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A Favorita

Competições, venenos e estranhas loucuras

Por Fabricio Duque

Festival de Veneza 2018

A Favorita

Depois das exibições no Festival de Veneza e Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o novo filme do grego Yórgos Lanthimos, “A Favorita”, conhecido pela estranheza da construção estética de realidade surreal em “O Lagosta”, “Dente Canino” e “O Sacrifício do Cervo Sagrado”, chega ao Globo de Ouro, entre os cinco escolhidos da categoria de Melhor Longa-Metragem de Comédia. Sim, é a típica obra em que as pessoas ou amam ou odeiam, completamente. Uns vão dizer que a narrativa é inovadora, outros, pretensiosa. Amador ou genial.

“A Favorita” é um filme de época que se deixa acontecer pelo fio condutor de uma espontânea e elegante naturalidade, para transgredir o próprio conceito. De se criticar a hipocrisia da aristocracia (“a lama que fede”). com viradas pop. “Amar não deveria ter limites”, diz-se, cuja ambiência infere aos cineastas Wes Anderson e Roy Andersson, e recentemente, ao seriado “The Romanoffs”, passando por Bruno Dumont. Há um humor ácido, agridoce, de veneno ingênuo. É sobre o poder ditatorial de uma classe social a outra, com seus surtos, manias, excentricidades e arrogantes idiossincrasias.

A trama busca humanizar pelo orgânico. Com maquiagens dramáticas, a prima empregada (uma “Cinderela” modernista à moda de “Maria Antonieta”, de Sofia Coppola, e as ervas da floresta que diminuem o inchaço), crises de gota, tudo envolto pela câmera que gira, pelas fusões de imagens de rostos, pelas formalidades dos eventos e pelos ruídos brancos, repetitivos, quase intermitentes, com o intuito de transmitir um incômodo. Lanthimos tem o controle absoluto da direção. “Boa para o próprio bem”, ensina.

Na Inglaterra do século XVIII, Sarah Churchill, a Duquesa de Marlborough (Rachel Weisz) exerce sua influência na corte como confidente, conselheira e amante secreta da confusa Rainha Ana (Olivia Colman, irretocável, principalmente pelas sutilezas de seus olhares que dizem tudo – vencendo no Globo de Ouro como Melhor Atriz de Comédia), que não sabe quem escolher. Na verdade, a majestade quer as duas. Seu posto privilegiado, no entanto, é ameaçado pela chegada de Abigail (Emma Stone), nova criada que logo se torna a queridinha da majestade e agarra com unhas e dentes à oportunidade única. “A dignidade de um homem é a única para não enlouquecer”, diz.

“A Favorita”, escrito por Deborah Dean Davis e Tony McNamara, é um filme em capítulos, como a de um livro clássico trazido à atualidade. Entre confusões, acidentes, “pai charmoso”, “progressões” no cargo (de “patos almofadinhas”), ironias, insinuações sexuais, ares noturnos, traições, fofocas, luzes, sombras, segredos, danças modernas dos bailes, vinganças, competições, quebras “old fashioned”, zombarias e pilhérias, jogos psicológicos e cruéis, tudo é uma grande jornada à transmutação e à psicopatia, em acordar os demônios adormecidos de dentro, “aprender a ser uma assassina” e a “deixar o sangue quente”. Com a fotografia que cria uma profundidade panorâmica, como um 3D sem a necessidade de óculos especiais. Nós estamos lá. Convidados.

O longa-metragem, a cada instante, aprofunda-se na sensação psicológica, imprimindo uma paródia de destruição de suas personagens por um que Marques de Sade. Embarcamos no liberalismo sexual, em coelhos que substituem filhos. São brigas de “cachorro grande”. Elas são sensíveis, malvadas, dissimuladas, oportunistas, decididas, invejosas, loucas, desengonçadas, catárticas, instintivas e “perseguidas por tragédias” (e “lagostas”, mais uma sútil referência às obras do próprio diretor), praticamente o supra-sumo dos sentimentos mais intrínsecos de todo e qualquer ser humano.

“A Favorita” é uma guerra para conservar o lugar. São lobas em peles de cordeiros. Elas, víbora em auto-sobrevivência, empenham-se com mordazes artimanhas, teatros arquitetados (altamente egoístas, individualistas, orgulhosas, narcisistas e vulneráveis) para proteger o caráter. O filme fica mais surreal e perde de vez os limites da moralidade. Não há mais refúgios politicamente corretos. Mais venenos e mais analogias. É a decadência nua e crua de “Dionísio” para “recuperar o Reino”. É uma experiência visual, de recriar sensações que afastam e aproximam sentimentos ao mesmo tempo, muito bem equilibrados, especificamente pela fotografia de Robbie Ryan (de “Docinho da América”, “Jimmy’s Hall”, “A Parte dos Anjos”); pela montagem de Yorgos Mavropsaridis. Concluindo, integrado, conectado e preciso para que todos possam brilhar.

4 Nota do Crítico 5 1

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