocorreram vários adiamentos que empurraram o lançamento em mais de um ano (e este tipo de problema costuma ser mau sinal). Além disso, a premissa da obra é incrivelmente batida e traz elementos que já foram explorados à exaustão em um milhão de filmes, livros, animes e jogos – e como se não bastasse, a direção do longa foi concedida a Robert Rodriguez, um cineasta com uma carreira extremamente irregular e que nunca demonstrou ter amadurecido com o passar dos anos.

Mas já dizia Roger Ebert: “O que importa não é sobre o que o filme é, mas como ele é” – e qualquer premissa, por mais batida que seja, pode funcionar caso desenvolvida de maneira correta. Assim, foi com surpresa que constatei que “Alita: Anjo de Combate” é uma obra bem melhor do que parece ser, criando sequências de ação eficazes ao mesmo tempo em que desenvolve a protagonista de maneira inesperadamente emocional; o que não quer dizer, no entanto, que o filme resista a todos os problemas presentes no (fragilíssimo) roteiro.

Baseado no mangá “Gunnm” (ou “Battle Angle Alita”), que Yukito Kishiro lançou em 1990 e que já foi transformado em anime, o longa se passa no futuro distópico de 2563, quando uma guerra conhecida como “A Queda” devastou a Terra e separou a população em duas castas sociais: os mais pobres se encontram na Cidade de Ferro e os mais ricos vivem em Zalem. Ainda na cena inicial, o doutor Dyson Ido encontra, no meio de escombros, o corpo de uma ciborgue – e esta é imediatamente reativada, mas com suas memórias apagadas, recebendo então o nome de Alita. A partir daí, a trama se torna um pouco mais elaborada: a personagem-título começa a relembrar sua vida anterior e descobre dominar artes marciais, trabalhando como caçadora de recompensas, se relacionando com o jovem Hugo e partindo em direção ao empresário Vector (leia-se: o vilão da história).

Ambientado num futuro onde a convivência entre humanos e máquinas já foi conquistada, deixando para trás os conflitos existenciais e filosóficos que vimos em “Blade Runner” e em obras de Isaac Asimov, “Alita: Anjo de Combate” conquista o espectador a partir de sua ótima construção de mundo: observem, por exemplo, como o capitalismo se tornou ainda mais forte com o passar dos séculos, utilizando o pretexto de uma guerra para acentuar a distância entre os pobres (cada vez mais pobres) e os ricos (cada vez mais ricos) – e é interessante perceber como as corridas de Motorball (o passatempo favorito dos cidadãos do futuro) não se resumem à mera pirotecnia, desempenhando uma função narrativa clara ao estabelecerem como aquele esporte serve para distrair a maior parte da sociedade ao passo que os grandes empresários tomam conta do que acontece nos bastidores (imaginem o tanto de corrupção que já passou por ali).

Neste sentido, os designers de produção Caylah Eddleblute e Steve Joyner realizam um trabalho indispensável e digno de nota: explorando com eficiência a interação das máquinas com os seres humanos, o filme nos apresenta a uma série de personagens que são originalmente feitos de carne e osso, mas que contam com implantes cibernéticos peculiares (e que, claro, se revelam úteis na hora da ação). Da mesma forma, os robôs que policiam as ruas da Cidade de Ferro soam como uma versão 2.0 do ED-209, de “RoboCop”, ao passo que a Alita em si exibe, no rosto, dois imensos olhos que funcionam surpreendentemente bem ao resgatarem o estilo estético dos mangás. O mesmo talento se vê aplicado aos ambientes que surgem no decorrer da narrativa: a Cidade de Ferro é um lugar poeirento, desgastado e localizado na superfície, ao passo que Zalem é vista sempre de longe como se fosse um paraíso cibernético, brilhante e situado acima das nuvens – e a fotografia de Bill Pope (“Matrix” e “Homem-Aranha 2”) ajuda nesta concepção, estabelecendo com cuidado os contrastes entre ambos os cenários.

Outra grata surpresa proporcionada por “Alita: Anjo de Combate” é a direção de Robert Rodriguez, que, embora forçado a conter seus impulsos e provavelmente preso às exigências feitas por James Cameron, realiza um trabalho surpreendentemente competente: as sequências de ação, em especial, são empregadas de forma cuidadosa e movem a trama em vez de interrompê-la. As cenas que enfocam lutas, perseguições e/ou tiroteios, em geral, são conduzidas de maneira eficaz, já que Rodriguez evita cortes excessivos e utiliza planos abertos que, aliados aos momentos pontuais de câmera lenta, permitir que o espectador sempre entenda o que está acontecendo. Além disso, o cineasta consegue intercalar a ação com passagens mais intimistas, dando ênfase aos sentimentos e às reações emocionais de Alita conforme ela descobre quem verdadeiramente é – e este tipo de coisa não é de se esperar em um filme de Robert Rodriguez.

Mas o ponto alto de “Alita: Anjo de Combate” é a personagem-título, que poderia facilmente se transformar em uma heroína infalível e sem personalidade (como a Motoko de “Vigilante do Amanhã”), mas que surpreende ao se revelar bem mais do que isto. Vivida pela expressiva Rosa Salazar (de “American Horror Story”), Alita é uma garota que perdeu a memória de sua vida passada e, portanto, desconhece a própria identidade, sentindo um peso em função disso, expondo suas emoções de maneira sincera e se interessando pelo mundo que está ao seu redor (ao comer uma laranja pela primeira vez e descobrir o sabor da fruta, ela sente um prazer genuíno). Chega um momento, porém, em que Alita começa a compreender seu papel e seus limites, transformando-se em uma guerreira imponente, objetiva e capaz, mas que nem por isso esconde seus sentimentos (e a transição que leva a personagem de “garota indefesa” até “heroína imponente” é conduzida com cautela por Salazar e pelo roteiro).

Por outro lado, os demais personagens (e atores) não têm a mesma sorte – e tirando a protagonista, o único que se destaca é Christoph Waltz, que encarna Dyson Ido como um sujeito que tem seus interesses particulares, mas que sente um carinho incontestável por Alita (aliás, é um alívio ver Waltz interpretando um personagem que não soa como uma variação daquele que viveu em “Bastardos Inglórios”). Preso a um vilão caricatural, genérico e que beira o unidimensional, o geralmente brilhante Mahershala Ali pouco tem a fazer sob a pele do empresário do mal Vector, ao passo que Ed Skrein e Jackie Earle Haley surgem como capangas nada ameaçadores e tremendamente esquecíveis. Para completar, Jennifer Connelly parece ter ligado o piloto automático antes mesmo de entrar no set de filmagem, já que, embora sua personagem até conte com algumas nuances que tendem a torná-la um pouco mais complexa, a performance da atriz desperdiça isto e converte Chiren em uma figura simplesmente aborrecida.

Aliás, os problemas de “Alita: Anjo de Combate” não param por aí: vivido pelo inexpressivo Keean Johnson (que em momento algum parece se sentir à vontade), o jovem Hugo serve de par romântico obrigatório da protagonista – infelizmente, a dinâmica entre os dois personagens não chega sequer perto de funcionar, já que a química entre Johnson e Salazar é nula, o romance em si é estabelecido de forma excessivamente apressada e os diálogos entre os dois atingem níveis extraordinários de cafonice, resultando em uma história de amor tola e melosa que parece existir apenas para que o roteiro cumpra com sua meta de clichês (é como se o filme pensasse: “Puxa, precisamos encontrar um namorado para a heroína, já que praticamente todos os outros blockbusters contam com protagonistas que se envolvem com alguém!”).

Por falar em clichês, estes são quase onipresentes em “Alita: Anjo de Combate” e, querendo ou não, isto acaba enfraquecendo o resultado final. Escrito por Laeta Kalogridis e pelo próprio James Cameron, o roteiro raramente exibe alguma criatividade e se concentra em arquétipos, situações e conceitos absurdamente batidos. Todos os clichês possíveis estão presentes aqui: a protagonista desmemoriada que tenta decifrar seu passado; o ciborgue com sentimentos; o romancezinho bobo entre a personagem-título e um rapaz sem personalidade; a heroína que, além de artista marcial, é também uma máquina de matar; o futuro pós-apocalíptico que se concretizou após eventos cataclísmicos; os vilões que parecem enxergar cifrões em tudo quanto é lugar; os capangas que posam de ameaçadores; a promessa de uma revolução que virá nas continuações; etc.

Em outras palavras: chega um momento em que “Alita: Anjo de Combate” quase se transforma em um jogo do tipo “encontre o clichê cinematográfico” – e isto se torna ainda pior graças à artificialidade presente em certas passagens, como aquele flashback que mostra o que ocorreu com a filha do doutor Ido e que se revela dolorosamente brega. De qualquer forma, isto não representa um problema tão grande quanto o excesso de exposição presente no roteiro, que é sobrecarregado de momentos onde os personagens simplesmente param e explicam, para Alita (e para o espectador), todos os conceitos daquele universo, quem é fulano/sicrano/beltrano e o que está acontecendo na trama. No primeiro ato, isto até faz algum sentido (afinal, Alita não conhece nada do que está ao seu redor); quando o filme está quase terminando e os personagens ainda estão se comunicando através de diálogos pavorosamente expositivos, aí fica difícil de aturar.

Terminando com um “gancho” para uma possível continuação (que, caso não aconteça, deixará o espectador sem algumas respostas), “Alita: Anjo de Combate” comete erros bobos que poderiam ser facilmente evitados, mas ainda assim funciona bem. Está longe de ser um filme excepcional, de fato, porém a construção de seu universo e a humanidade de sua protagonista (que, ironicamente, é uma máquina) são capazes de conquistar o espectador.

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